Capítulo 2
—Obrigada por tentar me fazer sentir melhor, mas isso não significa que não dói. Eu sei, respondi em voz baixa, pensando no meu próprio rompimento. Já tinha passado mais de um ano, mas a dor continuava lá.
Meu ex tinha sido meu primeiro namorado, caramba, tinha sido meu primeiro tudo. Nós nos conhecemos aos dezessete anos e eu me mudei para morar com ele antes do meu próximo aniversário. Tudo aconteceu tão rápido entre nós que eu não percebi as rachaduras até que fosse tarde demais. “Mas estamos aqui um para o outro, não é?”. Eu o sacudi um pouco.
Ele me olhou com uma expressão vulnerável enquanto eu observava suas feições. Seu nariz era maior do que o da maioria das pessoas, mas isso não afetava sua aparência. Ele tinha olhos grandes, sobrancelhas finas e depiladas, uma leve protuberância no nariz — resultado de um valentão que o quebrou quando ele era adolescente —, lábios carnudos e maçãs do rosto salientes. Tinha um bronzeado natural que eu adorava e, quando sorria, formavam-se covinhas nas bochechas.
— É mesmo? — ele respondeu esperançoso. “Mesmo se eu te acordar com uma pena que esteve no traseiro da minha ex?”
Revirei os olhos, me afastei e dei um tapinha no braço musculoso dele. “Seu safado”, murmurei enquanto ele ria ainda mais. “Lembras por que eu te amo?”
Sorrindo, ele vasculhou o bolso do pijama e tirou o celular. “Porque sou adorável”, respondeu distraído enquanto olhava para a tela. “Ah, minha primeira ligação do dia! É o Elias”, sussurrou a última parte como se o Elias pudesse ouvir. “Ele parece uma baleia quando goza, mas tem uma voz magnífica”, acrescentou, o que me fez resmungar quando ele atendeu a ligação. “Bom, bom dia, meu amor.”
Enquanto o Darío se acomodava contra meus travesseiros, levantei-me da cama e fui até meu guarda-roupa. Já tinha em mente o que ia vestir. Uma legging com estampa de flores de vários tipos e uma blusa branca lisa. Completaria o look com um cardigã rosa e uns chinelos brancos. A menos que decidisse sair, caso em que trocaria os chinelos por uns tênis brancos.
—Mmm, que sexy você está, gata, ouço Darío ronronar ao fundo, e sorrio enquanto balanço a cabeça. Não ouso imaginar o que as pessoas pensariam se me encontrassem no mesmo quarto que meu colega de apartamento enquanto ele diz obscenidades para uma de nossas clientes e eu me troco num canto.
Era uma situação, para dizer o mínimo, estranha.
Enquanto tiro a blusa de costas para o Darío, pra preservar meu pudor, não consigo evitar ouvir a conversa. Não de um jeito perverso, mas com a intenção de buscar inspiração.
Era assim que a gente funcionava, o Darío e eu.
Ajudávamos um ao outro, trocávamos ideias. A linha de sexo dele era voltada principalmente para homens, já que o Darío era gay e preferia que fosse assim, mas ele também aceitava clientes mulheres. Ele tem aquele tipo de voz que agrada às mulheres — e aos homens gays — e, com uma ajudinha minha, sabe exatamente o que dizer para fazer uma mulher gozar.
Minha linha erótica também era voltada para ambos os sexos. Eu não me sentia atraída por mulheres, embora tivesse tido experiências no passado, mas, por ser mulher, sabia exatamente o que uma garota queria ouvir. As ligações de mulheres eram raras; eu lidava principalmente com homens com tesão.
—Adoraria tocar seus seios — cantarolava o Darío atrás de mim, entrando no personagem. Sei o quanto os homens gostam de dizer coisas obscenas. Acho que é uma fonte de excitação para ele. Ao contrário de mim, que só curto sexo se for com alguém que amo, o Darío é muito mais aventureiro e já teve mais aventuras de uma noite do que consigo contar. Adoraria acariciá-los, lambê-los...
—Chupa-os, acrescentei quando ouvi que o Darío estava hesitando. Puxei as alças do sutiã pelos braços e o desabotoei pelas costas. Era um sutiã branco simples e levemente acolchoado.
—Ah, e chupa-os, disse o Darío enquanto eu vestia a blusa.
Quando me cobri, virei a cabeça para ele e vi que ele levantava o polegar. Retribuí o gesto antes de voltar a me ocupar com minhas roupas.
Como o Darío ainda era bem novato nisso tudo, às vezes precisava de ajuda. A situação dele era muito parecida com a minha. Nós dois acabamos voltando para a casa dos pais depois de terminar com nossos respectivos parceiros e sem emprego. Para o Darío, essa pessoa era eu. Para mim, essa pessoa era minha chefe, a Brenda.
Troquei de roupa rapidinho, tentando me esconder atrás da porta do armário.
Eu sabia que o Darío não se importaria de me ver me trocar, nem tentaria dar uma espiada, mas isso não significava que eu quisesse desfilar nua na frente dele. A voz do Darío baixou de tom enquanto ele falava com a cliente. “Seu corpo é tão lindo, querida. Estou louco para percorrer com a língua sua barriga e começar a descer cada vez mais até chegar à sua...”. Tossei baixinho para disfarçar, tentando esconder meu sorriso enquanto vestia a legging e umas meias rosa de pelúcia.
Já ouvi o Darío dizer muitas coisas obscenas e ele já me ouviu dizer outras tantas. Parte do treinamento dele consistia em ele ouvir minhas conversas e eu, as dele. Então, nenhum de nós dois ficava realmente com vergonha. Para ser sincera, era mais divertido.
Mas era difícil saber que as pessoas iriam nos julgar e nos rotular. Provavelmente me considerariam uma vadia, uma mulher sem dignidade nem respeito próprio. Gostaria de dizer que não me importo, mas estaria mentindo. Por isso tentava manter meu trabalho em segredo. Apenas algumas pessoas sabiam no que eu trabalhava. Minha chefe, Brenda, o Darío e alguns amigos da Brenda que trabalhavam no mesmo setor.
Muitas vezes me perguntava se os homens ficariam relutantes em sair comigo por causa do meu trabalho. Quer dizer, se não conseguem me aceitar do jeito que sou, que vão se danar, né?
Mas, na verdade, não era tão simples assim. Eu não queria morrer sozinha com vinte gatos que iriam devorar meu cadáver. Queria ter uma família algum dia. Queria assentar e esperava que meu trabalho não fosse um obstáculo para isso. Suspirei fundo e decidi que era muito cedo para ter pensamentos tão deprimentes.
O dia tinha acabado de começar e eu já estava pensando no meu futuro e na possibilidade de morrer sozinha. Nem sequer tinha tomado a primeira xícara de café.
Decidi deixar que o Darío se encarregasse disso, peguei o telefone na mesinha de cabeceira e fui até a porta na ponta dos pés, como se o cliente fosse me ouvir andar. Ao chegar à porta, parei e calcei os chinelos de pelúcia que tinha deixado na entrada na noite anterior, enquanto balançava a cabeça. Quando os calcei, olhei para o Darío e perguntei: “Café?”.
Ele assentiu com entusiasmo e respondeu: “Sim, por favor!”.
Sorri para ele antes de sair do quarto e ir para o banheiro. Precisava ir ao banheiro e passar desodorante.
Ah, e escovar os dentes. Sabia por experiência própria que, se não fizesse isso de manhã, acabava esquecendo e passava o dia inteiro sem fazer. Eu sei, é nojento, mas sou humano e, além disso, esquecido.
E bem quando achei que tudo estava sob controle, aconteceu o impensável.