Capítulo 4. – Apesar de tudo, estava feliz
Suspirou assim que viu a mãe sair da sala acompanhada de Veny. Seu tio havia lhe contado os motivos da briga entre seu pai e ela, e sabia que não seria fácil convencê-la a ajudá-lo. A reencarnação de seu pai e de sua mãe naquela vida estava sendo confusa, e entendia o porquê ela havia resistido em se aproximar por todo aquele tempo.
Não era algo simples de se perdoar, nada mais seria como antes, e temia que ela nunca mais desejasse vê-lo. Contudo, não podia deixar seu pai naquele maldito lugar! Sem a ajuda dela, seria impossível fazê-lo voltar a si. Independente do que tivesse que fazer, se esforçaria para mudar o pensamento dela.
Esperava a resposta de Sun Wukong, mas ele também parecia estar a espera da decisão de sua mãe para se manifestar. Tudo o que tinha que fazer era ser paciente, algo que lhe era praticamente uma tortura.
Quanto mais os dias se passassem, mais coisas Vaisravana esqueceria. O tempo não estava do lado deles.
Voltou ao escritório para terminar de analisar alguns documentos e voltou para casa, assim que entrou no quarto, viu a esposa desembaraçando os cabelos para dormir.
— Bem vindo de volta, moyo (coração). – Ela disse assim que o viu se aproximar, o fitava pelo espelho da penteadeira.
Sorrindo, ele se abaixou para beijar o topo da cabeça dela. Ah, como a queria, mas Damien não estava colaborando. Venya ainda sentia muitos enjoos, e tinha dias que acordava durante a madrugada para vomitar.
— Como estão hoje? – Perguntou, levando as mãos até a barriga dela.
Rindo, ela levou a mão esquerda até a dele.
— Bem. Parece que o filho de vocês resolveu me dar uma trégua, depois que sua mãe tocou nele.
— Ela fez isso? – Questionou surpreso. A esposa afirmou com aceno de cabeça.
— Falou que eu estava prestes a desmaiar! – Citou alarmada.
— "D", não pode fazer essas coisas com a sua Māmā (mãe)! Preocupa suas avós, e deixa seus pais subindo pelas paredes. – Ela riu fechando os olhos, apreciando a carícia dele.
— E minha mãe, como está? – Indagou curioso.
— Ela me parece confusa, moyo (coração).
Respirou fundo.
— Infelizmente é um sentimento comum quando Despertamos. Ainda me sinto assim, algumas vezes.
Voltando a abrir os olhos, Veny mergulhou nos olhos deles pelo reflexo do espelho.
— Eu amo os dois. – Afirmou, tirando um sorriso deles.
— E nós tiramos a sorte grande com isso Yīng'ér (bebê), ter seu amor nos torna mais felizes. Mas nem todos entendem essa confusão. – Comentou, olhando profundamente nos olhos dela.
As vozes vez ou outra se misturavam, e Venya tinha aprendido a distinguir os dois tons, embora fossem mais ou menos parecidos. Darlan ainda resistia ao que sentia por ela, temia se entregar e sofrer. No entanto, suas ações falavam o que ele não conseguia dizer.
— O amor trás a paciência. Acha que ela não ama mais seu pai? – Indagou pensativa.
— Não sei dizer. Tio Cheng disse que ela demonstrou se importar com ele, mas não sei se devo confiar apenas nisso. – Mencionou, lembrando da conversa que tivera por ligação com o tio a alguns minutos atrás.
Levando a mão até seu rosto, a esposa acariciou sua bochecha.
— Creio que, ela só precise entender que ele não é mais como a versão que conheceu no passado. Quando perceber isso, mudará de ideia.
— Espero que tenha razão. Meu pai é louco por ela, não sei se ficará bem se o rejeitar para sempre.
— Precisa confiar que eles resolverão isso da melhor maneira. – Aconselhou.
— Vaisravana e Yin sempre se entenderam conversando, espero que façam isso dessa vez também. – Disse depositando um beijo na bochecha de Veny.
— Vamos tomar um banho e já voltamos pra você.
Ela sorriu, confirmando com a cabeça.
Não se demoraram muito, desejavam sentir a pele da esposa depois daquele dia desgastante. Assim que deitaram ao lado dela, a abraçaram acariciando Akin e adormeceram.
Despertaram cedo, mas Veny ainda dormia profundamente mesmo depois de se arrumarem. "D" a estava deixando muito cansada, e ela ficava ainda mais manhosa com sono.
Dando um beijo na bochecha dela, desejaram bom dia e foram tomar o café da manhã.
— Bom dia. – Desejou a sogra, assim que a viu preparando a mesa.
Tê-la com eles tinha sido uma ótima escolha. Darlan confiava e se alimentava mil vezes melhor, do que com os alimentos preparados pelas empregadas do clã. O motivo era óbvio. Anos tentando envenena-lo, criaram uma desconfiança que o obrigou a alertar a ambas assim que chegaram no lugar.
Não deviam comer nada fora de casa, e rejeitar da forma mais educada possível qualquer coisa que lhes oferecessem.
— Bom dia, filho. – Ela desejou e ele sorriu. Passou a chamá-lo daquela forma depois do casamento.
— Onde está Venya? – Perguntou, olhando para o corredor.
— Dormindo. Akin tem sugado toda a energia dela. – Afirmou.
Balançando a cabeça, sua sogra colocou as panquecas sobre a mesa.
— Isso não me parece normal. – Citou franzindo as sobrancelhas.
— Também não acho. – Concordou. — Ligarei para a médica assim que chegar no escritório.
"Percebi o cansaço nela ontem, e tomei a liberdade de ajudá-la com isso."
Sua mãe se pronunciou em sua mente e na de sua sogra, e ele se viu surpreso por só notar a presença dela naquele momento. Ela estava inibindo a própria energia para não ser sentida, e para o estado dela aquilo devia ser desgastante.
— Māmā... Zǎoshang hǎo. (Mãe... Bom dia.) – Desejou, indo até ela, pegando sua mão para depositar um beijo.
Sorrindo, ela acariciou sua bochecha.
"Zǎoshang hǎo qīn'ài de." (Bom dia, querido.)
— O que Veny tem? – Perguntou preocupado. A sogra deixou tudo de lado para ouvi-la.
"O corpo dela está trabalhando em dobro por causa do bebê, a pressão e o aumento do sangue, junto com os hormônios, estão deixando ela esgotada. Precisa se alimentar bem para manter o que seu organismo e o bebê precisam. Ele tem pedido a ela, mas, não é fácil entendê-lo, além dos sintomas."
— Ora, veja isso! Aquela menina é teimosa como uma mula! Eu insisto que ela coma mais frutas e legumes, mas ela se recusa e ainda faz cara de nojo, acredita? Vou acordá-la agora para comer!
Assentiu, vendo a sogra se preparar para arrumar um café da manhã com tudo que sua esposa precisava comer.
Rindo do jeito que Luizinha falava da própria filha, Nezha voltou o olhar para a mãe.
— O que recomenda?
"Ela vai pelo cheiro dos alimentos, então, se mistura-los a outros, conseguirá mascarar o cheiro que não a agrada. Com as frutas, tente fazê-la provar um pequeno pedaço. Como é algo que o bebê deseja, assim que provar, ela passará a desejar também."
— Ah! A senhora tem razão! Farei isso!
— Obrigado mãe. – Agradeceu, beijando a mão dela novamente.
— Já conheceu minha sogra?
Ela afirmou com a cabeça, o sorriso de felicidade se complementava com o olhar de admiração.
"Wǒ wèi nǐ gǎndào hěn zìháo." (Estou muito orgulhosa de você).
Sem jeito, ele riu.
— Wǒ jìnlì zūnxún tā de jiàohuì, rúguǒ méiyǒu wǒ de fùqīn, dá'ěr lán yǒngyuǎn bù huì jiéhūn. (Tentei ao máximo seguir seus ensinamentos, e sem meu pai, Darlan nunca teria se casado.)
Surpresa, o encarou.
— Zhè shì yīgè hěn zhǎng de gùshì... Dàn qǐng gàosù wǒ. Nǐ xiūxí hǎole ma? (É uma longa história... Mas por favor me diga. Você teve um bom descanso?) – A indagou se sentando a seu lado.
"Shì de, qīn'ài de, xièxiè nǐ de xúnwèn. Nǐ zěnme zhīdào wǒ yào lái? (Sim, querido, obrigada por perguntar. Como sabia que eu estava vindo?) – Quis saber.
Dando a ela um sorriso largo, pegou um dos pedaços de bolo de cenoura sobre a mesa.
— Tio Cheng me assegurou que a traria.
Pegando seu copo de vitamina de maçã, banana e granola, deu o primeiro gole.
"E confia tanto assim nele?" – Os olhos dourados o analisaram desconfiados.
— Se tem algo que um Liang leva a sério, são suas palavras, mãe. O pai é o mais rígido em relação a isso, dentre meus dois tios. – Comentou orgulhoso.
Ria toda vez que lembrava das palavras dele a Darlan, no dia que anunciou o casamento. Vaisravana era o pai que aquele moleque precisava para se tornar um homem.
Os dois tomaram o café da manhã conversando sobre amenidades, mas sempre que podia, colocava seu pai na conversa. Queria mostrar a ela que ele não era mais quem tinha conhecido. Porém, sua mãe sempre encontrava uma forma de mudar de assunto.
Assim que terminaram o café, ele se despediu dela e antes de sair, vestiu seu Hanfu de líder.
"Quando se tornou líder do clã?" – Ouviu a indagação dela e se virou, a encontrando no meio do hall.
— Pouco tempo depois de Reencarnar. Eu, sem querer, acabei matando o pai do Darlan e acelerei a posse dele.
Sua mãe o encarou erguendo as sobrancelhas e ele não conseguiu conter o riso.
— Não tive culpa, minhas chamas estavam incontroláveis por conta de um pequeno incidente... – Citou, e seu sorriso aumentou. — Prometo que conto tudo quando voltar.
O olhando dos pés a cabeça, ela ergueu uma das sobrancelhas e assentiu. Aquilo não era uma confirmação, e sim uma intimação. Se ele ousasse esquecer de contar tudo a ela, a senhora Yin arrancaria sua pele depois.
Apesar de tudo, estava feliz de tê-la na companhia deles.
