Capítulo 4 - "Nossa pequena bailarina"
Nathan e eu corremos para a sala de troca de roupa e dessa vez minha filha não parecia tão feliz assim.
- Amor? – Eu me aproximei dela juntamente de Nathan, quando me abaixei e vi seu rostinho meio vermelho, e seus olhos marejados imediatamente meu coração disparou – Ei, o que houve?
Ela não falou nada, eu franzo o cenho e a examinei e vejo que está com uma das mãos no braço.
- Você se machucou, querida?
Ela nega com a cabeça e então Nathan pega cuidadosamente a mão dela e descobre o braço dela e então ele vê. Há um círculo avermelhado em seu braço, que provavelmente deixaria um roxo.
- Samantha, quem fez isso com você?
Ela nega novamente com a cabeça e então eu examino o braço dela, não era algo que se fazia caindo e nem batendo em algum lugar, e só da minha filha não dizer uma palavra eu sabia que alguém havia machucado ela.
- Samantha, o Nathan fez uma pergunta.
Ela novamente cobre seu braço e se senta na cadeira, eu começo a entrar em certo desespero e me levanto, indo procurar sua próxima roupinha, Nathan então assume minha posição, o que me deixa um pouco embasbacada.
- Não precisa dizer quem fez isso. Só balança a cabeça para sim e para não ok?
Ela assente.
- Foi uma professora?
Ela nega.
- Foi um coleguinha ou uma coleguinha?
Ela assente.
- Sabe quem foi?
Ela assente novamente.
- Quer dizer quem foi?
Ela nega.
Minha filha nunca gosta de dedurar ninguém, mesmo que isso signifique sair machucada da situação.
- Dói muito?
Ela nega.
- Vai continuar dançando com um sorrisão lindo no rosto para nós vermos?
Ela assente, já se animando.
- É assim que se faz!
Ela dá um abraço nele e eu me derreto com a cena, porém afasto essa sensação e chamo atenção da minha filha.
- Filha, vem, tem de trocar de roupa.
Ela levanta da cadeira, limpando o rosto de leve, me deu um abraço antes que eu lhe entregasse a roupa amarela, que seria sua penúltima e saiu correndo.
- É hoje que eu mato uma criança.
Eu esbravejo me virando para meus itens de maquiagem.
Nathan ri de forma curta e toca meus braços.
- Não, vai não.
- Ah vou sim, uma dessas pestes incontroláveis machucou minha filha.
- Se acalma, ela não quer nos contar quem foi e você não pode simplesmente escolher uma para assassinar, imagina se escolhe a errada? Somente vai assustar a verdadeira culpada e ela jamais irá admitir...
Eu gargalho de forma curta e um pouco do peso do peito se vai.
- Obrigada pela gracinha, mas não muda o fato de que uma delas machucou a Sam.
- O correto é falar com a professora, espera o fim do espetáculo, e eu venho aqui atrás com você.
- Por que viria comigo?
Eu obviamente estranho sua vontade de aproximação, é incomum para mim quando um homem demonstra esse tipo de sentimento, ainda mais sabendo que tenho uma filha. Mas este? Parece se importar mais com ela do que comigo.
- Ora, eu vi, eu fiz as perguntas a ela, obviamente me importo com a situação e irei estar aqui para descobrir a peste responsável por tal ato.
Eu o encarei confusa, porém admirada. Definitivamente essa garota conquista corações por onde passa... queria um pouco desse dom de cativar as pessoas.
Sammy aparece em nosso campo de visão já aparentando estar em seu brilho e felicidade normal.
- Mama, este é meu favotito.
- Que bom que gostou deste, foi o mais trabalhoso!
A roupinha amarela, tem as pontas arredondadas com tule brilhoso, com um miolo marrom no meio da parte do decote coração. Como ela é ruiva, a cor dá um belo contraste com seu cabelo.
Ela sorri e se senta, e caímos no que agora é rotina, eu faço maquiagem e retoco o cabelo e Nathan sapatilhas e distração. Formamos uma bela dupla.
Quando pronta, novamente pego meu celular gravando ela rodopiando para nós, e ainda sorrindo segue seus colegas para a fila de apresentação.
Ainda estou arrumando as coisas quando Nathan chama minha atenção.
- Naquela hora, em que chegamos à lanchonete, e eu perguntei sobre o...
- Pai?
- Perdoe-me, eu não quis me intrometer ou soar indelicado, sei que é um tópico sensível.
- Ah, mais uma coisa que Ella expôs sobre minha vida? Como eu acabei expulsa de casa, com um bebê na barriga e chutada pelo namorado?
- Na verdade, ela não tinha me contado nada, somente deduzi pelo fato de que o James não seria o pai de forma alguma pela idade dela e que em nenhum momento outro nome masculino foi mencionado nas suas conversas.
Eu abaixo minha cabeça. Burra. Viro-me para ele somente para encontrar aquele olhar penetrante sobre mim, esperando algo.
- Olha, eu... Por favor finja que eu não te contei isso? Não é um assunto de que eu goste de falar.
- Claro, eu entendo.
- Eu sei, você me fez uma pergunta e eu deveria responder só que eu – Me demora um minuto para eu raciocinar o que ele disse – Espera, você disse que entende?
- Claro, Alexandra.
Eu adoro o jeito como meu nome saí na sua boca, soa mais forte, menos solitário.
- Eu também tenho assuntos dos quais eu não gosto nem de pensar, diga lá comentar. Agora vamos, todos os pais já saíram daqui.
Eu dei uma olhada rápida pela sala e constatei...
- Estamos sozinhos.
- Sim?
- Ah me desculpe eu pensei alto.
- Vamos?
Ele coloca a mão na base das minhas costas e me guia para fora da sala, em direção ao teatro, onde assumimos nossos assentos e minha garrafa de água com gás é entregue a mim.
- Obrigada para quem comprou! Amo vocês.
Eu dou um belo gole e já me sinto melhor, ofereço a Nathan que nega com uma careta.
- Ah qual é? Vai dizer que não gosta de água com bolinhas?
- Isso aí.
- Sério? Por que? É tão bom.
- O gosto é ruim, em minha boca. E confie em mim, não sou um cara que gosta de colocar coisas que não tem um gosto excelente em minha boca.
Algo em sua fala me faz engolir em seco e automaticamente minhas mãos tremem segurando a garrafa, pensando no que teria um gosto excelente em sua boca...
Por sorte, a voz da professora interrompe meus pensamentos.
- Uau! Eles não foram incríveis? Esses pequenos da 1a tem um dom! Mas agora vamos para uma performance um pouco mais ousada, sim? Palmas para as nossas Fadas do sol!
Explodimos em aplausos e gritos novamente e as cortinas se abrem e um refletor amarelo acende direto para o meio do palco.
- Ô senhor Sol, não tão forte!
As crianças gritam em coro e todos riem quando o refletor diminuiu sua luz. A música jazz começou a tocar, Swing The Mood, entorpeceu o lugar enquanto os pequenos dançavam em pares!
Sammy tinha as mãos dadas com um garotinho loiro, que sei que a mãe estava na fila abraçada com ele pouco antes do primeiro ato ter começado, ele a rodopiava e então ele a segurou por debaixo de seus braços e ela se jogou para trás levantando uma perna, surpreendendo a todos o menino aguentou e fizeram um lindo passo! Eu gritei, pois, a minha filha fez um levante de perna quase que no seu ombro, e sorrindo. Estava mais orgulhosa do que nunca, e mal podia esperar por seu solo na apresentação final, Sam ficou olhando dias e dias a preparação e de última hora assumiu essa posição depois que eu falei com a professora que ela iria sim participar.
- Sammy! Uhu!
James e Ella se levantaram para gritar juntamente com outros pais na plateia, era lindo ver as crianças, todas de amarelo, reluzentes de tanto brilho e o refletor ajudava. Todos dançavam ao som da música contagiante.
Sammy estava radiante, como um sol, literalmente. Todos estavam, mas meus olhos eram somente dela. Em termos de técnica, minha filha não ficava atrás de ninguém, claramente puxou o dom da avó com dança. Pensar nisso fez meu coração tropeçar em um poço de nostalgia, pensando em como seria diferente caso meu pai não tivesse me expulsado.
“Você jamais – Ele me empurra porta afora – ouse voltar aqui! Sua infeliz! Manchou seu nome, manchou meu sobrenome – Ele me chuta e joga as roupas na mão de minha mãe em mim.
Ela chora quieta no canto, pelo seu olhar posso ver que se preocupa comigo mais do que pode agir, infelizmente estou sozinha nessa.
- Imunda! Suja! Maculada!
Eu já não sabia como e nem tinha mais como chorar, tudo em meu corpo doía e eu não fazia ideia se era algo com o feto ou só das porradas que levei”
Nathan pega minha mão me tirando do devaneio de terror em que minha mente me levou.
- Tudo bem.
Não foi uma pergunta. Foi afirmação. Estava tudo bem. Na verdade, ótimo, minha filha fazia sua última pirueta com seu par e o gran finale foi ele a pegar em seus braços e ela cruzar as pernas se agarrando ao menino.
Todos aplaudimos e gritamos muito, caramba foi impressionante.
- Vamos lá? – Nathan ainda segura minha mão e quando eu aceno que sim com a cabeça ele me guia e tenho certeza que Ella repara em nossas mãos dadas mas deixo esse pensamento para trás quando entramos na sala.
Samantha está bebendo água em seu copinho rosa e então se vira para nós.
- Mama! Tio!
A palavra que ela usou me fez quase tropeçar, como pode ele mal a conhecer e já ter espaço no coraçãozinho dela para ser chamado de tio!?
Nathan é quem a alcança primeiro dessa vez e a pega no colo.
- O que você axou, tio Nathan?
- O que eu achei? – Ele usa de um falso tom de voz bravo e Sam rapidamente diminui o sorriso – Eu ADOREI.
Ela grita e o abraça mais uma vez.
- Ah com licença? A mãe não ganha um abraço?
Ela larga dele rapidamente e quase pula em meus braços, aí se ela soubesse ao menos o quanto ela me faz completa todos os dias...
- Última roupa né?
- Finalmente – disse ela quando coloquei no chão – Eu adoro me apresentar, mas esse tira casaco, bota casaco tá me dexando irritada.
Eu e Nathan gargalhamos freneticamente.
- Caramba, esse “tira casaco, bota casaco” é velho, de onde tirou isso?
- Minha mama, sempre fala isso.
Ah pronto agora eu sou velha.
- Ela tem cultura.
Sam assente com a cabeça e eu lhe entrego a última roupinha, e na minha opinião a mais legal. Essa eu tive que comprar pois nem nos meus sonhos eu conseguiria fazê-la. Era um conjunto de calça e uma blusa, ambos roxos com o que pareciam ser nuvens lilás pintadas por todo o conjunto, eram as Fadas do Ar.
- Ela vai ficar linda com este.
- Ela ficou linda com todas, é difícil escolher qual deles ficou melhor nela.
- Eu amei o amarelo, foi meu preferido.
Sam sai do banheiro e o rosto de Nathan se ilumina em um sorriso.
- Retiro o que eu disse, este é meu favorito.
Dá para ver o porquê, o cabelo dela bagunçou, o coque agora estava solto e seus cachinhos ruivos rebeldes pareciam prontos para o ataque.
- Mama, a mama da Amber disse que as meninas têm que ir de cabelo soto.
Eu confiro para checar se é realmente a ordem, e vejo que todas as meninas têm seus cabelos soltos ou semi-presos, e não será a minha filha que irá desobedecer a regra.
Eu penteio seus cabelos conseguindo localizar todos os grampos perdidos ali, pego um pedaço de sua franja com um pouco de cabelo das laterais e vou enrolando e prendendo, agora ela tem um cabelo semi-preso e um lado livre de cabelo no rosto.
Retiro novamente a maquiagem de seu rosto, passando agora o glitter roxo de uma das paletas que eu trouxe, juntamente com um batom roxo com gloss glitterinado, e neste momento se colocava uma sapatilha preta ao invés da rosa ou da bege então Nathan assumiu seu posto de sapateiro, para colocar e completar o look da minha filha.
- Prontinho. Está perfeita.
Minha filha pela última vez rodopiou e eu gravei seu vídeo. Ah ela ia adorar ver quando crescesse. Assim como das outras vezes ela correu para a fila e eu arrumava suas coisas, já deixando separando sua roupa “normal” caso ela quisesse se trocar. E Nathan não tirou os olhos de mim um minuto. Quando me dei por satisfeita e todos os meus itens estavam dentro da mochila eu tive coragem de encará-lo.
- Vamos?
- Claro.
Ele novamente pegou minha mão e me guiou sala a fora. Achamos nossos assentos e noto que James e Ella não estão, o que é irresponsável pois alguém poderia ter sentado achando que fomos embora, mas enfim ainda bem que não aconteceu. Procurei com os olhos por eles na vendinha, porém nada.
- Onde é que eles se meteram?
- Devem ter ido ao banheiro.
- Espero que sim – A professora começa a aparecer no palco com seu microfone e eu começo a ficar ansiosa, imagina Sammy não ver seus padrinhos aqui quando começar seu solo, ela morre, igual a uma fada quando não acreditam nelas.
- Ah, o que dizer, não é? Foi mesmo um grande show que meus pequenos deram, eu não poderia estar mais orgulhosa de todos vocês! Mas...
Era agora!
- Temos alunos muito especiais em minha aula, foram escolhidos dentre as 3 turmas, os mais destacados, os mais talentosos, os mais treinados e os mais empenhados nas minhas aulas, para serem nossas fadas mais ousadas e fortes, então fiquem com a minha nova, e isso é um anúncio completamente inédito para vocês, mas não para eles – Ela dá uma pausa e o refletor agora muda para roxo – Minha nova turma Avançada 4a! Palmas para eles!
Meu coração gela e eu levanto gritando, quando sinto mãos na minha, e reparo ser de Nathan. Minha filha, tinha sido escolhida para turma Avançada. De dança. Minha bebê, e ela já sabia que havia sido escolhida! Aquela demoninha, quis fazer surpresa para mim.
Sinto Nathan comemorar junto comigo e eu o encaro. Nossos olhares se encontram e posso ver seu sorriso, demonstrando orgulho. Pela Sam. O olhar dele vai dos meus olhos para a minha boca e eu o acompanho, faço o mesmo e passeio meus olhos por seu rosto.
- Parabéns, mãe do ano!
Ele fala em meu ouvido em meio ao barulho dos pais e meu sorriso só aumenta. Meu coração estava ainda mais acelerado, sinto minhas palmas da mão suarem nas mãos dele, e então nos sentamos. James e Ella aparecem logo em seguida afobados.
- Onde é que vocês estavam!? – Eu me viro para os dois sem soltar a mão de Nathan, e ele não pareceu se importar, tanto que a segurou com mais confiança.
- Fomos lá fora rapidinho, mas eu não deixei de ouvir o anúncio, nossa pequena está na Avançada, Alexandra! Ela conseguiu!
Eu ignoro a parte dela não estar aqui naquele momento e largo a mão de Nathan somente para abraçar os dois. A trancos e barrancos, ela chegou aqui. Nathan quis entrar no abraço grupal então abrimos espaço. De repente o barulho cessou e soubemos que a cortina estava se abrindo, logo nos sentamos e esperamos a nossa pequena aparecer.
Para minha surpresa, ela estava sentada de costas para nós, o barulho no auto falante era de ventania pura, e ela somente mexia seus braços no alto de um lado para o outro, a ventania aumentou quando outra menina, digo Fada, se juntou a ela e mexeu seus braços exatamente da mesma forma, e assim de forma gradual a ventania se tornou tão forte e de repente vidro quebrando.
Gritos de susto veem da plateia e eu me encantei, quando a música começou todas se levantaram e ergueram em semi ponta do pé, fizeram seu grande passo de contemporâneo, onde se joga uma perna a frente no chão e escorrega, erguendo-se pela força do abdômen, e então todas rodaram, dando uma estrela para trás e então todas as meninas menos a minha filha se sentaram ao redor dela, dando espaço para seu solo.
A pequena olhou para mim, e eu a olhei. Ela sabia de cor e salteado, e iria arrasar.
Ela assente para mim e eu para ela. Somos nós duas.
Ela salta e para abaixando, levanta sua cabeça e depois seu corpo, passa por todas as meninas rodopiando somente para se lançar para o ar num salto com pernas esticadas, executado perfeitamente, e então ao fim de seu solo, se estende no chão do palco para ser erguida por suas colegas. E fim.
Os gritos foram estrondosos, palmas, assobios, mas eu nem conseguia respirar de tanto orgulho da minha menina. Ela executou cada passo perfeitamente, e sorriu mais perfeita ainda.
Quando a colocaram no chão, todas fizeram uma reverencia e então toda a plateia se levantou de vez, a professora subiu no palco e as crianças a abraçaram, com muita vontade que quase derrubaram ela.
- Muito, muito, obrigada por virem nos prestigiar neste espetáculo das Fadas, ficamos imensamente gratos pela sua presença e participação, quero agradecer em específico a senhorita Vale, que nos presenteou com a Sammy – Os olhinhos de Samantha brilharam para a professora que sorriu de volta para a aluna – Esse talento puro que todos tivemos a sorte de presenciar hoje. Palmas para nossa solista!
Nossa fileira bateu todas as palmas do mundo para nossa princesa, Ella chorava e berrava, James assobiava e quase chorava, eu já estava em prantos há tempos e Nathan ficou responsável por ser a âncora de todos nós.
- E agora vamos chamar todos os dançarinos para o palco por favor!
Pouco a pouco, todas as crianças das diferentes turmas foram entrando, todas estavam lindas e me senti um pouco mal por perder as apresentações dos menores, porém tudo estava focado na minha filha.
- Nossa pequena bailarina - Disse Nathan olhando para mim.