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3.1 Enfim, meu lar

Lisboa, Portugal.

15 de setembro de 2017.

Enfim meu lar.

Enquanto tento entender a maioria das coisas que o meu professor tagarela na aula de português, apoio a testa em meus braços, com a cabeça quase explodindo do tanto que lateja.

Essa matéria, com toda certeza, é a das mais complexas e essa língua é a mais difícil de se aprender, ainda mais para mim com meu forte sotaque irlandês. Certamente sou melhor em espanhol. De todos em casa, apenas eu estou aprendendo português. Meus tios conversam com os outros no inglês mesmo.

Posso nem reclamar, pois fui eu quem escolheu o lugar.

Com meu coração batendo a mil, joguei um dedal em cima do mapa múndi, para ele simplesmente cair em cima de Portugal.

Posso dizer com orgulho que viemos para cá assim que completei treze anos e daqui a alguns meses farei quinze.

Vocês tem noção do quanto sou feliz?

Tinha praticamente me esquecido do que é ter um lar de verdade, não que eu tivesse algum pra lembrar, mas aqui eu me sinto em um e isso é completa e irrevogavelmente aconchegante.

Paro de tentar entender o que meu professor diz e apenas fecho os olhos para descansar. Estou esgotada, aposto também que com profundas olheiras. Resultado de uma festa do pijama com meu melhor amigo, Jimmy. Uma noite foi bem louca.

Sinto meu rosto esquentar ao lembrar de ontem, na sala da minha casa (com Ryan indo verificar as coisas a cada segundo), enquanto víamos um filme qualquer de suspense, nos entre olhamos e senti uma boa tensão no ar.

Só percebi que ele ia me beijar quando nossos lábios já haviam se tocado. Foi tão rápido que nem o vi chegar perto. Fico feliz em dizer que não foi o único beijo daquela noite...

Pela primeira vez em dias, não tive pesadelo nenhum, o que me faz pensar em convida-lo para dormir em casa de novo. Talvez eu faça isso.

Sinto alguém me cutucar e levanto o rosto, deparando com os enormes olhos pretos da Bia e seu longo cabelo loiro escorrendo pelos ombros. Ela move suas sobrancelhas com expectativa, provavelmente querendo saber o que houve ontem entre eu e Jimmy.

- Quero saber de tudo. - diz nem um pouco sutil, confirmando meus pensamentos.

- Foi melhor do que imaginava. - cochicho já levantando da carteira e pegando o material mal usado, para irmos à cantina. - eu achei que seria babado e nojento, mas foi perfeito. Ele foi perfeito...

- Pois Jimmy é muito giro. - sussurra em meu ouvido para que os alunos que estão no corredor não ouçam. - E caidinho por ti.

Chegando na cantina, avisto Jimmy numa mesa sozinho, provavelmente esperando por nós duas. Seu cabelo cacheado que bate nos ombros balançam com seu movimento, seus olhos castanhos brilham ao me ver e a pele escura deixa seu sorriso de covinhas mais convidativo ainda. Quando me recomponho vou até ele e puxo Bia comigo.

Faço questão de me sentar ao lado dele e sorrir calorosamente para o mesmo que segura uma garrafa na mão.

- Quer sumo de maracujá? - pergunta descontraído.

Imediatamente faço uma careta. Odeio suco de maracujá, prefiro mil vezes um refrigerante bem gelado. Isso porque não gosto muito de frutas, exceto morango, claro.

Ele entende o recado e volta a beber, Bia começa a tagarelar as coisas de sempre, eu e Jimmy apenas concordamos quando necessário.

De repente, enquanto ela falava o quanto educação física é um saco, sinto os braços dele envolver minha cintura, puxando-me para mais perto dele e fico levemente corada e arrepiada. Isso é completamente novo para mim.

Ficamos assim até tocar o sinal e me despeço dele com um casto beijo no canto dos lábios. Então vou com Bia para a próxima aula, recebendo sorrisos maliciosos por ela, o tempo todo.

Sento-me no fundo e tento prestar atenção, mas aos poucos o cansaço toma conta de mim. Minhas pálpebras pesam e sou vencida pelo sono.

"Estou em um campo, o tão conhecido campo. De volta ao meu tão temido pesadelo. Uma guerra se inicia ao meu redor.

Mortes, sangue. Tudo que vejo. Vidas sendo tiradas aos poucos, com uma incrível facilidade.

Isso é guerra. Não para acabar com conflitos, mas sim para acabar com vidas. Pois um dialogo entre duas pessoas sabias conseguiria encerrar qualquer conflito, não uma guerra. Porque guerra só traz morte. Morte só traz tristeza.

Lobos contra pessoas.

Tem tudo para ser completamente surreal.

Os lobos são enormes e de diversas cores, quase do tamanho de um humano, creio eu que sejam até maiores. Eles são ágeis e rápidos demais para um lobo normal. Surreal. Parecem até conversar entre si, planejar algo e seus olhos chegam a ser humanos.

Essas "pessoas" com quem estão lutando, tem tudo para serem normais, só que as presas e os olhos negros as entregam, fora a velocidade com que se movem e a força que têm. Surreal.

Parece mais uma historia dos irmãos Grimm.

Então do nada o cenário muda.

Um enorme lobo negro (o maior deles) lutando contra um homem branco. Não consigo distinguir quem é o mocinho. Poderia ser quase normal, se esse homem branco tivesse face.

No local de onde deveria ter seu rosto, se encontra apenas um borrão de dar medo, como se independente de como esse homem seja, ver o rosto não mudaria nada.

Meu coração encolhe ao vê-lo avançar no lobo já cansado, mas algo os interrompe.

Uma mulher de cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, olhos totalmente desesperados para proteger o lobo que parece ser importante para ela.

Caminho para mais perto dos dois, já que sou como um fantasma aqui.

O homem branco (quem decidi nomear como “do mal”) avança na mulher sem piedade e bem na minha frente começa a arrancar as tripas dela. Como se quisesse acabar com algo que se encontra em sua barriga. A vida da mulher (que não consigo distinguir direito o rosto) se vai aos poucos, deixando-me em pânico.

O cara para de arrancar suas tripas e com uma lentidão tenebrosa vira seu rosto em minha direção.

Consigo ver um sorriso borrado e malévolo, ele começa a correr em minha direção, fecho os olhos esperando pelo pior acontecer.

Silêncio..."

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