Não vai sair tão fácil
Voltei para o quarto , Júlia já estava toda eufórica se arrumando para ir a uma festa quase uma tradição do início letivo daqui …
Júlia - Você vai, sim! Nem adianta inventar desculpa — decretou Júlia, enquanto revirava meu armário à procura de alguma roupa “menos comportada”, segundo ela.
Clara - Júlia… eu nem gosto dessas festas — resmunguei, sentada na cama, abraçando o travesseiro, mas no fundo eu sabia que já tinha perdido a batalha.
Ela virou para mim com aquele olhar debochado, segurando um vestido preto justo, de mangas compridas e brilhoso que eu nem lembrava de ter trazido.
Júlia - Vai com esse. Vai ficar… perfeita.
Suspirei, rendida, e fui para o banheiro.
Me arrumei meio em cima da hora, sem muita paciência para maquiagem elaborada, mas quando me olhei no espelho… meu coração acelerou.
O vestido colava no meu corpo, marcando cada curva com precisão. O decote discreto, mas suficiente para provocar, as pernas à mostra… e o cabelo solto, liso, caindo natural sobre os ombros.

Nem parecia eu.
Júlia - Tá linda. — Júlia sorriu, sincera, e puxou minha mão. — Agora vamos.
O campus à noite parecia outro mundo. As luzes penduradas entre as árvores, as músicas ecoando pelo pátio, grupos de alunos bebendo, rindo, dançando.
Eu me deixei levar, bebendo um pouco, rindo com Júlia, até que em um momento precisei de um ar.
Me afastei da pista improvisada de dança e fui até uma parte mais vazia do jardim, onde as luzes eram mais fracas e as conversas, mais dispersas.
Foi então que o vi.
Otávio.
De novo, como se o destino insistisse em nos colocar no mesmo lugar, na mesma hora.
Ele estava parado próximo à entrada do salão principal, conversando com outro professor, com aquela postura impecável, a camisa social cinza com uma certa transparência aberta no peito, as mangas dobradas, a calça escura moldando as pernas fortes.

Segurava uma taça de vinho, e os olhos claros percorriam o ambiente com aquele olhar atento… até pararem em mim.
Meu coração falhou uma batida.
Ele me viu.
E não desviou o olhar.
Pelo contrário: ergueu a taça levemente, num gesto discreto, quase cúmplice… e sorriu, aquele sorriso perigoso, de quem sabe exatamente o que está fazendo.
Senti o corpo inteiro reagir, como se fosse puxada por uma força invisível.
Tentei me convencer de que ele estava ali só para supervisionar a festa, afinal, era o que diziam: alguns professores sempre faziam rondas nessas ocasiões.
Mas não era isso.
Aquele olhar… não era institucional. Não era casual.
Era provocação pura.
E eu, ali, com aquele vestido, com a pele arrepiada, com a boca seca… só conseguia pensar que estava cada vez mais envolvida nesse jogo silencioso e irresistível.
Quando me virei para voltar, ouvi a voz dele, grave, surgindo às minhas costas:
Otávio - Clara…
Fechei os olhos, respirei fundo e me virei devagar.
Ele estava ali, parado, a menos de dois passos, com aquela presença que me desarmava por completo.
Otávio - Está se divertindo? — perguntou, com um meio sorriso.
Só consegui assentir, sentindo a tensão entre nós crescer como uma chama alimentada pelo silêncio e pela proximidade.
Otávio - Fico feliz… — ele disse, inclinando levemente a cabeça, como quem analisa, como quem provoca…
E então, simplesmente se virou e continuou andando, sumindo entre os grupos de alunos, como sempre fazia: me deixando ali, em chamas, sem saber o que era mais perigoso…
O que eu sentia… ou o que ele parecia sentir também.
Otávio narrando ..
Eu não costumo me abalar com as aulas. Nem com as alunas.
Anos dando aula, conduzindo audiências, enfrentando juízes, advogados… Aprendi a manter o controle, sempre.
Mas Clara…
Clara tem algo diferente.
Desde a primeira vez que a vi, ali, sentada na terceira fileira, com aquele olhar curioso e nervoso ao mesmo tempo, percebi. Ela tenta se esconder, mas não sabe disfarçar. Não de mim.
E agora… vê-la dentro daquele vestidinho preto, colado ao corpo, me deixou louco.
O tecido delineava cada curva, como se tivesse sido costurado diretamente na pele dela. O cabelo solto, caindo de forma displicente sobre os ombros, os olhos escuros me procurando no meio da multidão…
Eu devia simplesmente ignorar. Como sempre fiz. Como se espera de mim.
Mas não consigo.
Quando nossos olhares se cruzaram, ali no meio do pátio, com aquela música alta e as luzes misturadas às sombras, foi como um soco.
Ergui a taça, num gesto quase automático, disfarçando o quanto minha mente já estava despida dela.
E então ela se virou, como quem quer fugir… mas ao mesmo tempo quer ser seguida.
Me aproximei devagar, sem pressa, só para testar… só para ouvir meu nome sair da boca dela mais uma vez.
Otávio - Clara… — chamei, só para ver o efeito.
E vi.
Ela se virou devagar, os olhos arregalados, o corpo tenso, a respiração falhando.
Ela sente.
Talvez nem saiba o quanto. Talvez ache que está no controle… mas não está.
Nem eu.
Otávio - Está se divertindo? — perguntei, como quem não quer nada, mesmo querendo tudo.
Ela assentiu, sem conseguir disfarçar o nervosismo, e eu me aproximei só mais um pouco, só para sentir o perfume doce e sutil que ela sempre carrega, mesmo quando tenta parecer indiferente.
Otávio - Fico feliz… — disse, inclinando a cabeça, mantendo o tom leve, mas deixando que meus olhos falassem o que eu ainda não podia dizer.
E então me afastei, como sempre faço.
Porque esse jogo… precisa ser jogado com calma.
Mas uma coisa eu já sei:
Ela entrou na minha pele.
E não vai sair tão fácil assim.
