Fingia que não existia
Ela ficou ali, perto do jardim, conversando com algumas amigas, rindo de algo que eu não consegui ouvir mas queria.
Eu já devia ter saído, voltado para o meu alojamento, esquecido que ela estava aqui.
Mas não consegui.
Fiquei à distância, encostado em uma das colunas de ferro, com a taça ainda na mão, observando… como quem observa um risco iminente.
E então… ele apareceu.
Um acadêmico alto, camisa dobrada até os cotovelos, a expressão confortável demais para o meu gosto, se aproximou dela, tocando de leve o braço nu de Clara, inclinando-se para falar algo no ouvido dela.
Vi o sorriso dela, aquele sorriso tímido… e a forma como os dois pareciam íntimos.
O sangue subiu.
Comecei a pensar, rápido, como se precisasse justificar aquela cena que eu nem deveria estar analisando.
Quem é aquele?
O que ele quer com ela?
Por que ela deixou que ele se aproximasse assim?
Um ciúme irracional — estúpido, repentino, bruto me invadiu como um soco no estômago.
Sem pensar, chamei um dos alunos que passavam, um garoto da turma dela, daqueles que sempre ficam na fila do café antes das aulas.
Otávio - Ei — falei, segurando firme o copo enquanto mantinha os olhos fixos na cena.
Otávio - Quem é aquele, ali, com a Clara?
O garoto seguiu meu olhar, deu de ombros como quem não vê importância, mas respondeu:
— Ah, professor… aquele é o Artur.
Franzi a testa, ainda sem entender.
Otávio - E?
— Eles… namoravam — completou, como quem fala de algo óbvio, e seguiu o caminho, sem perceber o quanto aquelas palavras tinham me atingido.
Namoravam.
A palavra reverberou dentro de mim como um alarme.
Namoravam.
Então havia uma história ali. Algo que eu não sabia… e que, de alguma forma inexplicável, me incomodava mais do que deveria.
Respirei fundo, tentando conter a raiva, o incômodo, o ciúme estúpido que eu não tinha o direito nem o motivo de sentir.
Mas não consegui evitar.
Continuei observando, e quando ele encostou ainda mais nela, inclinando o rosto como quem queria beijar…
Fechei a mão em volta da taça com tanta força que senti o vidro ameaçar estalar.
Ela não é sua, Otávio.
Repeti para mim mesmo.
Ela não é sua…
Clara narrando ..
Artur apareceu me pegando totalmente de surpresa.
Do nada, surgiu ao meu lado, com aquele jeito confiante, como se nada tivesse acontecido entre nós… como se ainda tivesse algum direito sobre mim.
Artur - Clara… — ele chamou, segurando meu braço de leve, inclinando-se para falar mais perto, como sempre fazia.
Meu corpo enrijeceu na hora.
Ele ainda insiste. Ainda tenta. Mas… eu não quero mais.
Já quis. Já o amei… Muito… Mas ele jogou tudo fora… por sexo.
Por uma traição estúpida e covarde que eu descobri da pior maneira.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, lutando contra aquela mistura de raiva e desprezo que sempre volta quando o vejo.
Quando abri os olhos, forcei um sorriso educado, querendo que ele percebesse que o tempo dele acabou.
Clara- Oi, Artur… — disse, num tom frio.
Ele se inclinou mais, falando alguma coisa sobre como eu estava bonita, como sentia minha falta… mas minha mente já não estava mais ali.
Porque, ao virar um pouco o rosto, meus olhos cruzaram com os dele.
Otávio.
Parado à distância, encostado em uma das colunas do jardim, segurando uma taça de vinho, me encarando.
O olhar dele…
Meu Deus.
Era intenso, frio e quente ao mesmo tempo. Parecia atravessar meu vestido, minha pele, minha alma.Engoli em seco, completamente exposta, sem saber o que fazer.
Por que ele estava me olhando assim?Será que tinha visto Artur se aproximar?
Claro que tinha.
Minha respiração ficou presa no peito, o coração disparou, e eu, de repente, não conseguia mais ouvir nem uma palavra do que Artur dizia.
Só conseguia sentir… Otávio.
O olhar dele cravado em mim.
E a certeza absurda e perigosa de que… aquilo, entre nós, já tinha ultrapassado todos os limites que eu mesma fingia que existiam.
