2.1 Halloween
Califórnia, Estados Unidos.
31 de outubro de 2015.
Halloween.
Observo de dentro do carro as pessoas andando a passos lentos pela calçada umedecida por causa da chuva de mais cedo, a qual também causou longas poças d'água, cujas as pessoas evitam a todo custo.
Todos vestem roupas neutras que combinam perfeitamente com o pacato tempo nublado e clima molhado, para provavelmente irem rumo a mais um dia repetitivo de suas vidas, com suas roupas comuns que cobrem todo o corpo com a finalidade de afastar o frio do corpo. Ou apenas parecerem mais mórbidas que o normal.
Odeio ver isso.
Não é legal olhar pelo vidro do carro e perceber o quanto as pessoas são previsíveis, cada uma como é, mas sempre previsível. Não importam as diferenças, porque no fundo todas têm sonhos, medos, desejos...
Como uma criança que sonha ser astro do futebol ou da realeza.
Ou uma mera pessoa, que deveria se importar apenas em sonhar, mas tem suas esperanças acabadas por não existir oportunidade. Como um morador de rua que sonha em ter um lar mas nem é visto pela sociedade, tornando-se apenas pó.
Também não é legal olhar pelo vidro do carro e perceber que nem o céu faz questão de chamar atenção, de aparecer com sua beleza exuberante continuamente, ou quando não sou envolvida pelo calor das rajadas solares que descongelam qualquer resquício de tristeza presente em mim, ou...
A som agudo e irritante da buzina do carro ao lado tira toda a atenção de qualquer pensamento, para enfim perceber o quanto a aula de hoje foi solitária.
Sozinha...
Todo ano é assim.
Estefani tenta me animar comprando livros e Ryan sempre faz o possível para me ver rir. No entanto, presumo que seria mais natural ser feliz se meus pais estivessem aqui. Pois lembro-me muito pouco do último dia que os vi.
Parece que tudo se tornou tão diferente que tenho medo de que não me reconheçam (caso um dia os veja novamente). Só o que não muda são os pesadelos constantes, que insiste em nunca me abandonar desde o dia da separação.
- Princesa... - ouço Ryan me chamar sem tirar atenção da estrada.
- O que foi, tio? - inclino-me para frente ficando entre os bancos da frente, só para poder ouvi-lo melhor.
- Já viu sua fantasia? - pergunta olhando pelo espelho retrovisor.
Fecho a cara pra ele. Em hipótese alguma quero ir à essa festa estúpida. Até mesmo eu consigo perceber que fui convidada por pena, pois a anfitriã nem gosta de mim, imagine sua trupe arrogante.
Mas meus tios não entendem isso, pois claramente não passaram pelo mesmo que eu.
- Eu não irei. - cruzo os braços ao resmungar convicta.
- Mary... Vai ser legal a festinha, vai poder se divertir com seus... - Estefani começa a falar e ao perceber minha reação, corrige-se. - Vai poder conhecer novas pessoas. - Suspira irritada. - Você foi convidada, então vá e faça amigos novos, não colegas.
Seu tom de voz deu a entender que aquela era a decisão final e ninguém poderia contestar.
Como uma péssima perdedora que sou, jogo-me no recosto do banco e bufo, sentindo algo dentro de mim se revirar de raiva.
- Não entendo. Por que fazer amigos, se daqui a algumas semanas iremos embora? - pergunto rudemente, e causo um efeito imediato, pois ambos murcham no banco. - Desculpa, não quis dizer isso, de verdade.
- Tudo bem... - diz Ryan com sua calma de sempre.
Não está tudo bem. Acabei os magoando por causa de uma festa estúpida. Se é pela felicidade deles, farei um esforço para ir a esse negócio. Só não entendo como eles não percebem que a anfitriã não gosta de mim e provavelmente está apenas sendo educada, ou forçada, claro, mas aí seremos duas.
Só de imaginar estar na casa dessa garota arrogante rodeada pela trupe de idiota, faz com que meu estômago revire. Mas como Estefani ficou realmente triste pelo modo como falei (o que realmente faz com que eu me sinta mal), irei me esforçar para mudar isso e fazer com que um sorriso apareça em seu rosto.
Afinal, eles não merecem que eu desconte todo meu mau humor neles.
O carro para de frente a nossa casa, nem hesito em tirar o cinto de segurança e correr em direção ao que queria poder chamar de lar.
Entro sem esperar por alguém e vou em direção às escadas, sem nem dar tempo de olhar ao redor e conferir se há algo fora do lugar. Eu sei que não está, nunca está.
Assim que entro em quarto, taco em qualquer lugar a mochila que estava carregando e me jogo de barriga na cama. Sorrio ao ouvir o barulho das molas se chacoalhando.
- Por que me sinto tão sozinha... - sussurro para mim mesma, apenas para acabar com esse silêncio que domina meu peito num vazio doloroso.
Não sabia que o nada doía tanto. Ele forma um embrulho no estômago que não se desfaz, apenas fica lá, machucando.
Fico perdida nesse sentimento, sem saber o que fazer até que o cansaço domina meu corpo...
- Rosemary, acorde. - ouço a voz de Ryan, enquanto me balança na tentativa de me acordar.
Solto um som de irritação que arranha minha garganta enquanto esfrego minhas mãos nos olhos e os abro aos poucos, vendo Ryan sentado ao meu lado.
Estou tão sonolenta que mal consigo raciocinar corretamente o que poderia estar acontecendo.
- O que foi? - pergunto com a voz embargada.
- Vá se arrumar, irei levá-la na festa daqui à meia hora. - diz firme ao mesmo tempo que observa o relógio em seu pulso.
- Mas...
- Meia hora! - grita já saindo do quarto, sem nem me dar oportunidade de responder, deixando-me frustrada.
- Ótimo. - murmuro cinicamente, por estar bastante irritada.
Abro meu armário e tiro a fantasia que Estefani comprou pra mim. Prefiro nem ver o que é, por isso nem a tiro da sacola.
Tomo banho rápido, para não perder tempo pensando no desastre que será a festa. Ao terminar, atrapalho-me um pouco na hora de coloca-la e percebo que é preta com a parte da barriga branca, um tecido extremamente fofo e quente, coloco o capuz da fantasia e saio do meu quarto com passos firmes.
Desço as escadas e me atrapalho um pouco com o rabo... Rabo?
- Você esta linda! - exclama Estefane me pregando um susto.
Passo direto por ela ignorando-a, quando estou prestes a sair, vejo o rosto da tia pelo vidro da porta. Seus lábios pequenos estão repuxados para baixa e seus olhos mirando o chão.
Fico arrependida pelo que fiz.
Por isso volto e dou um abraço apertado nela, logo saio correndo para fora da casa, torcendo para que um sorriso tenha se formado em seu rosto.
Entro no banco do carona do carro e ponho o cinto de segurança, sem encarar o motorista, apenas observando a rua com algumas crianças fantasiadas perambulando de casa em casa.
- Irei busca-la às oito em ponto. - diz Ryan prestando atenção na estrada, e ao perceber o desespero em meus olhos, lança-me um olhar paternal que tanto amo. - Fique tranquila, pois dará tudo certo.
- Tudo bem. - resmungo por não ter paciência para falar algo melhor.
Quando o carro para, olho apreensiva para Ryan e depois para a casa cheia de baboseiras do Halloween. Depois uno as mãos numa oração silenciosa, esperando que Ele entenda a súplica.
Ao perceber que não ganharei nada, saio do carro com a cabeça erguida e ando até a casa da mulher sem me dar o trabalho de olhar a minha volta.
Bato na porta da casa e aparece uma senhora com os cabelos grisalhos presos num coque, com um vestido longo e preto liso que bate no chão, ao sorrir, presas falsas ficam aparente. Uma típica fantasia de vampiro.
- Olá, você deve ser a Rosemary. - lança um sorriso maternal para mim e me pergunto se seria imprudente ficar com ela durante a festa, ajudando com os doces. - Uma bela fantasia, devo dizer. - acaricia minha face com carinho. - Pois entre, elas estão na sala.
Apenas sorrio com gentileza e entro na casa, dando de cara com a sala escura, sendo iluminada por velas.
Há cinco meninas, todas sentadas num círculo, onde no centro tinham diversos salgadinhos e uma das meninas tem uma lanterna nas mãos, parece estar contando histórias de terror.
Não será complicado, conheço várias lendas assustadoras de lobisomens e vampiros que meus tios me contam, posso até mesmo contar sobre meus sonhos.
Talvez essa noite não seja tão ruim...
