Capítulo 2. Aquela vida estava sendo realmente complexa
Mergulhou na fumaça escura sentindo o cheiro dele lhe cercar. Ao mesmo tempo em que se sentia feliz, a raiva também ameaçava lhe consumir. Porque só estava indo atrás dela agora?!
Já se preparava para questioná-lo, quando se viu cercada por panteras. O lugar era engolido pela escuridão, mas por algum motivo desconhecido, conseguia enxergar tudo a sua volta.
"Perdão Inati. Sei que não quer nos ver, e que não deseja que nos aproxime da senhora, mas precisamos protegê-la." – A voz dele ecoou dentro da sua mente, e a reconhecendo de imediato, o procurou no meio dos muitos outros leopardos.
O encontrou sentado no meio deles. Estava em sua forma meio humana, e assim como todos, lhe fazia uma reverência. A seu lado, um rapaz loiro a fitava. Logo atrás dele, dois dos Generais de Beleth o acompanhavam, e igualmente, a reverenciavam.
Afinal, quem era aquele garoto, para usar as habilidades de um Rei como se lhe pertencessem?
Quis se aproximar, mas foi parada por Kimaris.
Se colocando a sua frente, o demônio tentou evocar a espada de antes, mas não teve sucesso. Olhando para ele, o rapaz apenas sorriu. Estavam totalmente vulneráveis dentro daquela dimensão, pois, era o espaço que Beleth usava para levar seus aliados sempre com ele. Devia ter todo tipo de proteção para impedir ataques inimigos.
"Quem é você? E como consegue usar as habilidades dele?" – O questionou. Estava intrigada e de certo modo irritada de ter sido ele a leva-la até lá, e não Beleth.
Parecendo surpreso com a sua pergunta, ele demorou um pouco para repondê-la.
O reconhecia de suas memórias, mas não se sentia íntima dele. Sua aparência era um pouco parecida com a que Beleth usava naquela vida, tirando os cabelos loiros, e os olhos azuis.
— Tenho um contrato com ele, mas não é isso que torna possível usar suas habilidades com tanta facilidade. Só consigo recria-las com perfeição, porque sou irmão dele. – Revelou.
Inclinando a cabeça um pouco para a direita, Zakiya o encarou surpresa. No entanto, a confusão também a invadia.
"Irmão? Como isso é possível se não é um anjo?" – O analisava com precisão, tentando encontrar algum traço Celestial nele. Porém, não existia nenhum.
Dando um riso tímido, ele respondeu:
— Somos filhos do mesmo Descendente Primordial.
Piscando, ela se sentiu ainda mais confusa. Coçando a nuca, ele pareceu procurar as palavras certas para explicar.
— Beleth se desenvolveu com o DNA do meu pai, por isso somos irmãos.
Um perfeito "O" se formou na boca de Zakiya, e ele sorriu.
Que façanha intrigante Beleth havia realizado. Nascera de uma humana, mas continuava sendo um Daemon (Demônio), por ter mantido metade de sua essência.
Se dava conta de que não o conhecia mais. Aquele que estivera a sua frente naquele templo meses atrás, era uma versão completamente nova. Uma que tinha crescido e compartilhado da vida humana, algo que ele tanto ansiava. Saber disso fez surgir um incômodo em seu peito.
Se ele já havia conquistado o que tanto aumejava, ainda a desejaria? Mordendo o lábio inferior, virou o rosto e passou os olhos pelas centenas de panteras que o local abrigava.
Porque estava preocupada com aquilo? Não era exatamente o que queria? Que ele encontrasse algo para esquecê-la? Então... Porque estava com medo?
"Porque me trouxe aqui?... Onde ele está?" – Fez a última pergunta voltando a olhar para o rapaz.
Suspirando, ele se levantou do que parecia ser um acento formado por acúmulo de fumaça. Os Generais a seu lado, o seguiram.
— Está em perigo... Você e meu irmão. Os Descendentes Celestiais desse mundo o reivindicaram, e agora querem você, porque só assim poderão mata-lo.
Perdeu o ar por um momento.
"Porque desejariam isso?! Ele machucou algum humano?"
Deu dois passos, se aproximando dele sem perceber. A preocupação era visivelmente apenas com ele, e esse detalhe não passou despercebido pelo loiro.
— Não, ele não feriu. Mas para a Ordem isso não importa. Se não podem controlá-lo, ele não serve, e portanto, não deve existir.
Com a respiração oscilando e a mente atordoada, teve a impressão de que cairia. Procurando auxílio em Kimaris, segurou em seu braço para não sucumbir.
— Minha senhora... – O demônio sussurrou, e ela o respondeu sem olhá-lo.
"Estou bem."
— Venha comigo. Irei leva-lá a um lugar seguro." – Anunciou, lhe dando as costas.
Um portal obscuro se abriu, e olhando para ele, ela avistou um lindo jardim surgir do outro lado. Contudo, contrariada, franziu as sobrancelhas.
"O que lhe faz achar que o seguirei?"
Parando de andar, ele a olhou por cima do ombro.
— Acho que não me entendeu... Não é um pedido! Farei o tiver ao meu alcance para manter Khan vivo, e se isso envolver obrigar você a ficar segura, farei sem remorso algum. – Afirmou.
A voz grave dele reverberou no ambiente, e Zakiya sentiu hostilidade nela. Kimaris deu um passo na direção dele, mas ela o parou.
"Não tem necessidade disso. Vamos com ele. Estou curiosa."
De fato estava. Fazia juz se chamar de irmão de Beleth. O atrevimento e a rigidez da personalidade eram idênticos.
Seguiu o rapaz, e assim que se viu fora da dimensão umbral, o cheiro das árvores e das flores lhe atingiram de forma sutil. Respirando fundo, fechou os olhos, porém voltou a abri-los ao ouvir uma voz familiar.
— Tio! Porque demorou tanto?! – Ele perguntou. Pelo tom, parecia preocupado.
— Eu precisava ser sutil, haviam muitos deles lá!
— Zhèxiē húndàn zhēnshi ràng rén tóuténg a! (Esses bastardos são um pé no saco!)
Percebendo sua presença, ele a mirou como se não acreditasse que estivesse na sua frente. Os olhos misturavam o tom castanho alaranjado no centro da pupila, enquanto um tom verde esmeralda que se espalhava pelo resto da íris. Os cabelos eram loiros escuros, mas independente de como ele se parecesse, reconheceria a aura obscura que emanava e a essência rebelde da personalidade.
Aquele garoto era filho de Beleth.
— Māmā! (Mãe) – Ele Sussurrou e andou até ela a passos largos.
Tinha ouvido bem? Ele a tinha chamado de mãe?
Kimaris tentou impedi-lo de tocar nela, mas com um único afastar de mão ele arremessou o demônio pelo jardim, o jogando a metros de distância deles.
Sem que pudesse evitar, recebeu o abraço dele, mas no segundo seguinte ele a afastou e a olhou surpreso. Ele era alto e forte como o pai, e por ser um demônio, tinha percebido o que ela tanto se esforçava para esconder por meio de mana.
Levando a costa da mão esquerda até a boca, ele piscou algumas vezes antes de sorrir.
— O pai vai ficar muito feliz quando souber! – Falou empolgado, exibindo um sorriso bobo.
"Quem é você?"
Perdendo o sorriso, ele franziu as sobrancelhas e a encarou.
— Hã?
Não teve tempo para resposta, Kimaris avançou nele, mas antes que o tocasse, ele a pegou no colo e desviou do ataque.
— Parece que temos um cão descontrolado aqui! – As palavras dele saíram entre dentes. — Māmā! (Mãe), fique aqui. Eu vou surrar esse bastardo, até que ele aprenda a reconhecer seu...
Parou de falar assim que sentiu sua mão no rosto dele. Emitia uma leve camada de chama azul sobre o corpo, mas ela se dissipou quando o tocou. Ele também aparecia em suas memórias, no entanto, elas eram mais antigas.
O tom de sua voz, assim como a forma que ele falava, lhe lembravam Beleth. Sorrindo, ainda nos braços dele, fitou os olhos coloridos profundamente.
Aquela vida estava sendo realmente complexa, mas começava a entendê-la. As muitas memórias que possuía não vinham apenas de uma, mas sim de três tipos de reencarnações diferentes. O destino encontrara uma maneira no mínimo intrigante para entrelaçar as relações entre eles naquela existência, e o encaixe delas era simplesmente harmonioso.
Sem olhar para Kimaris, ordenou:
"Chega! Ele não me fará nada." – Garantiu.
"Minha senhora! Não podemos confiar..."
"Tudo bem Kimaris, ele é meu filho." – Revelou.
Surpreso, o demônio encarou o garoto, mas ele estava perdido nos olhos da mãe.
