Capítulo 1. Podia mentir para todos, mas não para seu coração
Há meses estava sendo atormentada por aquelas memórias que não a abandonavam. Misturadas com as do passado, confundiam seus sentimentos e lhe sufocavam aos poucos. Já não sabia se odiava Beleth, ou se sentia sua falta.
Algo parecia causar um grande vazio em seu coração, e por muitas noites chorou sem saber o motivo.Se sentia triste, sozinha e perdida.
Não podia voltar para o lugar onde antes chamava de lar, pois para seu espanto, havia formado uma família com ele naquela vida. O Reino de onde ele a tinha tirado, era um lugar hostil a sua existência e retornar para ele seria loucura.
Sem um lugar para pertencer, vagava pela cidade onde tinha encontrado Beleth pela primeira vez. Em meio a seu desespero de não conseguir senti-lo mais, de forma inconsciente, procurava uma maneira de amenizar aquela dor e incômodo em seu peito.
Totalmente alheia aos perigos que espreitavam, andava pelo terminal de contêineres sentindo o rastro leve da magia dele, que ainda estava no local.De olhos fechados, passava a ponta dos dedos pelo ferro dos contêineres enquanto andava.
Como se tivesse voltado a aquele dia, ouvia nitidamente os sons das armas se chocando, o estouro dos trovões no céu, e sentia o cheiro que ele exalou assim que adentrou no contêiner em que estava sendo mantida prisioneira.
Seu coração disparou no mesmo instante ao reviver aquelas memórias.Devia ter sentido medo dele naquele momento, mas não sentiu. Por algum motivo acreditou que estava protegida, e de fato estava. Como era possível que ele lhe passasse tal segurança, quando o pavor do passado era a única experiência que possuía?
Era muito para processar, e embora Zakiya soubesse que o fato de ter uma alma humana o havia mudado, tinha receio de confiar por completo. Esse era o principal motivo que a fazia hesitar em procurá-lo para resolver aquela situação entre eles.
Por mais que sentisse sua pele arrepiar toda vez que ouvisse a voz dele próxima a seus ouvidos, e recordasse da sensação prazerosa das mãos quentes em sua pele, estava com medo de acabar como em todas as outras vidas. Desolada, decepcionada e morta!
— Perdoe-me pela ousadia, minha Princesa. Mas, por qual motivo se apega a essas memórias? – O demônio que seu pai havia lhe enviado, a questionou sem receio.
Ele era atrevido, e adorava enfiar o nariz em assuntos que não lhe diziam respeito!
"Preciso delas para entender Beleth." – Respondeu seca. Perdia as contas de quantas vezes ele a tinha feito aquela questão nos dias anteriores.
— A senhora já não o entende? Estando ligada a ele, sente o que ele sente, e portanto sabe se são verdades ou não.
As palavras de Kimaris lhe incomodaram, e irritada, olhou para ele.
"O que sabe sobre sentimentos humanos?! Se fossem fáceis de serem entendidos, acha que seres como você poderia senti-los?" – Foi rude, mas não aguentava mais os questionamentos dele.
— Rei Beleth parece senti-los e entendê-los bem. – Pontuou.
"Está enganado, até mesmo ele se sente confuso..." – Afirmou, virando o rosto e fitando um canto qualquer.
"O que sente por mim nessas memórias, podem ser nada mais que outra obsessão. Antes eu o incomodava por deixar evidente seu vazio, agora, por ter contato com o que sinto, ele não quer parar de sentir." – Enquanto falava, no fundo, queria estar errada. E percebendo isso, Kimaris a instigava constantemente.
— Ainda assim, a senhora não saberia?
Não o respondeu.Sim, ela sabia. Os sentimentos dele eram genuínos, mas o que podia fazer? Sentia medo. Agora não era apenas ela envolvida naquela confusão.
— Minha senhora... Logo não poderá mais se defender sozinha. Sou seu eterno servo, e lhe serei fiel até o fim. No entanto, diante os que buscam Rei Beleth, admito, não sou suficiente. – Confessou.
Virando de costas para ele, colocou os braços envolta de sua barriga e se abraçou.
— Os arcanjos virão a seu encontro quando descobrirem, e não se importarão se possui parte humana ou não. A Princesa necessita de mais proteção, e Ele é o único com poder suficiente para afugenta-los.
"Me aliar a um inimigo, para evitar outro? Isso não me parece sensato." – Confidenciou.
— Perdoe-me novamente pela ousadia minha Senhora, mas Rei Beleth não me parece seu inimigo nessa vida.
Seu coração disparou ao ouvir aquilo. Podia confiar? Todo aquele tempo, ele sequer fora procurá-la! Estava seguindo seu comando? Era tão obediente daquela maneira?! Desde quando?!
Estava irritada, frustrada, mas não teve tempo de se afundar naqueles sentimentos. Uma barreira envolveu a estação dos contêineres, os prendendo instantaneamente dentro dela.
O general se colocou a sua frente e evocou uma espada enorme. Olhando envolta, procurou o criador daquela barreira, e o viu planando acima deles. Os cabelos ruivos que de tão vermelhos lhe lembravam sangue, eram familiar, assim como os olhos azuis que cintilavam.
Sendo atingidos por um feixe de luz dourada, não tiveram tempo para reagir, ela os cobriu em segundos. Kimaris foi preso de imediato no círculo, contudo, Zakiya ficou ilesa.
Como aquele ser era arrogante! Queria usar habilidade divina contra ela?!
— Minha senhora, vá! Não podem feri-la com essas habilidades! – O demônio tentou convencê-la.
"E deixá-lo para trás? Nunca!" – Afirmou, se preparando para atacar.
"Vou precisar de sua ajuda, Kimaris."
— Sou seu servo minha Senhora, é uma honra lhe ser útil. – Proclamou fechando os olhos.
Erguendo a mão direita na direção do demônio, Zakiya roubou uma grande quantidade do sangue dele. Devido a fraqueza do roubo do líquido, ele caiu de joelhos no chão. Fazendo uma esfera com o sangue, ela o explodiu no chão criando vários espinhos que subiram, ultrapassando a barreira que os prendia.
Conjurando um escudo, o Descendente tentou se proteger, mas o sangue o perfurou e por pouco não o atingiu.
Sem perder tempo, ela juntou o sangue novamente e formou várias linhas que circularam a ela e Kimaris. Ligadas a cada uma das pontas de seus dedos, ele se comportava conforme sua vontade.
Sorrindo, ela encarou o Descendente e proferiu mentalmente o nome da habilidade.
"Destino Escarlate".
Afastando os braços para trás, ela pegou impulso e lançou as linhas na direção dele. Como lâminas, elas passaram a toda velocidade cortando o vento, a barreira que os prendia, e o corpo do Descendente que, mais uma vez, tentou conjurar um escudo.Não tendo sido suficiente, as linhas de sangue o retalharam, e os pedaços dele caíram sobre os contêineres.
Assim que a vida dele foi ceifada e a barreira se desfez por completa, Zakiya perdeu o ar.Sentia a presença de centenas de demônios envolta deles, estavam cercados.
O Descendente que ela matara tinha sido apenas uma isca.
— Aonde pensa que está indo... Princesa? – A voz feminina ironizou, soltando um risinho debochado.
Se virando na direção do som irritante, Zakiya encontrou os olhos verdes acinzentados a poucos metros de si. A mulher era magra, alta, loira, e tão pálida que por um momento pensou que estava doente.
— Achei que estivesse com saudade do seu querido marido, e pelo visto estava certa. Gostou do meu presente? É ínfima, mas a energia dele está espalhada por esse lugar...
Piscando, se mantinha atenta a cada passo da mulher. Conforme falava, olhava envolta. Seu tom expressava prazer.
Desde o início era uma armadilha, e como uma tola havia caído. Podia mentir para todos, mas não para seu coração. Queria vê-lo.
Encarando a Descendente com fúria, viu ela rir.
— As memórias dele são tão... Fofas. Ele tem sonhado com frequência, revivendo elas em um loop infinito. É simplesmente... Irritante. Mas graças a elas, pude entender que ele não é o único perdido nesses sentimentos.
A expressão dela se fechou.Como sabia de tudo aquilo? O que Beleth tinha com aquela mulher?!
Sua respiração oscilava, e mais uma vez se via confusa.Perdida nas palavras dela, foi surpreendida quando uma fumaça enegrecida se acumulou abaixo dela e de Kimaris.
Várias moscas avançaram em sua direção, cada uma delas portando uma lança translúcida que lhe transmitiu pavor no exato momento em que as fitou. Contudo, antes que pudessem tocá-la, Kimaris e ela foram puxados pela poça de neblina espessa e escura.
