Capítulo 4: Sobreviventes
Procuro o lobo preto do meu pai entre todos, mas nada vejo, ainda mais à noite neste escuro, olho para todos os lados “onde está você, papai” - tento chamá-lo. Farejo o ar pra tentar encontrar algum cheiro familiar mas nada...
Como não o encontro procuro por Jonh, mas também nada, isso não pode estar acontecendo, não agora...
Uivo esperando a resposta do meu pai, que ainda não ouço.
_ Onde você está pai?!_ pergunto mentalmente.
...
ARG!
Nesse ritmo não teremos mais tempo. Começo a farejar pelo John, afinal, se o alfa não pode ajudar o beta vai poder. Sigo o rastro do seu cheiro até encontrá-lo perto de onde estávamos. O modo como o encontro me deixa abalada, ele está no chão gemendo dolorosamente com a cara estranha, parece que a boca está fora do lugar.
Volto a forma humana chegando nele devagar.
- O que aconteceu John?! - pergunto preocupada.
Ele choraminga com dificuldade na respiração e vejo que me ajoelhei numa poça de sangue, calafrios passam pelo meu corpo.
_ Um vampiro me feriu no peito e tentou arrancar meu fuço..._ responde mentalmente.
Logo, fico triste por sua voz fraca pois parece que ele mesmo não se aguenta mais, mas suspiro fazendo o possível para isso não me abalar.
- Ângela foi mordida por vampiros, meu pai está ocupado, só você pode ajuda-la, meu irmão está... - hesito por um momento. - Horrível.
_ Não! Minha filha foi mordida?_ Ele tenta levantar mas não obtém sucesso.
Seu esforço me surpreende e o ajudo sem dizer nada, apenas pego-o nas costas e como na forma de lobo somos mais pesados ando lentamente, um passo de cada vez.
- Tiozinho você é muito pesado. - faço caretas sentindo meu corpo latejar, e me desequilibro.
Sem querer tropeço em meus próprios pés fazendo nós dois cairmos, com ele em cima de mim, fazendo-o gemer de dor e eu também porque o impacto no chão foi meu e com o peso dele ficou pior, chamando atenção ao redor.
Vampiros tentam se aproximar mas Caio aparece os atacando, salvando nossa pele e provavelmente se esforçando mais do que o próprio aguenta.
Tento com muito esforço levantar meu tronco com ele ainda em cima de mim (o que piora toda a situação) quando enfim coloco uma mão no chão e segurando John com a outra, levanto-me cuidadosa e delicadamente fico em pé com as dores que pareceram triplicar, mas não posso desistir agora.
- Estamos quase lá - talvez não vamos chegar a tempo, mas arrumarei um modo. - Augustus traga-a aqui! Augustus! - grito com o fôlego que sobra.
Poderia falar por telepatia com ele, mas estou fraca e cansada, tanto mental quanto fisicamente, podendo desabar de novo a qualquer instante com ele em cima de mim, mas tomo cuidado, não quero machuca-lo mais do que está.
Augustos aparece com ela nos braços desacordada e me olha com certo orgulho ao ver o que fiz por eles, apenas respondo com um sorrisinho.
- Deite-a no chão - digo colocando John perto dela, com meus braços e pernas tremendo pelo peso, mas ao tentar morde-la ele não consegue a força necessária.
- NÃO - Augustos grita e depois encosta a cabeça no chão e chora como um bebê. - Faz de novo, John, eu não posso viver sem ela...
John tenta e tenta, mas entendo sua falta de força, acho que todo seu sangue foi para minha pele e sua mandíbula fora do lugar, balançando um pouco, o que me deixa com mais nojo do que o sangue que me banha.
Augustos começa a fazer algum tipo de barulho estranho enquanto chora, ele morreria aos poucos se ela morresse pois não sabe viver sem Julia, nunca soube, nem ao menos tentou pra saber como é. Além de ser quase impossível um lobisomem sobreviver depois de ter perdido a companheira.
Olho ao redor e a luta acabou, vampiros mortos ou fugindo, os lobos voltando a forma humana ou alguns apenas caindo no chão de cansaço. Finalmente vencemos, ou não, porque vendo como John, meu irmão, Ângela e tantos outros lobos estão, percebo agora, numa batalha jamais teremos vencedores, apenas sobreviventes.
Todos nos olham se emocionando, sabendo a dor de perder um companheiro.
Parecem ter aceitado a morte tê-la levado, mas minha audição diz que ela ainda respira e não desistirei até seu último suspiro, pelo meu irmão, que nesse momento não consegue pensar racionalmente.
Transformo-me em lobo e meus pelos literalmente molhados de sangue deixam-me mais pesada, a dor acomete meu corpo em todo lugar, porém nada capaz de impedir que eu me abaixa perto deles e morda o pessoa amada do meu irmão para que não seja necessário John fazer força na mandíbula, volto então ao normal. Só me resta rezar aos ancestrais pra que dê certo.
- Pronto John, termine logo isto e Augustos, tenha um pouco de fé. - olho pra ele com um sorriso fraco misturado com dor que corresponde com um jorro de choro, dessa vez, de alívio ao ver que John conseguiu neutralizar o veneno de vampiro.
