2.2 Halloween
Solto uma risadinha irônica e todas olham para mim, solto um “Hi” e balanço a palma da mão em cumprimento, elas se entreolham e cochicham, para logo começarem a rir.
Não entendo...
O que eu fiz? Minha cara não está suja, conferi antes de sair. Mas mesmo assim elas estão rindo de mim e estou me sentindo muito mal com isso.
Não quero ser motivo de gozação, muito menos se eu não souber sobre o que falam. Pois sei muito bem que posso imaginar coisas piores que a verdade. Não saber é pior.
- Ela esta fantasiada de cachorro! - diz uma menina loira.
Arregalo os olhos confusa. Olho para a minha direita, em que tem um espelho enorme e percebo estar fantasiada de lobo?...
Não!
Finalmente percebo o motivo e por mais idiota que seja, relaxo um pouco. Mas fico enfurecida com minha tia.
Por que a Estefane fez isso?
Prefiro muito mais uma típica fantasia de vampiro a isso – todo mundo prefere vampiros, Isabella Swan de “Crepúsculo” que me diga.
Se bem que o rabo tinha me deixado desconfiada... Mas não estou mal.
Na verdade, estou fofa até demais.
O rabo é fofinho assim como as orelhas falsas, o macacão é quentinho com a parte branca da barriga e o tecido é de veludo, muito fofo. Meu cabelo está dividido em duas tranças, o que me deixa com um ar de neném, dando uma fantasia pra lá de fofa.
- Isso é um... - tento me explicar.
- Ela é um cavalo! - diz outra garota apontando para mim enquanto gargalha.
Elas estão fazendo com que me sinta tão inferior. Abraço meu corpo, como se tivesse encolhido, preferia nem ter vindo.
Estão apontando o dedo pra mim, rindo, achando graça de uma roupa boba. São todas idiotas. Não devia me importar com isso, mas não dá. Dói tanto que estou prestes a chorar, mas não na frente delas.
Saio da casa na hora e começo a correr pela rua sem saber para onde ir, sem rumo. Afinal, não conheço a rua nem um pouquinho, para mim é tudo igual, e não é como se eu estivesse procurando por algum local. Por fim entro num beco e vou até o final, para poder me sentar sem que ninguém me veja.
- Por quê...
Abraço minhas pernas e apoio minha cabeça no joelho, chorando silenciosamente, deixando essa dor vazar.
Queria ter alguém em quem confiar, em quem possa conversar sobre qualquer coisa... Como meus pais comigo, porque minha cabeça está numa confusão, como se estivesse no meio de um tumulto, no meio de um furacão e não houvesse saída.
Meus pais conseguiriam me tirar desse tumulto, como um sinal brilhando num ponto, mas não consigo vê-lo e isso me mata por dentro.
- Bizarro... - ouço uma voz grave e fico arrepiada.
Travo na mesma posição, mas não por causa do medo. Pois me sinto incrivelmente segura e calma. Eu estou paralisada por causa da voz dele, como se tivesse sido feita para me agradar.
Reúno coragem e olho para o dono dessa voz. Sua pele é muito pálida, quase que transparente, não, ela é como a neve. Seu cabelo é branco e por causa da raiz parece ser natural, mas é difícil acreditar nisso.
O que me faz pensar se ele é de verdade.
- Bizarro ver você chorar. - completa com escárnio.
Fico boquiaberta sem acreditar no que acabei de ouvir.
Ele se demonstrou tão arrogante ao dizer uma coisa dessas para alguém que esta chorando e pior, sua expressão parece nem ter mudado diante da minha expressão de surpresa. Esse cara não tem coração?
- Saia daqui. - resmungo baixinho e entredentes, com raiva crescendo em meu peito.
Levanto o rosto mais uma vez, para que ele perceba a frustração que sinto. E de repente fico presa em seus olhos claros de um tom azul e verde ao mesmo tempo, preenchidos por um vazio, deixando-os lindamente sombrios.
- Não dá - diz com desdém e o lábio repuxado para cima. - e isso é culpa sua.
- O quê? - não pode ser minha culpa, não fiz nada.
- Estou sentindo a mesma dor que você. Solidão... Vergonha... Tristeza... - ele se agacha, sentando a poucos centímetros de mim (dando uma enorme vontade de toca-lo só pra certificar se não estou alucinando) e me encara com nojo, como se eu fosse uma criatura horrenda que causasse dor. - E por mais estranho que seja, fico mais triste por saber que você se sente tão mal. Pois então controle seus sentimentos.
- Não é tão fácil assim... - sussurro mais baixo que o normal.
- Se ficar pensando que é difícil, jamais conseguirá.
Não entendo o que esta havendo. É tão surreal. Possivelmente eu estou sonhando, mas está tão nítido que é difícil acreditar nisso.
Caso seja um sonho, não me importo em permanecer adormecida por mais algum tempo.
- Meu anjo da guarda... - solto sem controlar.
- Seu o quê? - pergunta confuso.
- Você serve pra me proteger, né? - ergo minha sobrancelha com um sorriso de lado.
Ele ficou visivelmente incomodado e um pouco surpreso.
Encaro seus olhos sem vida ou humor, por isso sustento mais ainda a possibilidade disso ser um sonho. Aproximo-me dele e toco seu rosto pálido e frio, como uma mármore, só que milhões de vezes mais belo e ao mesmo tempo suave e macio.
Seu corpo petrifica diante do meu toque. Não movendo nenhum músculo, como se eu estivesse machucando-o. Pressiona sua mandíbula com raiva. Deixando-me um pouco apreensiva e com uma rapidez nada normal, ele aparece a uma distância considerável de mim. Sua expressão de nojo continua visível.
- Desculpa. - digo encarando minha mão parada no ar.
- Não faça mais isso. - sussurra com raiva. - ouviu bem? – falar baixo o faz parecer com mais raiva que acho possível, fazendo com que eu me encolha.
- Si-sim. - gaguejo com medo.
- Bom... Você parou de chorar, melhor eu ir embora, antes que faça algo que não deva. - levanta-se com seu humor já mudado.
- Espera! - grito e hesito assim que ele me lança um olhar mortal e percebo que estou quase a segurar sua mão. - Como você esta aqui? - pergunto voltando a me sentar como um boa garotinha.
- Não estou aqui de verdade. - para de andar, se mantendo de costas para mim. - Estou em sua mente.
Sabia que era um sonho.
- Mas...
Então desaparece num piscar de olhos, como uma névoa sendo levada pelo vento e por mais que eu tenha sentido medo, torço para vê-lo novamente.
