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Capítulo 7 - Competição de popularidade

ALGUMAS SEMANAS depois de eu ter começado a fazer sexo com Mauro, o nosso pai passou mal na empresa e teve que ser levado às pressas para um hospital. Os médicos tinham diagnosticado um AVC em estágio inicial e naqueles dias, acionamos os primeiros sinais de alerta quanto à saúde do velho Castilho.

Jaime nunca fora dado a cuidar da própria saúde e todos nós sabíamos que, apesar da idade já avançada, ele era dado a certos excessos como bebida, drogas e sexo em demasia. Os anos 70 já tinham passado há muito tempo, mas era como se ele se sentisse saudoso dos velhos tempos e quisesse continuar no mesmo ritmo que em sua juventude. Todos nós o alertamos para que ele tomasse mais cuidado a partir de agora, mas era bem óbvio que ele não ia nos ouvir.

— Tenho uma saúde de ferro. Não sou nenhum maricas! — Disse ele, assim que retornou do hospital.

Estávamos todos preocupados e passamos a ficar de olho no velho patriarca da nossa família.

Naquele mesmo período, Vânia deu à luz ao Jonathan, o meu primeiro sobrinho, e a felicidade estampada no rosto do velho Jaime ao ver o pequeno neto através do vidro da maternidade valeu todo o perrengue que havíamos passado com ele e o seu AVC nas últimas semanas.

O bebê era realmente lindo e tinha cabelos loiros espetados no alto da cabeça, além de olhos castanhos brilhantes e feições parecidas com as da mãe. Renato não podia estar mais orgulhoso, e naquele dia, comemorou conosco em nossa casa o nascimento do primogênito, enquanto a família de Vânia a acompanhava no hospital até que ela recebesse alta médica no dia seguinte.

— Ao meu pequeno Jonathan e a paz e prosperidade que ele vai trazer para a nossa família! — Ergueu um brinde na minha presença, na de papai, mamãe, Mauro e Elisa.

Por um breve momento, voltamos a ser os irmãos unidos que éramos desde sempre e algum tempo depois das comemorações, quando papai subiu para descansar acompanhado de mamãe — resmungando que tinha sido obrigado a brindar com água — nos encontramos à beira da piscina para relembrar os nossos velhos tempos.

Elisa aproveitou para ficar agarrada ao irmão mais velho que tanto admirava e chegava a encher a sua taça de champanhe quando via que ele a estava esvaziando, submissa. O sentimento de nostalgia foi tomado por uma certa amargura algum tempo depois e o primogênito de Jaime se queixou da vida de casado:

— Duro é ter que ficar sem sexo por conta da gravidez da Vânia!

Elisa pareceu interessada e o questionou:

— Mas desde quando mulher grávida não pode transar?

— Poder pode — respondeu Renato —, mas a Vânia sentiu muito desconforto ao longo da gestação e meio que perdeu a libido nesse período. Estou na mão há uns quatro ou cinco meses!

E ele fez o gesto de uma “punheta” no ar, o que causou risos em nós três.

— É o que você ganha por engravidar a noiva antes de casar! — Caçoou Mauro, acabando também com o champanhe em sua taça.

— É o que dizem… O apressado come cru! — Concluiu Renato, com ar infeliz. Elisa pareceu se divertir.

— Se tivesse ficado aqui com a gente, teria sexo o tempo todo. — Ela disse aquilo de maneira maliciosa e um tanto quanto provocativa. Os seus olhos então fitaram os meus e ela revelou à Renato a novidade: — Até a nossa caçulinha já entrou em nosso joguinho proibido!

Me senti um pouco constrangida, e naquele momento, sentado ao meu lado, Mauro envolveu o meu ombro e me apertou contra o seu corpo rijo. Renato me olhou surpreso e o senti meio agitado em sua esteira à beira da piscina.

— Ah, é mesmo? Que grande novidade! Já estava na hora, hein, Carlinha! Achei que você fosse boa demais para se juntar a nós!

Ele me deu uma secada estranha e os seus olhos percorreram o meu corpo como que se eu estivesse sendo avaliada. Apesar de saber tudo que ele já tinha feito no quarto com Elisa, eu ainda não pensava nele como um parceiro sexual e nem estava a fim de começar. Sabendo o quão ciumenta era a minha irmã com relação ao seu irmão preferido, eu não estava disposta a ter que suportar os seus achaques mais tarde caso eu passasse a me relacionar com ele também.

Por volta das vinte e duas horas, como de praxe, os nossos pais se recolheram e o único som que ecoava em nossa casa era das nossas risadas jogando cartas na sala. Mauro tinha me ensinado a jogar Truco há algum tempo e eu tinha ficado boa naquilo, o que garantiu várias vitórias consecutivas da nossa dupla contra Renato e Elisa.

— Você está roubando, Carla! Não é possível ter tanta sorte assim! — Reclamou Renato, jogando sua mão azarada de cartas sobre a mesa.

— Admita que sou boa, irmãozinho. Não vai doer! — Disse a ele, me sentindo a melhor jogadora do mundo.

Renato me olhou de uma maneira indecente e repetiu, dando a entender que não estava falando dos meus dotes de jogadora:

— Você é muito boa sim!

Elisa percebeu a malícia no ar e não demorou a sugerir:

— Papai e mamãe já foram dormir. Por que a gente não sobe para o quarto agora para terminar a brincadeira lá dentro?

Renato e Mauro se entreolharam e concordaram com a irmã. Eu ainda não estava no clima por conta da doença de papai e os cuidados que ele dispendia agora e acabei sendo a única que declinei do convite. Depois de muito chiarem insistindo que eu participasse da “festinha” que eles estavam prestes a fazer dentro do quarto, eu preferi manter a minha posição defensiva e eles a entenderam.

— Quem sabe um outro dia então, maninha!

Renato passou o dorso do indicador direito sobre a maçã do meu rosto, e pouco depois, estava subindo apressado logo atrás de Mauro e de Elisa, que àquela altura dos fatos, estava ansiosa para voltar a ficar com seu irmão predileto.

Depois da última visita de Renato ao nosso casarão em Moema, as coisas voltaram ao ritmo mais comum e tanto ele quanto o Mauro se revezaram no controle dos negócios dentro da construtora até que o nosso pai estivesse totalmente recuperado novamente.

Eu estava enfrentando os últimos anos do Ensino Médio e continuava focada nos estudos para que desse orgulho aos meus pais, e um dia, quem sabe, também pudesse contribuir de alguma forma com a administração da empresa da família.

Desde sempre, eu tinha sido uma ótima aluna e os meus professores de nada podiam reclamar sobre mim. Eu era o tipo de estudante que me sentava sempre na primeira fileira da classe, que anotava cada coisinha falada pelos mestres, que fazia notas de rodapé no caderno com informações extras que não constavam no quadro negro e que sempre passava a limpo todas as anotações quando chegava em casa.

Em tempo de provas e exames, eu usava boa parte daqueles apontamentos para estudar, e por conta disso, quase sempre conseguia me destacar com as notas, surpreendendo meus amigos e os deixando com certa inveja.

Ser a queridinha dos professores não me dava a vantagem de ser tão popular quanto eu gostaria de ser naquela idade. O Ensino Médio era uma época de muita competição e os alunos rivalizavam por praticamente tudo. Quem é o mais inteligente, quem é o mais popular, quem é o mais bem-vestido, quem é o mais namorador…

Qualquer porcaria virava uma competição gigantesca, inclusive o tamanho da bunda e dos peitos das garotas. Havia entre elas uma briga interna para saber quem conseguia atrair mais a atenção dos meninos e eles faziam até mesmo listas daquelas que eram consideradas as mais gostosas da turma para ficar comentando pelos cantos. Até o início do Ensino Médio eu nunca tinha me destacada por minhas curvas, mas naquele ano, coincidiu de eu começar a chamar a atenção dos rapazes da escola com o meu corpo bem depois de eu ter perdido a minha virgindade, o que me colocou a pensar se uma coisa tinha a ver com a outra.

Era um dia comum de aula quando duas amigas vieram me contar esbaforidas que um dos garotos mais bonitos da nossa turma — o atleta da sala — tinha ficado interessado em mim e que estava querendo sair comigo no próximo fim de semana.

— Tem certeza que ouviram direito? — Indaguei a elas quase tão surpresa quanto as duas.

— Eu ouvi da própria boca dele — disse a minha colega Elenice, uma garota de pele preta, lábios grossos e olhos escuros feito jabuticabas —, ele tava elencando as meninas mais gostosas da nossa sala e o seu nome foi citado umas duas ou três vezes.

Fátima, a outra das minhas colegas que estava ali no pátio do colégio para me contar a novidade assentiu a tudo que Elenice tinha dito. Jurou de pé junto que era verdade.

— Ele disse que te acha a maior delícia e que vai te chamar pra passear com ele no sábado. Você vai aceitar, não é, amiga?

A Fátima puxou o meu braço me pressionando para responder de imediato o que ela queria saber. Eu sabia o quanto as opiniões dos garotos daquela idade podiam ser volúveis, por isso, resolvi esperar que o próprio bonitão viesse me contatar para só então tomar a minha decisão.

Anderson Góes era o garoto mais desejado da nossa turma e por onde ele passava, se juntava um coro de meninas a suspirarem por ele. Era um moreno de pele escura, cabelos cortados estilo “reco”, corpo esguio e com um bigodinho um pouco mais espesso acima dos lábios. Fazia parte do time de basquete do colegial e diziam que tinha habilidade de sobra para fazer parte da seleção nacional se quisesse levar o esporte a sério.

Naquela sexta-feira, eu estava saindo pelo portão do colégio segurando o meu fichário e a bolsa em minhas costas quando senti alguém puxar o meu antebraço. Deixei que Elenice e Fátima seguissem na frente sem mim e parei para ouvir o que o Anderson tinha a me dizer.

— Fiquei sabendo que cê tá solteira e que não tem ninguém te azarando, Carla. O que acha de a gente sair pra se divertir um pouco amanhã?

Ele não era muito bom de papo, mas decidi me deixar levar pela empolgação de estar ali falando com o garoto mais popular do colégio bem na frente da multidão de alunos que se aglomerava na calçada do lado de fora do prédio.

— Pode ser — respondi de uma maneira um pouco mais tímida —, onde quer me levar?

— Sei lá. Tava pensando no boliche da Rua Dezoito. Ou então, naquela praça da Rua Vinte e Dois.

— Boliche. A gente pode ir ao boliche — respondi para lhe dar confiança.

— Beleza então — Anderson agarrou os meus ombros para me dar um beijo no rosto e algum tempo depois, nos separamos na saída do colégio. Elenice e Fátima pareciam incrédulas que aquele convite havia mesmo acontecido, mas ao nosso redor dava para perceber uma porção de garotas preteridas pelo bonitão me olhando feio e se corroendo de inveja.

Como eu disse, qualquer coisa virava uma competição tipo “Brasil x Argentina” no colégio e aquilo era algo da qual tínhamos que aprender a lidar com o tempo.

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