Capítulo 3. Seus medos ainda a impediam
Após Kimaris se acalmar, o clima ficou menos tenso. No entanto, conhecia o filho. Nezha era tão tempestuoso quanto o pai, um único comentário seria suficiente para a rivalidade retornar. Teria que mediar a comunicação entre eles, ou os dois se degladiariam.
— Preciso voltar, você assume daqui. – O loiro disse, tirando uma adaga de dentro da palma da mão esquerda.
O desenho de um pentagrama geométrico se localizava bem no centro dela, e assim que o reconheceu, Zakiya soube que aquele garoto possuía mais que apenas parentesco com Beleth. Aquele era o símbolo de invocação Enoquiano, e aquela não era uma lâmina qualquer.
Precisaria não apenas de muita inteligência, mas também de honra e pureza de coração e essência para ter acesso a ela. Afinal, a Lança do Destino tinha entrado em contato direto com o sangue da Centelha do Pai Celestial.
Se ele havia conseguido invoca-la, significava que o sangue Celestial o veria como semelhante. Aquela lâmina lhe dava direito de obter favores dos Celestiais que ele nem fazia ideia.
— Tio... Obrigado. – Nezha o agradeceu.
Dando um riso sem jeito, ele abriu o portal de volta para a dimensão umbral, utilizando seu sangue como objeto de troca.
— Não precisa me agradecer. Se precisar de alguma coisa, só me avisar.
— Sim, entrarei em contato, não se preocupe. – Assegurou.
Assentindo, entrou no portal e desapareceu em meio a névoa. Voltando a lhe olhar, os olhos de avelã lhe fitaram apreensivos.
— Māmā (Mãe), precisamos conversar sobre o pai. Depois que foi embora, ele perdeu o controle e eu precisei sela-lo. – Revelou com pesar. Já não olhava para ela.
Por algum motivo sentia incômodo em relatar ter feito aquilo.
— Por causa da ameaça que a emanação da energia dele causa, aqueles desgraçados o levaram, e agora querem matá-lo! Não vou permitir isso! Não vou perder os dois dessa maneira!
Cerrando os punhos com força, olhava para o chão fixamente. Indo até ele, Zakiya pegou em sua mão e conseguiu a atenção dos olhos coloridos novamente.
"Você fez o que deveria fazer, protegeu os humanos. Não se sinta culpado por isso." – Tentou amenizar sua dor, mas o que disse só fez a raiva dele aumentar.
— Eu deveria tê-lo deixado matar todos! É o que aqueles malditos merecem! Apagaram todas as memórias dele, mãe... Ele só lembra de você porque a ligação que possuem é forte demais para ser desfeita. – Confessou, a voz perdendo a força e ficando embargada ameaçando choro.
Surpresa com o ele disse, a respiração dela falhou.
— Se o libertarmos como ele está, sem algum tipo de garantia de que volte ao normal, o pai destruirá tudo. – Afirmou olhando fundo nos olhos dela. — Precisamos da sua ajuda. Sei que está irritada com ele, mas por favor, nos ajude a tirá-lo de lá!
Suplicou, e ela viu os olhos dele brilharem ao serem inundados por lágrimas. Levando as mãos até o rosto dele, ela acariciou suas bochechas. Seu peito doía ao vê-lo sofrendo daquele maneira.
Nezha e Vaisravana discutiam sempre que estavam próximos, parecia que nada era suficiente para fazê-los se entenderem, nem mesmo o amor que possuíam por ela. Contudo, naquela vida, parecia que eles haviam encontrado uma maneira de manter a relação em equilíbrio.
Quanto mais conhecia as pessoas que cercavam Beleth, mais se surpreendia. Sempre que tocavam no nome dele, pesar e admiração se misturavam. Ele era realmente outro ser. Porém, não conseguiu afirmar sua ajuda ao filho, seus medos ainda a impediam de tomar uma decisão.
Notando seu receio, Nezha mudou de assunto.
— Vamos entrar. Quero apresentar alguém a você. – Anunciou fungando. A tristeza foi substituída por uma alegria momentânea, e o sorriso tomou seus lábios.
Afirmando com a cabeça, o seguiu e pediu que Kimaris a esperasse. O cheiro de plantas e ervas se espalhava pela casa, dando uma sensação refrescante. Logo que passaram pelo hall, indo em direção a sala, percebeu que a arquitetura daquela casa era uma mistura harmoniosa do passado com o presente. Nezha e seu companheiro de mente e corpo tinham aparentemente encontrado uma maneira de conviver.
E pela maneira que ele se portava, estava prestes a conhecer o motivo.
— Yīng'ér (Bebê), quero te apresentar uma pessoa. – Ele disse pegando na mão da moça, a ajudando a levantar do sofá.
Assim que ela se virou para olhá-la, lembrou de tê-la visto em suas memórias daquela vida.
— Moyo (Coração), eu conheço Aiyê. – Ela Sussurrou.
Rindo, ele a abraçou por trás. Levando as mãos a barriga saliente dela, passou a acaricia-la.
— Entendo. Mas essa não é Aiyê, e sim minha mãe.
— O que?! – Surpresa, ela olhou para o lado. Nezha apoiava o rosto na curva do pescoço dela.
Confusa, voltou a fita-la.
— Mãe, essa é a Venya, nossa esposa.
Zakiya riu do jeito que ele falou.
— Yīng'ér (Bebê), essa é a minha mãe, Yin.
Um pouco receosa, ela piscou algumas vezes antes de falar.
— Prazer em conhecê-la. – Disse por fim, fazendo um breve aceno com a cabeça.
"O prazer é meu. Vejo que você e Nezha se dão bem, fico feliz por ele ter encontrado alguém que o entenda." – Pontuou, reconhecendo o carinho que ambos demonstravam um pelo outro.
Entendendo que tinha se comunicado por telepatia, ela sorriu.
— Seu filho tem uma personalidade forte, mas eu aprendi a acalmá-lo. – Comentou, e ambos riram.
Os olhos dele brilhavam enquanto miravam a barriga dela. Seu filho estava encantado com a paternidade, conseguia sentir o amor dele por aquela criança, e ele era tão grande quanto o que possuía pela a esposa.
"Perdoe-me por atrapalhar..." – Falou, não desejando se colocar entre eles.
— Você não atrapalha! Pelo contrário, é bom que esteja aqui. – Se afastando dele, a garota andou até ela.
Pegando suas mãos, olhou fundo em seus olhos.
— Ele sentiu sua falta... – Confidenciou, falando baixo. Mas Zakiya sabia que ele tinha ouvido perfeitamente.
Dando um riso fraco, olhou na direção dele. Sem jeito, Nezha desviou o olhar do dela.
— Vai ficar, não vai? – Perguntou esperançosa.
Confirmando com a cabeça, recebeu um belo sorriso de felicitação dela.
— Vem! Vamos conhecer seu quarto. Você já jantou?
Negou, ficando sem jeito.
— Então vou pedir que lhe preparem algo para comer, e amanhã lhe mostrarei a casa. Primeiro, apenas descanse. Moyo (Coração), tudo bem se eu roubar sua mãe? – Perguntou, e ele ergueu uma das sobrancelhas cruzando os braços.
— Que fique claro que apenas você e meu pai podem fazer isso!
Fez um bico com os lábios. Não gostou nada da ideia, mas não iria contrariar a esposa. Vitoriosa, Venya deu a ele um largo sorriso, e saiu, a guiando pelo corredor.
— É um milagre que tenha me deixado ficar a sós com você. Ultimamente tem estado grudento, eu mal consigo respirar! – Reclamou, mas o sorriso bobo não saia de seus lábios.
"Precisa de proteção. Em relação a isso, ele e o pai são idênticos." – Mencionou, recebendo um breve olhar dela.
— Por falar nisso, é impressão minha, ou... Também está grávida?
Sua pergunta a fez parar de andar. A nora não era como seu filho, mas por ser mulher, era óbvio que havia percebido algo de diferente em seu corpo.
"Estou." – Admitiu.
— Com quantos meses está?
"Cinco."
— Oh! – Ela virou, igualmente parando de andar. – Mas ela é tão pequena... – Mencionou olhando para sua barriga, que mesmo com vinte e uma semanas, aparentava ser de doze.
— Estou com quatro, mas descobri faz um mês. Como eles conseguem ser tão rápidos com isso? Sinto que fui lesada!
O questionamento foi retórico, e em pensamento, algo que sem querer, Zakiya ouviu nitidamente. Apertando os lábios para não rir, a seguiu logo que ela continuou andando.
— Já sabe o sexo? – Indagou curiosa.
"Não." – Foi sincera.
Não tinha pensado muito sobre aquilo. Estava tão perdida em seus sentimentos que nem mesmo havia dado importância para a vida que carregava em seu corpo. Agora que tocava no assunto, se sentia estranha. Também não sabia como se sentir em relação a gravidez, e tinha decidido não pensar nela.
— Se quiser descobrir, posso chamar minha médica. É melhor ela, do que os médicos do clã!
Entendeu o que ela quis dizer. Não dava para confiar em todos.
"Pensarei a respeito de sua oferta, obrigada."
— Não precisa agradecer. Agora que vai morar conosco, tem direito a tudo que o clã pode oferecer, mas precisa ter conhecimento de algumas coisas. Infelizmente o clã não é tão seguro quanto Nezha gostaria que fosse, mas ele e Darlan estão se esforçando para mudar as coisas.
Ouviu a nora discorrer sobre os feitos do filho durante o caminho, e quando finalmente chegaram no quarto em que ficaria, descobriu que ele já estava a sua espera.
