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Capítulo 3 - "Vai lá e quebra tudo"

Em 10 minutinhos estávamos entrando, e pude ver as mães arrumando seus filhos pelos corredores, corri com Sam até a sala dela para avisar que chegamos e encontrei Erin, sua professora de dança.

- Olá Sammy! Alexandra, que bom que chegaram a tempo, ela pode se trocar ali no banheiro.

- Vai lá filha.

Dei a ela a roupinha que iria usar na abertura do espetáculo e ela foi alegre se encontrar com suas coleguinhas.

- Alexandra, ficamos muito felizes por você ter conseguido pagar tudo, sendo sincera a Sammy é uma das minhas melhores alunas, acredito que ela tenha muito potencial no balé, e ficamos ainda mais surpresas pela sua doação ao departamento de artes da nossa escola, muito obrigada!

Eu fiquei confusa e ela me deu um abraço rápido e foi conversar com um homem que arrumava seu filho, admito que ele estava fazendo um ótimo trabalho.

- Você fez uma doação para eles?

- Não, eu não fiz...

- Eu fiz.

Me virei e o vi, Nathan, com sua postura totalmente imponente no meio de tantas crianças e pude perceber seu leve desconforto.

- Ella já está acomodada e nossos lugares também já estão marcados. Ela disse que queria fotos do backstage e pediu para que James fosse até ela.

- Pode ir, James, eu e Sammy nós nos viramos aqui.

James me deu um beijinho e saiu da sala e por um momento pareceu que só havia Nathan e eu na sala, um direcionando olhares para o outro até que minha menina saiu de onde se trocava e estava brilhando de tão linda.

- Mama, meu sapato – Ela veio correndo até mim com a sapatilha desamarrada – E tem que me montar igual elas.

Eu olhei para as outras crianças e estavam cheias de brilhinhos azuis no rosto que por sinal era coisa que eu não tinha. As mães olhavam em minha direção mais especificamente na direção de Nathan provavelmente se perguntando o que ele fazia do meu lado e ele só conseguir ter olhos para Sam.

- Eu posso amarrar a sapatilha e você faz a maquiagem?

Eu o olhei com certo espanto.

- Você sabe amarrar sapatilhas?

- Claro – Ele deu ombros e se abaixou, colocou minha filha sentada em uma das cadeiras por perto e gentilmente fez toda a amarração de um pé e olhou para mim – Já vi muitos filmes.

Eu sorri um pouco em choque e então comecei a tirar minhas paletas de maquiagens da bolsa e claro que, nenhuma tinha nada de brilho e muito menos azul.

- Droga.

- Mama, a boqui.

- É boca filha, e me desculpe. Não tenho nada azul, senhor... quando decidiram que essa seria a cor?

Uma mãe estava constantemente olhando para Nathan e ele foi até ela, que por acaso estava com vários brilhos e sombras azuis pela mesa. Não deu para ouvir o que ele disse, só o vi pegando 2 paletas e uma caixinha unitária de glitter e trazendo até mim.

- Nunca diga que ser sexy não tem suas vantagens.

- Mama, o que é sexi?

Eu me virei para Nathan o repreendendo simplesmente com o olhar.

- Se você não estivesse com esse glitter em mãos, eu juro que matava você.

- É ser bonito, pequena – Ele se abaixou para ficar perto dela – Sendo bonito você ganha várias coisas tipo doce.

- E eu sou bonita, tio?

Ele engoliu seco e então começou a remexer no bolso do casaco.

- Claro que é bonita, a mais linda daqui e por isso... – Ele estendeu para ela um pirulito de coração – Merece um doce.

Sammy abriu o maior sorriso, enquanto eu olhava aquela cena admirada, ele abriu a embalagem e cedeu para ela o doce que colocou na boca rapidamente.

Ele se levantou e sorriu.

- Se não começar a fazer logo a maquiagem, iremos atrasar as demais crianças porque não tem jeito de começarem sem a mais bonita.

Eu suspirei e balancei a cabeça movendo meu foco para maquiar a minha pequena, passei sombra azul em suas pálpebras e coloquei glitter por toda sua têmpora até quase perto das bochechas.

- Mama, pode paxar batom?

- Passar, meu amor e claro que pode.

As outras meninas tinham suas bocas com batom rosa e gloss então ela não seria diferente, fiz o mesmo e coloquei um pouco de brilho por cima do gloss para ser ainda mais chamativo.

- Prontinha filhota. Levanta.

Ela já tinha acabado de chupar o pirulito quando terminei de ajeitar seu cabelo e quando vi os pais já estavam encaminhando suas crianças para a fila de apresentação, a posição dela era 3A, ou seja, ela seria a terceira criança na frente, ela segurou a mão de Nathan enquanto eu ajeitava as coisas na minha bolsa e colocava a paleta que a outra mãe havia cedido a ele perto da bolsa da mulher.

- Vamos, vamos.

Sam puxou ele até a entrada do palco e os pais estavam beijando seus filhos nessa hora, ela ficou na fila toda animada e nós dois agachamos para falar com ela.

- Filha, lembre-se das coreografias que ensaiamos direto essa semana, você sabe todas de cabo a rabo.

- Sim, mama.

- Você é a melhor dançarina do palco, meu amor.

Dei um beijo em sua testa e Nathan mostrou sua palma para Sammy em busca de um “toca aqui”, que ela fez com toda a empolgação.

- Vai lá e quebra tudo.

Ela deu uma piscadinha para nós e saiu em direção aos fundos do palco.

- O caminho até o teatro é ali.

Nós corremos até lá e vimos de longe Ella sentada tirando fotos de tudo, nos curvamos para não atrapalhar a visão de ninguém e então sentamos.

- Oi! Como ela está?

- Como se tivesse nascido para isto! Nem um pouco nervosa.

- Ah essa é minha afilhada, cria de dinda.

Ela pegou celular e ergueu para uma selfie, coloquei minha trança para o lado e então chamei a atenção de Nathan.

- Foto.

Ele se voltou para o lado que estava o celular e então Ella tirou a foto, deu uma rápida olhada e então sorriu.

- Lindos!

- Ella, cadê o James?

- Foi pegar um docinho para mim e um refrigerante para ele.

Eu assenti e voltei minha atenção para o palco.

- Quer alguma coisa?

Nathan perguntou e eu me virei para ele.

- Sim, acho que eles têm pipoca ali atrás – Eu peguei minha bolsa e peguei uma nota para entregar a ele – Aqui.

O que recebi foi um belo vácuo pois ele já não estava mais lá.

- Idiota.

Guardei meu dinheiro em minha carteira e então me virei para Ella.

- Seu irmão fez uma doação para a escola.

- Sério?

- Sim, para ser mais específica para o departamento de artes. Como ele sabia?

- Ah ele perguntou o porquê de você não ter contado sobre tudo isso, eu falei para ele que você não tinha me falado sobre a apresentação por conta do dinheiro e que você as vezes tem dificuldade de bancar a escola dela...

- O que!? Ella como pôde dizer isso a ele?

- Ele é meu irmão, Alexandra, não tem nada demais.

- Ela é minha filha, minha condição financeira não é da conta do seu irmão!

- Ah pelo o amor de Deus! Alexandra, ele perguntou sobre a sua vida e como era a relação entre nós e eu simplesmente falei com ele sobre isso!

- E você não tinha que expor a minha condição para ele!

Ela se levantou rapidamente e se voltou para mim.

- Alex, eu te amo muito, sabe disso, mas essa sua estupidez me mata! O que é que tem ele saber? Vai mudar o quê?

- Vai mudar que vai começar a sentir pena da minha condição.

- Foda-se? Você teve e tem uma vida difícil para um caralho, qual o problema se deixar ser ajudada? Você rejeita tanto minha ajuda financeira que fica parecendo que você acha que eu tenho dó de ti.

- Ella isso não é...

- Poupe-me, eu faço o que faço por que eu quero! E se você tem tanta rejeição assim pelo meu dinheiro, engula! Eu não dou a mínima. Já me cansei de ter essa discussão contigo sobre dinheiro, sobre te ajudar, e hoje você chegou a quase me privar de ver a minha afilhada.

Eu estava atônita, ela nunca havia falado assim comigo antes.

- Alexandra – Ela respirou fundo – Nathan é meu irmão, ele não é um estranho, ou uma má pessoa, inclusive ele é incrivelmente bem respeitado e foi um doce com sua filha hoje, e com você também.

- Ella, eu...

- Você é a mãe da Samantha e tem a decisão por ela, mas com isso em mente você escolheu que eu seria a madrinha dela e responsável caso não estivesse, acha mesmo que eu colocaria ela perto de alguém que pudesse até mesmo espirrar germes perto dela?

- Eu sei que não.

- Ótimo. Com licença, vou atrás de James.

Ela saiu andando pela fileira até os fundos, me deixando com a pior sensação do mundo.

- Uau.

Eu me virei subitamente com Nathan sentado ao meu lado, comendo pipoca.

- Nunca vi ela me defendendo dessa forma.

- Há quanto tempo está aí?

- Cheguei um pouco antes do “Nathan é meu irmão”, só não me sentei, meu nome foi mencionado e queria saber o que ela iria falar.

Eu o olhei, a confusão na minha cabeça por ter discutido com Ella e agora ele aparece, com pipoca.

- Você está comendo a minha pipoca.

- Sua? – Ele gentilmente pegou uma e colocou na boca.

- Sim! Minha. Eu te pedi para comprar e ia lhe dar o dinheiro e você sumiu.

- Não preciso do seu dinheiro.

Eu ergui uma sobrancelha já sentindo a raiva vindo.

- Eu não sou uma ONG de caridade que vocês ricos podem jogar dinheiro.

- Mas quando minha irmã compra diversas coisas para sua filha, não é ruim né?

- Quem você pensa que é para falar assim comigo?

- Alguém que só quis te pagar uma pipoca e você começou a ofender. Já ajudo diversas ONGs por aí, você não seria uma das ajudadas justamente pela sua atitude arrogante “eu não preciso de ninguém”.

- Ah tá, como se você não tivesse sido arrogante, agora mesmo.

- Não, na realidade não fui, mas você fica tão na defensiva conversando comigo que não assimila direito as coisas que escuta.

- Vai se foder!

- Novamente, mostrando seu ótimo nível de educação.

Eu bufei de ódio e peguei a pipoca de sua mão.

- Além de mal-educada é ladra também?

- A pipoca é minha, senhor arrogância.

As luzes do teatro se apagaram e as do palco chamaram nossa atenção, rapidamente James e Ella apareceram e claro James sentou no lugar ao meu lado, que antes era de Ella. Eu tentei chamar Ella, mas James me alertou para não o fazer e eu aceitei, iria dar o tempo dela.

A professora de Sammy apareceu, saindo do lado esquerdo do palco e se colocando no centro, acompanhada de um microfone.

- Testando... – Ela diz baixo e vai aumentando o volume da voz para se certificar que todos estamos ouvindo, dou uma olhada ao redor do teatro e é “casa cheia”, como dizem por aí – Olá a todos, esta tarde teremos um espetáculo para lhes apresentar. As turmas de dança do 1a – Aplausos e gritos começaram, imagino que sejam dos pais das crianças dessa turma- 2a – Mais aplausos surgem e nós 3 nos juntamos, e Nathan logo em seguida começou a assobiar – e 3c, se prepararam muito para isto. Então peço que se soltem, gritem e aplaudam bastante, nossas pequenas e nossos pequenos bailarinos! Acompanhem por favor as nossas Fadas da água!

Eu aplaudi imensamente, as cortinas vermelhas se abriram e lá está a minha fadinha, radiante e toda azul. Pronta para ser o orgulho da mamãe.

- Vai Emily! – Uma mãe grita e se levanta na nossa frente e vemos a garotinha acenar para a mãe, logo a mãe se senta acenando para a mesma.

- Vai Sammy! Arrasa!

Para a minha surpresa, Nathan se levantou e gritou altíssimo, o que tenho que admitir fez minha raiva diminuir em 100%. A música começou e lentamente as meninas tomaram suas posições no palco, logo a música deu um BAM e ritmo toma nossos ouvidos. Eu sei a coreografia e realmente é quase impossível não dançar com elas, porém me contenho e só tenho olhos para a minha filha. Ela rodopia, mexe os braços e dá saltos com perfeição, sempre que pode ela olha em nossa direção, sei que fica me procurando e toda a vez que me acha eu aceno.

- Linda da dinda!

Ella grita e posso ver que sua raiva já diminuiu quando olha para mim emocionada, eu respondo com o olhar, já querendo chorar de orgulho também. A música está lenta novamente e as meninas vão se preparando para o gran finale, que são os espacates, a música para e todas elas descem ao chão com as pernas devidamente estendidas e com sorrisos em seus rostos.

A plateia explode em gritos, aplausos e assobios e as meninas logo se levantam fazem uma reverência e voltam para a parte de trás do palco. Quando a professora sobe ao palco, vejo as mães das crianças que estavam de azul se movimentando e me lembro que há a troca de roupa para o 2º ato.

- Nathan, eu preciso trocar a roupa dela, se importa de vir comigo?

Ele me encara atônito.

- Posso precisar de mais maquiagem.

Dou um meio sorriso a ele, esperando que diga sim.

- É claro.

Ele se levanta e eu passo por ele com minhas bolsas, seguimos o mesmo caminho em direção à sala que estávamos antes. Encontro minha querida, sentada em uma cadeira ofegando.

- Querida! – Assim que me olha seu rostinho se ilumina, e seu sorriso fica ainda maior quando vê que Nathan está logo atrás, lhe dou um abraço apertado e coloco minhas duas mãos em seu rostinho – Você. Estava. Impecável!

- Mais do que isso, se possível. Estava perfeita. – Nathan diz.

Nathan se agacha para ficar um pouco mais perto de nós.

- Vamos trocar sua roupa?

- Sim! Agora são as fadas artesãs.

- Claro, claro. Roupa verde.

Começo a mexer na mochila e tiro de lá o lindo vestidinho verde com pontas cortadas que parecem folhas.

- Vai para o banheiro filha, anda.

Samantha pega a roupinha nos braços e corre em direção ás outras crianças.

- Aí Deus, pelo menos a cor verde eu tenho!

Nathan solta uma risada curta.

- Aquela roupa, parece um pouco diferente das outras meninas.

- Ah é... Eu não tive condição de comprar todas, visto que ela teria 4 roupas, então eu tirei foto dos modelos que não pude comprar e fiz.

- Pera aí, você costurou aquilo? Tipo a mão?

- Não a mão, eu tenho máquina de costura, mas sim, eu fiz aquela verde e fiz a amarela também, que são das fadas do sol. Deu um bom trabalho, porém ficou quase igual.

- Sério mesmo, o que é que você não sabe fazer?

Aquele momento em que todos somem quando nossos olhares se encontram acontece novamente, é como se pudesse sentir a gravidade ao redor, enquanto ele aprofunda esses olhos negros intensos sobre mim, quase como se estivessem se perdendo no meu olhar para ele.

- Mama!

Sam vem correndo já vestida toda de verde.

- Linda!

Nathan já se agacha novamente para checar suas sapatilhas e as deixa devidamente amarradas novamente, enquanto eu tento com muito afinco tirar a maquiagem azul.

- Que ideia brilhante colocar a cor azul antes das outras.... Ô sombra do caramba.

- Mama! Boqui!

- Caramba não é palavrão, amor.

- Então eu poxo falar?

- Não!

Ela ri e se vira para Nathan.

- Caramba!

Nathan dá uma gargalhada, ainda estava agachado na frente dela.

- Nathan! Não dá corda para isso.

- Não dá, o jeito que ela falou – Ele gargalha ainda mais - E ainda desobedecendo você...

Eu dei um belo chute em seu joelho, o fazendo se desequilibrar e cair no chão. Agora foi minha vez de rir.

- Ei! Essa doeu.

Eu fiz beicinho para ele.

- “Awn, o neneim machuco?”

Falo com você de neném com ele enquanto o mesmo se levanta levemente carrancudo.

- Sim, agora minha bunda dói. Terá volta por isso.

- Estou pagando para ver!

Termino os últimos toques na maquiagem de Sammy, dessa vez usando um pouco menos de pigmento para não ser difícil de tirar depois. Coloco ela de pé e ela roda para nós, assim temos uma visão completa dela, aproveito para fazer um vídeo nesse momento, e já enviando para Ella.

- Perfeita!

Roubo mais um abraço dela, e a professora assistente já começa a chamar as meninas para o palco, o que significa que as outras apresentações já devem estar chegando ao fim, nós dois corremos de volta aos nossos assentos, bem a tempo quando a professora principal começou a apresentar o 2º ato.

- Que orgulho das minhas meninas! Sinceramente este espetáculo está cada vez melhor! Bom, agora teremos nossas lindas e espertas, fadas artesãs!

A professora some do palco e então o palco se ilumina com luzes verdes e efeitos de folhas então os pequenos aparecem. Cada um tinha uma ferramenta de madeira em mão, minha filha, coincidindo com a personalidade forte, segurava um martelo. A música calma, folk, começou. Eles batiam suas ferramentas no palco, na parede e fingiam se cutucar com elas.

Sammy juntamente com outras quatro crianças, foi ao centro do palco e começou a rodar e rodar, ao todo foram 4 piruetas com um estender de braços no final, logo as quatro foram correndo ao canto do palco pegaram blocos de madeira e formaram algo que não consegui ver. E assim foi seguindo, grupos iam ao meio, mostravam qual parte sabiam fazer e iam para o canto, até que todos se juntaram e a coreografia grupal se formou em grande roda com todos dando as mãos e pareciam cultuar as folhas que caiam do teto. E então a música se encerrou e todos se abraçaram. E quando se abaixaram pudemos ver que os blocos formaram um coração.

- Meu deus que fofo – Ella diz e James e eu demos um “toca aqui”, essa era uma parte que nossa pequena teve um pouco de dificuldade de pegar, mas executou perfeitamente – Oh Alex – Ella meio que empurra James de volta ao assento e me puxa para um abraço de forma bem agressiva quando as cortinas se fecharam – Ela está perfeita! Perfeita! Perfeita! Meu Deus – Ela se separou de mim e me segurou pelos ombros – Acho que meu coração vai explodir de tanto orgulho!

Eu gargalhei e percebi que o dever de mãe estava me chamando quando Nathan me cutucou, me mostrando as mães se levantando.

- Temos que ir, se possível comprem uma água com gás para mim, por favor. Acho que vou desmaiar de tanta emoção!
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