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Quem de nós está mais perdido? 3

Ele falou isso com tanta seriedade que, por um momento, pensei que talvez houvesse alguma verdade nisso. Um medo panico começou a tomar conta da minha cabeça, mas antes que ele me dominasse completamente, Borka habilmente me deu uma injeção no ombro. Quase imediatamente, uma sensação de calor se espalhou pelo meu corpo e o medo começou a diminuir. O nariz, tudo bem, o nariz. Não é a coisa mais terrível que se pode perder, eu me acalmava, sentindo minha consciência mergulhar em um leve torpor sob o efeito da droga.

Saímos pelo portão surdo do hospital. O ar lá fora era completamente diferente — mais vivo, mais frio. Não me lembrava há quanto tempo não sentia o ar fresco no rosto. Parei por um segundo para respirar fundo. Parecia que o mundo fora daquelas paredes era estranho, distante. Como se eu estivesse a deixar a realidade habitual e a entrar em algo completamente diferente.

— Então, até mais — disse Borka, afastando-se um pouco. Ele empinou as suas grandes orelhas vermelhas, sorrindo, como sempre, com uma expressão bem-humorada, mas ainda assim zombeteira.

Eu olhava para ele e pensamentos estranhos passavam pela minha cabeça. Será que ainda estarei aqui? Será que conseguirei partir para sempre? Ou será que, como todos que já deixaram este lugar, mais cedo ou mais tarde voltarei?

O motorista do carro escuro abriu a porta e Bork, empurrando-me pelas costas como de costume, empurrou-me para dentro do carro e prendeu o cinto de segurança. Olhei para ele com o cansaço habitual, mas não disse nada. De que adiantaria? O momento em que a porta se fechou pareceu-me inesperadamente simbólico, como se não fosse apenas o som das fechaduras, mas o ponto final que encerrava mais um capítulo da minha vida. Durante todo esse tempo, eu parecia existir entre dois mundos — o hospital e o resto da vida. Agora, um deles estava trancado.

Assim que as fechaduras clicaram, uma sensação estranha tomou conta de mim. Memórias, como se fossem um filme antigo, começaram a surgir na minha cabeça — aquela viagem que poderia ter sido a última, momentos em que eu balancei no limite. Um suor frio brotou na minha testa e eu me encolhi no banco, tentando me acalmar. O motorista ficou em silêncio durante todo o trajeto, sem se virar para mim, como se tivesse esquecido da minha existência. Ele era apenas parte desse mundo, estranho e indiferente.

Tentei não prestar atenção ao meu estado, respirei mais fundo, olhei para os edifícios que passavam pela janela. O meu olhar deslizava por eles indiferentemente, como por imagens que não tinham qualquer significado. Eu olhava, mas não sentia nada. O medo lentamente desaparecia para algum lugar no fundo, dando lugar àquele vazio que eu conhecia tão bem.

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