Completamente envolvida
A aula terminou, mas parecia que o tempo tinha parado para mim.
As vozes dos colegas recolhendo os materiais, as cadeiras arrastando pelo chão, tudo virou um ruído abafado enquanto eu permanecia sentada, imóvel, olhando para a mesa dele lá na frente.
Otávio ainda estava ali, organizando os papéis com aquela calma impecável, como se soubesse que eu viria… como se tivesse certeza.
Júlia se inclinou e sussurrou no meu ouvido:
Júlia - Vai ou quer que eu vá por você?
Revirei os olhos, mas sorri. Eu mesma não sabia como minhas pernas estavam me obedecendo quando me levantei, peguei o caderno e caminhei até ele, um passo depois do outro, sentindo cada batida acelerada do meu coração.
Quando cheguei perto, ele nem ergueu imediatamente os olhos. Folheava o livro aberto sobre a mesa, como se eu fosse apenas mais uma aluna… mas eu sentia que não era.
Parei ao lado dele, tão perto que podia sentir o perfume amadeirado, sofisticado, quente… e o calor que emanava do corpo dele, mesmo sem me tocar.
Clara - Professor… — chamei, a voz mais firme do que eu imaginava que seria.
Foi só então que ele ergueu os olhos.
Os olhos claros e enigmáticos que pareciam atravessar minha pele, despindo-me mais do que eu já estava disposta a ser despida.
Ele sorriu de leve, aquele meio-sorriso perigoso que não dizia nada… e dizia tudo.
Otávio - Clara — disse meu nome como quem saboreia um vinho raro.
Eu me arrepiei inteira.
Otávio - O acórdão — lembrou, virando o livro para que eu visse. Aproximou-se ligeiramente, inclinando o corpo, e, por um instante, estávamos tão próximos que sua respiração roçou de leve meu pescoço.
Senti um arrepio descer pela espinha, e meus joelhos vacilaram, mas me forcei a olhar para o livro.
Ele começou a explicar, apontando com o dedo firme sobre as linhas, enquanto eu fingia que acompanhava, quando, na verdade, só conseguia pensar no quanto desejava que aquele dedo estivesse percorrendo minha pele.
E então… ele parou.
Virou o rosto, muito devagar, até que nossos olhos se encontraram outra vez.
Não havia ninguém mais na sala.
Só nós dois.
O silêncio se esticou, denso, carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito… mas já tinha sido sentido.
Ele ergueu uma sobrancelha, como quem percebeu exatamente o que estava acontecendo comigo… e gostou.
Otávio - Entendeu? — perguntou, a voz mais baixa, mais grave, mais íntima.
Eu assenti, mas nem sabia o que ele tinha acabado de explicar.
Otávio sorriu de lado, fechou o livro com um estalo seco e se afastou ligeiramente, quebrando a tensão.
Otávio - Até a próxima aula, Clara…
E saiu, deixando-me ali, com a respiração presa, o coração disparado… e a certeza absoluta de que eu tinha acabado de entrar num jogo do qual não sabia as regras… mas já estava completamente envolvida.
Passei o resto do dia tentando focar nas leituras, nos trabalhos… mas era impossível.
A imagem dele, o tom grave da sua voz sussurrando meu nome, o olhar que me despia sem pudor… tudo girava na minha cabeça como um feitiço do qual eu não conseguia escapar.
No fim da tarde, o campus parecia mais silencioso. O sol dourava as copas das árvores, projetando sombras longas sobre o caminho de pedras que levava até a biblioteca.
Saí do alojamento sozinha, com um livro qualquer embaixo do braço, fingindo que tinha um destino… quando, na verdade, eu só precisava respirar.
Mas o destino não estava disposto a me deixar escapar tão facilmente.
Assim que dobrei a esquina do jardim principal, o vi.
Otávio.
Encostado casualmente na grade de ferro, próximo ao pátio das fontes, com as mangas da camisa ainda arregaçadas, o rosto parcialmente iluminado pela luz do entardecer, os olhos claros fixos no celular em uma das mãos, enquanto a outra segurava um copo de café.
Meu corpo travou, o coração acelerou num ritmo insuportável.
Por que ele sempre parecia… tão à vontade, tão no controle?
Dei um passo hesitante, querendo fugir… mas querendo ainda mais ser vista.
E, como se pudesse sentir a minha presença sem sequer me olhar, ele ergueu o rosto.
Nossos olhos se encontraram no mesmo instante.
Por um segundo, pensei em fingir que não o tinha visto, virar e sair correndo. Mas ele já estava vindo.
Caminhou na minha direção com passos lentos, seguros, o copo de café ainda na mão, enquanto os olhos me observavam com aquela intensidade silenciosa que fazia meu estômago revirar.
Quando parou a poucos passos de mim, sorriu de leve.
Otávio - Clara… — disse meu nome, de novo, daquele jeito que fazia parecer que ele era dono dele agora.
Engoli em seco, apertando o livro contra o peito.
Clara- Professor…
Otávio - Está indo à biblioteca? — perguntou, como se fosse só uma conversa casual… mas nada entre nós parecia casual.
Assenti, incapaz de dizer mais nada, e ele soltou um meio-sorriso, inclinando levemente a cabeça.
Otávio - Boa escolha… Mas, às vezes, é bom respirar um pouco também. — Ele apontou discretamente para o banco de pedra à nossa direita, debaixo das árvores.
Eu não respondi, mas também não me movi.
Otávio deu mais um passo, e a pouca distância entre nós pareceu evaporar.
Otávio - Não precisa ter medo — disse baixo, a voz arranhando de tão grave.
Otávio - Ainda…
Senti o calor subir pelo meu pescoço, pelas bochechas, invadindo tudo.
Ele sorriu mais uma vez, deu um gole no café, e então… simplesmente virou-se, indo embora calmamente, como quem soubesse exatamente o estrago que tinha acabado de causar.
Fiquei ali parada, com as pernas bambas, o peito arfando… e a certeza de que aquele encontro tinha sido só o começo.
O começo de algo que eu não conseguia nem queria evitar.
