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Não havia mais volta

Sentei na mesma cadeira de sempre: terceira fileira, bem no centro. Não era proposital… ou pelo menos, é o que eu continuo repetindo para mim mesma, toda vez que entro nessa sala.

Meus dedos deslizaram distraidamente pela borda do caderno, enquanto eu tentava, em vão, manter os olhos fixos no quadro branco à frente. Mas era impossível.

Porque ele estava ali.

Otávio.

O professor. O homem. A maldição que eu não consigo — e, sinceramente, nem quero — evitar.

Quando ele entrou na sala, o ar pareceu mudar. Não sei explicar… mas tudo ficou mais denso, mais quente. Ele atravessou o espaço com aquela segurança silenciosa, a camisa branca moldando o peito forte, moldando cada curva que eu já tinha decorado em detalhes, mesmo sem nunca ter tocado.

E então… ele olhou para mim.

Por um segundo — ou quem sabe menos — os olhos claros dele pararam exatamente nos meus.

Meu coração disparou tanto que eu tive medo de que alguém ao redor pudesse ouvir. Tentei disfarçar, baixando o olhar, fingindo procurar uma caneta… mas minha pele já ardia, cada célula desperta, pulsando.

Ouvi sua voz grave atravessar a sala:

Otávio - Bom dia, turma.

Fechei os olhos por um instante, absorvendo aquele timbre, aquela força… Como alguém conseguia ter tanto poder só com a própria presença?

Ele foi até a mesa, largou a pasta com um movimento firme, ajeitou alguns papéis e — quando pensei que já estava a salvo — olhou de novo.

Direto pra mim.

Quase arquejei, mas me forcei a respirar fundo, me ajeitando na cadeira como se isso pudesse esconder o que estava acontecendo comigo.

Júlia - Ele tá te comendo com os olhos… — sussurrou Júlia ao meu lado, com aquele tom debochado que eu já conheço tão bem.

Clara - Cala a boca… — retruquei, mordendo o canto do lábio, sem conseguir conter o sorriso nervoso.

Otávio começou a falar sobre jurisprudência, a escrever no quadro com aquela caligrafia firme, as costas largas em destaque… e eu? Eu fingia anotar.

Mas, na verdade, minha mente já tinha ido embora.

Só conseguia pensar no olhar dele… no jeito como me viu, como me percebeu.

Eu tentei me concentrar. De verdade, tentei. Mas como manter a atenção no conteúdo quando ele estava ali, a poucos metros, andando de um lado para o outro com aquela calma calculada, como se não soubesse — ou pior, soubesse muito bem — o efeito que causava?

Otávio parou repentinamente à frente da turma, segurando um livro grosso de capa preta.

Otávio - Quero mostrar um caso clássico sobre o princípio da insignificância — anunciou, abrindo as páginas com precisão.

Enquanto falava, levantou o olhar e, de propósito, percorreu a sala até parar… em mim.

Eu congelei.

Otávio - Você — disse, erguendo ligeiramente o queixo na minha direção. — Como é o seu nome?

A pergunta me atingiu como um soco no estômago. Meu nome… Ele queria saber o meu nome.

Engoli em seco, sentindo o coração bater tão forte que parecia ecoar na sala silenciosa.

Clara - C-Clara… — respondi, odiando o jeito como minha voz falhou levemente.

Ele sorriu. Não foi um sorriso gentil. Não foi para me tranquilizar. Foi algo… diferente. Como quem saboreia a tensão, como quem gosta do desconforto que causa.

Otavio - Clara — repetiu meu nome devagar, como quem experimenta o som pela primeira vez e decide que gosta. — Muito bem, Clara.

Virou-se para o quadro, começando a explicar o caso com aquele tom seguro, enquanto escrevia com a mão firme.

Mas eu já não ouvia mais nada.

O calor subia pela minha pele, uma mistura de vergonha, excitação e… algo novo. Algo perigoso.

Quando achei que tinha acabado, ele virou parcialmente o corpo, apontando para mim com o livro aberto.

Otávio - Depois, se puder, venha até aqui ver os detalhes desse acórdão. É importante para quem quer entender bem a matéria.

Um convite. Um comando. Uma armadilha.

Eu só consegui assentir, incapaz de dizer qualquer palavra.

Júlia me cutucou, segurando o riso, mas eu nem liguei.

Ele sabia meu nome.

E, pela primeira vez, eu soube, com uma clareza avassaladora, que ele também tinha me notado. Não era só imaginação.

Ele estava… me provocando.

E eu? Eu não fazia a menor ideia de como sairia viva disso.

Ele me notou.

E, naquele instante, eu soube: não havia mais volta.

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