Capítulo 2 - "O que é que você não sabe fazer?"
Entrar na lanchonete e ser cliente e não atendente era algo que definitivamente eu não estava acostumada, Cheryl e Kate estavam atendendo muito bem e hoje era meu dia de folga mas vendo como estava cheio, tive que me conter para não colocar meu uniforme e começar a atender mesas. Kate estava falando com Sam quando eu me aproximei.
- Oi Ale! Vindo no trabalho até no dia de folga, que horror.
Eu ri.
- Não posso evitar a mocinha aqui adora esse lugar.
- Eu sei bem, tanto que já pedi para preparem o sundae favorito dela.
- Oh meu Deus viu, vocês mimam muito essa criança! Tem que parar com isso ou daqui a pouco eu não vou ser capaz de conter.
- Não consigo evitar, são esses olhinhos avassaladores. Eles me conquistam.
Sam estava sorrindo, adorava ser elogiada por todo mundo, e sempre foi muito elogiada afinal, era uma menina de ouro.
- Bom, tenho que atender outras pessoas, volto com seu sorvete quando acabar, princesa.
Eu me sentei do lado de Ella e Nathan se sentou do meu lado grudando em mim praticamente e já pegando o cardápio.
- O que você recomenda?
- Bom, o ham...
- Não, você não. Estava perguntando a Samantha.
Eu fiquei surpresa e então me virei para Sam que pensava fortemente na resposta e então apontou para o hambúrguer que ela mais gostava daqui com grandes anéis de cebola no meio e muito molho S.
Nathan ponderou e então fez uma cara confusa.
- Olha conheço muitos molhos, mas “S” eu nunca ouvi falar, o que tem nele?
- É só o melhor molho do mundo, mamãe quem invetou.
Ele vira o olhar para mim e eu coro novamente.
- Se chama molho “S”, de Samantha, é especialidade da casa.
- Você criou esse molho?
- Sim, receita secreta.
Ele sorriu.
- O que é que você não sabe fazer?
Ele parecia encantado comigo e honestamente eu não sabia como responder à pergunta dele.
- Eu... não sei.
Ele se virou para mim e tirou uma mecha de cabelo do meu rosto e estávamos, os dois, em transe até que escutamos um pigarro. Ella, nos chamou a atenção.
- A Kate quer saber o que vão pedir.
- Ah, perdão Kate, eu quero nuggets com batatas fritas, molho S a parte e uma água com gás. Com rodelas de limão por favor.
- Anotado, chefinha.
- Ah por favor, sabe que eu detesto quando me chama de chefe. Somos iguais aqui.
Ela sorriu meio sem graça e se virou para Nathan, que ainda me encarava.
- O senhor vai querer... alguma coisa? – Kate colocou a franja para trás da orelha o que significa que estava tentando fingir ser tímida, coisa que ela definitivamente não era.
- Vou querer o especial – Ele olha a numeração no cardápio e então se vira para ela novamente – Especial 46 e um copo de 500ml de soda limonada com 4 cubos de gelo. Por favor.
Ele lhe entregou o cardápio e então virou-se para nós na mesa.
- 4 Cubos de gelo? Uau, senhor especifico.
- Sim, senhorita estresse, sou metódico com minhas refeições.
- Por que 4?
- Um cubo de gelo não faz nada, dois já ajuda, três fazem o trabalho perfeito, mas não gosto de números ímpares, por isso o quarto cubo.
- Eu gosto de números impares.
- Por que?
- Não combinam entre si, mas fazem um bom match.
Eu mesma ri da minha tentativa de piada e ele me acompanhou.
- Pelo menos a senhorita stress sabe contar piadinhas.
- Melhor que você, senhor especifico.
- Ninguém conta piadas melhor que eu.
- Ah jura? Conte uma agora.
- Aqui, agora?
- Sim, aqui e agora.
- Está bem. Toc toc.
- É sério? Piada de toc toc?
- Entra no jogo, por favor. Toc toc.
- Quem é?
- O amor da sua vida.
E do nada a minha vontade de rir extravasou todas os limites.
- Admito, você é bom, essa foi uma ótima piada.
Ele sorriu e nossos pedidos chegaram.
- Nossa, rápido. Tem um bom atendimento aqui.
- Tentamos o nosso melhor.
- Ei Ella, não estávamos atrás de uma lanchonete para comprarmos?
- Sim... – Ela continuou brincando de bonecas com a Sam em cima da mesa enquanto a pequena tomava a água com gás dela.
- Por que não sugeriu essa? O lugar é ótimo, bom bairro, tem clientela frequente...
- Eu vou te atrapalhar aí mesmo, seu compradorzinho.
Nathan me olhou um pouco chocado.
- Essa lanchonete não está e não ficará a venda. O dono herdou isso do pai, e o pai herdou do avô. Isso aqui é de gerações e não algo para você e sua família riquinha querer meter o dedo e mudar as coisas. Herb jamais aceitaria vender e eu me demitiria facilmente se quisesse que virássemos uma parte da sua empresa multimilionária.
- Ei calma lá, nós só compramos para investir mais nos negócios ok? Temos lojas de famílias também.
- Me diga uma que tenha mantido uma história como esta aqui. Está vendo aquela mesa ali?
Apontei para uma mesa no canto esquerdo da lanchonete.
- Herb conheceu a esposa bem ali, sendo o garçom em um verão que trabalhou para o pai e a pediu em casamento na mesma mesa. Virou a mesa de pedidos de casamento para o pessoal que se conhece aqui e da vizinhança, e eu te juro que se mexessem em um metro quadrado dessa lanchonete iriam se arrepender, tudo aqui tem uma história.
- Isso é completamente verdade.
Herb apareceu atrás de nós.
- Muito obrigada por compartilhar o valor desse lugar para mim, Lele, e você – Herb olhou para Nathan – Nem tente me convencer, sua irmã já tentou fazer o mesmo e não conseguiu.
Nathan olhou para Ella e a mesma deu ombros.
- Tentei um mês atrás e recebi o mesmo discurso que você só que um pouco menos hostil.
Eu sorri para ela e então me virei para Herb.
- Hey, parece movimentado por aqui, quer que eu me vista para ajudar?
- Claro que não, Lele. Hoje é um dos seus únicos dias que pode ficar com a Sam, fique quieta aí que nós damos conta do recado.
Eu sorri e agradeci a Herb enquanto o mesmo voltava para o seu escritório.
- Ele é muito amigável, vejo que não aprendeu isso com ele.
Eu revirei os olhos e olhei o relógio no meu pulso.
- Sam, temos que ir daqui a meia hora ok?
- Ah não, mama.
- Por que? O que vocês têm para fazer hoje?
Ella me olhou confusa e eu não consegui pensar em qualquer desculpa e então olhei para James e ele me encarava num começo de desespero.
- Alexandra, James, vocês não estão tentando pensar em uma mentira para me enganar, não né?
- Não, Ella. Claro que não. É que... Sam tem uma apresentação hoje.
- O quê!? – Ela começou a rir de escárnio – Você não pode estar falando sério? Como assim ela tem uma apresentação e você não me informou com antecedência?
- Eu fiquei sabendo essa semana! E pare de gritar você está chamando atenção. Fiquei ensaiando com ela a semana toda para ela pegar as coreografias.
- É uma apresentação de DANÇA? Meu amor, olha aqui para a dinda – Sam olhou para ela sorridente – Por que você não falou isso para mim?
- Mama disse que você não ia poder ir.
Ella olhou para mim com aquele olhar de que iria me matar.
- Alexandra, lá fora. AGORA!
Nathan levantou depressa para que eu pudesse sair e eu fui lá fora acompanhada de uma Ella enfurecida.
- Qual é o seu problema?
- Ella, eu te juro que não foi por mal.
- Ah só pode ter sido. Eu sou a sua melhor amiga e única também e além disso tudo, eu sou madrinha dela. Tenho direito de saber as coisas que se passam na vida dela.
- Eu sei.
- Não você claramente não sabe, porque não me avisou...
- Ella, posso me explicar?
Eu a corto antes que ela possa explodir, logicamente a querida bufou e cruzou os braços, na defensiva e eu sabia que ela estava magoada.
- Okay, começando do começo, eu não estava sabendo dessa apresentação até semana passada, Sam não me contou, pois, para participar precisava comprar um monte de coisas e ela achou que eu não pudesse aguentar pagar tudo, mas eu sabia que ela queria participar, ela ama dançar.
- Por que não me contou? Eu pagaria sem hesitar.
- Exatamente por isso eu não te contei. São essas coisas da vida da Sam que eu não posso e não vou aguentar ter outras pessoas pagando.
- Meu ponto é exatamente esse, Ale! Eu não sou outras pessoas, você me escolheu como madrinha dela à toa? Eu espero que não, porque eu estou aqui para de ajudar.
“Eu não tenho filhos, nem sobrinhos, não gasto com nada além de mim e eu tenho minha fortuna para gastar então você me deu uma das maiores alegrias dos meus dias, a minha afilhada! Não é porque você está sozinha que você esteja realmente sozinha, eu arco com os custos de situações supérfluas e você com o que ela realmente precisa, luz, água, comida...”
Eu a abracei.
- Desculpa por ser uma teimosa.
- Desculpada, nesta altura do campeonato eu já me acostumei.
Ela me apertou um pouco mais e então voltamos lá para dentro.
Ela voltou para o lugar dela e eu me sentei no lugar que antes era de Nathan e continuei comendo meu lanche enquanto ele já havia devorado o dele.
- E não pense que eu me esqueci de você, senhor James. Vamos ter uma – Ela tapou os ouvidos de Samantha – Puta briga por isso.
Ela destapou os ouvidos e sorriu para ela que não estava nem aí para a situação, ela estava sorrindo e toda suja de molho.
- Ella limpa ali para mim, por favor.
- Oh Senhor, você come igual um cachorrinho criança?
Sam latiu.
- Jesus, minha afilhada virou um cão.
Ela fingiu estar chocada e começou a fingir choro, até que Sammy passou a gargalhar e latir.
- Chega Sam, está começando a assustar os clientes.
- Deculpa mama.
- Tudo bem, meu amor – Olhei o relógio novamente e então me assustei, terminei minha água com gás na pressa e então me levantei – Vamos Sammy, não podemos atrasar, James temos que estar lá em 20 minutos, as coisinhas dela estão na sua mochila pega para mim por favor?
Todos levantaram e eu chamei Kate.
- Coloca a conta da mesa na minha aba no livro eu pago amanhã tudo ok? Te mando foto da apresentação da Sammy.
Ela sorriu e deu um beijinho na Sam e saiu.
- Até ela sabia e eu não?
- Ah Ella, supera.
Ela revirou os olhos.
James foi até o carro de Ella buscar o que eu pedi e então saímos da lanchonete, notei que Nathan ficou para trás, queria me despedir educadamente, porém, não tínhamos muito tempo.
- Seguinte, eu e James vamos na frente com um táxi e você vai para casa se arrumar – Tirei o folheto com horário e endereço do local para ela da bolsa e entreguei – Aqui, atenta ao horário, Sammy está nas apresentações de início, 2 no meio e um solo no final. Apresse-se caso não queira perder nada.
James estava chamando um táxi já e quando um deles parou me cutucou, entrei correndo e nem me despedi de Ella. Sammy estava toda sorridente, comecei a arrumar mais ou menos o cabelo dela no carro, chegamos na escola dela rapidamente.