Capítulo 3
Uma vez no banheiro, me lavei rapidamente e segui com minha rotina diária. Quando terminei de escovar os dentes, olhei para o espelho acima da pia e percebi meu aspecto sonolento.
Meu cabelo loiro estava despenteado como um ninho de pássaros. Eu tinha esquecido de tirar a maquiagem antes de dormir, mais uma vez, então meus olhos cinza-azulados estavam rodeados de delineador e rímel borrados. Eu devia ter esfregado ou coçado o olho em algum momento, porque também tinha uma linha preta na ponte do nariz.
Não tive tempo de ir buscar meus lenços demaquilantes no quarto, então, quando terminei de escovar os dentes, peguei uma toalha preta do radiador que estava atrás de mim, molhei um canto e comecei a tirar a maquiagem. Não funcionou tão bem quanto os lenços, e me senti como se tivesse dois olhos roxos. “Ótimo”, murmurei.
Eu tinha espalhado ainda mais e juraria que dava pra ver nas minhas bochechas rechonchudas e levemente salpicadas de sardas. Suspirei e abri meus lábios carnudos. Eu precisava voltar pro meu quarto às escondidas e pegar meus lenços. Com a sorte que eu tinha, sabia que, se descesse naquele estado, alguém bateria na porta e eu teria que atender com a aparência de alguém que tivesse saído de uma mina de carvão.
Quando cheguei no meu quarto, o Darío me olhou com curiosidade antes de fixar o olhar no meu rosto e franzir os lábios para não rir. Revirei os olhos e mostrei o dedo do meio para ele antes de me dirigir à cômoda preta que ficava bem em frente à minha cama, à direita do armário. Abri a gaveta de cima e vasculhei entre a grande quantidade de produtos de maquiagem e beleza que tinha acumulado com o tempo. Enquanto meus dedos vasculhavam, meus olhos se fixavam na TV de tela plana que estava na parede. Se eu olhasse com atenção, conseguia ver o reflexo do Darío.
—Meu Deus, você está tão apertada em volta de mim, dizia o Darío para o cliente, e eu mordi o lábio pra não rir. Finalmente, meus dedos agarraram o pacote de lenços umedecidos e eu o tirei. Vou gozar com tanta força na sua bunda, disse o Darío, mas foi interrompido por um som abafado. Virei-me para olhar para ele com curiosidade.
Ele continuava sentado na minha cama, com as costas apoiadas nos travesseiros e uma mão afastando o telefone do ouvido. Parecia desconfortável e então percebi que o barulho vinha do telefone. Ou, mais especificamente, o barulho eram os gemidos altos, parecidos com os de um animal, de um homem gozando com força.
—Meu Deus, sussurrei, sabendo agora o que o Darío tinha querido dizer quando falou que o Elías parecia uma baleia quando gozava.
O Darío usou a outra mão para tapar a parte de baixo do telefone e impedir que o Elías nos ouvisse a falar. “Caramba”, respondeu com a mesma calma, com um ar tão sério que me dei a rir. Ele esboçou um sorriso antes de levar o telefone de volta ao ouvido. “Ah, parecia algo bom, querida”.
Balançando a cabeça, eu sabia que precisava me mexer. Tirei meu celular do bolso e liguei-o, então receberia minha primeira ligação a qualquer momento. A vantagem desse trabalho é que posso começar e terminar quando quiser, desde que trabalhe no mínimo cinco horas por dia. Mas sempre tento chegar às oito. Ganhas mais.
Com os lenços na mão, voltei ao banheiro e limpei rapidamente as manchas pretas do rosto. Quando tive certeza de que tudo tinha sumido, joguei o lenço no vaso sanitário, dei descarga e desci as escadas.
Nossa sala e nossa cozinha eram um único cômodo. Um espaço aberto, acho que era assim que se chamava. A única coisa que separava as duas áreas eram as bancadas onde comíamos. Embaixo havia quatro bancos prateados com assentos acolchoados pretos para quando recebíamos convidados.
Passei pela frente do sofá em L e do balcão. Em frente ao local onde comíamos, ficavam a pia, a geladeira, a torradeira e a chaleira, que precisava ser enchida. Tirei-a da base, levei-a até a pia, levantei a tampa e abri a torneira de água fria.
Depois de enchê-la, coloquei-a de volta na base, liguei-a e apertei o botão. Ela acendeu em azul, indicando que já estava fervendo. Depois de dar um bocejo, decidi que era melhor começar a preparar o café da manhã.
Ao abrir a porta da geladeira, ouvi o Darío sair do meu quarto e entrar no banheiro, provavelmente para fazer o mesmo que eu tinha feito alguns instantes antes, mas sem a bagunça da maquiagem, claro.
Ao encontrar ovos, presunto e queijo, decidi fazer ovos mexidos com queijo e presunto.
Sabia que tínhamos pão no armário, então também poderia fazer torradas. Peguei os ingredientes, uma tigela e um garfo antes de começar a preparar. Sabia que provavelmente iria queimar tudo se usasse o fogão, então decidi cozinhar no micro-ondas. Além disso, provavelmente também seria mais rápido.
Justamente quando comecei a misturar os ingredientes, a chaleira começou a ferver com mais força e, naquele momento, meu celular vibrou onde eu o tinha deixado na bancada e começou a tocar. Me inclinei o suficiente para poder ver a tela. Como só aparecia um número e não um nome, achei que devia ser um novo cliente, já que os clientes existentes estavam salvos na minha agenda.
Atendi a ligação e levei o celular ao ouvido. Normalmente uso fones de ouvido porque assim posso fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas os tinha deixado lá em cima, então teria que me virar à moda antiga. “Oi”, murmurei com minha voz mais sexy. Nunca tinha pensado que a tivesse até que o Darío me fez notar. Segundo ele, também é uma voz sexy. “Me diz, gata, qual é o teu nome?”.
—César. César respirava com dificuldade, como se a festa tivesse começado sem ele.
—Sou novo nisso de ligações —disse ele.
—Tudo bem, César, respondi com um leve sorriso, sabendo que ele provavelmente estava nervoso. Meu nome é Lía e vou cuidar de você, tá bom? Meu nome de verdade não é Lía, é Noelia. Mas, por motivos de segurança, sou a Lía para meus clientes. E sim, sei que é um clichê.
—Sim, ele disse com a voz ainda mais rouca do que antes. Provavelmente estava mais excitado. Agora só precisava descobrir do que ele gostava.
—Me diz, querido, você gosta forte ou suave?, perguntei bem na hora em que se ouviram os passos do Darío na escada.
—Meu Deus. —Forte. Eu gosto quando é forte, respondeu César. Gosto quando você assume o controle e tem um pouco de dor. Sim, gosto muito. Ao fundo, consigo ouvir como a mão dele acaricia o pênis. Pelo menos sei que ele está se divertindo.
—Tudo bem, César, concordei comigo mesma, sabendo exatamente o que fazer a partir daquele momento. Darío apareceu na minha frente com os lábios formando um “o” ao ver que eu estava com um cliente. Acenei com a cabeça na direção da comida que tinha preparado, indicando que ele assumisse o comando, e me afastei do balcão para ir para a sala de estar. Darío cruzou-se comigo no caminho e deu-me uma palmada no ombro.
Ele não sabia que aquela noite iria mudar tudo.