Clínica de cirurgia plástica
A clínica à qual chegámos não era nada como eu esperava. Em vez de paredes sombrias e abandono, vi um edifício moderno, recém-remodelado. Paredes azul-claras, brilhantes, quase estéreis, como se essa cor pudesse fazer uma pessoa sentir-se melhor. Mas, para mim, era apenas um ambiente novo, nada mais.
Dentro da clínica, fui examinada por uma mulher cuja idade era difícil de determinar com precisão. Ela não era jovem, mas também não se podia dizer que era velha. O seu rosto parecia quase perfeito — traços regulares, linhas precisas, mas o seu olhar era perspicaz e penetrante, como se ela visse tudo o que se passava dentro de mim, cada pensamento, cada emoção.
— Por que está tão encolhida como um ouriço? — disse ela com um leve sorriso, do qual não senti nem calor nem tranquilidade. — O meu nome é Angelina Alexandrovna. Não tenha medo, não mordo.
A sua voz era surpreendentemente suave, como se estivesse a falar com uma criança. Mas por trás dessa tranquilidade escondia-se algo mais — controlo, confiança. Nas suas mãos, eu era apenas um objeto para futuras manipulações. Ela sabia o que fazer comigo e sabia que eu iria obedecer.
— Os teus exames estão normais — acrescentou ela, folheando alguns papéis. — Hoje vamos fazer tudo. Enquanto isso, descansa um pouco, vê televisão. Isso vai ajudar a distrair-te.
Ela levou-me para um quarto individual. O quarto era aconchegante, diferente dos quartos comuns dos hospitais. Não havia cheiro de remédios, havia flores por toda parte e a cama parecia uma cama comum, de casa. Havia uma televisão no quarto e Angelina Alexandrovna ligou-a, entregou-me o controle remoto, como se isso pudesse salvar-me dos pensamentos que se aproximavam.
Tentei concentrar-me na tela, mas era inútil. Os meus pensamentos estavam longe, onde a clínica, os médicos e toda aquela situação pareciam algo irreal. Eu observava as imagens passarem pela tela, mas não me lembrava de nada, como se fosse apenas um fundo.
Não se passaram dez minutos e a porta se abriu novamente. Fui convidada a entrar na sala de operações. Uma onda de ansiedade percorreu-me o corpo. A sala de operações estava demasiado cheia para um local como aquele. Parei na porta, observando vários jovens — rapazes e raparigas, todos eles pouco mais velhos do que eu. Os seus rostos estavam cautelosos, os seus olhares deslizavam sobre mim como se eu fosse um objeto de estudo.
Sem querer, pensei: «Será que eles realmente vão usar-me como material didático para estudar as vísceras?» Esse pensamento era absurdo, mas naquele momento parecia bastante real. Era como se todas aquelas pessoas tivessem vindo para me desmembrar. A pânico tomou conta de mim, mas eu não podia fazer nada. O medo estava lá, mas o corpo não me obedecia.
«Tenho de fugir», passou-me pela cabeça, um pensamento fraco, quase impercetível. Mas não fugi. Fiquei parada, como uma boneca obediente, e fiz tudo o que me mandaram. Vestiam-me uma camisa branca e colocavam-me sobre a mesa, como se isso fosse parte de algum programa inevitável. Sentia-me vazia, como se a minha vontade já estivesse há muito subordinada a algo maior, algo que eu não podia controlar.
Quando uma mulher idosa se aproximou do meu rosto com uma seringa nas mãos, senti o medo voltar a crescer dentro de mim. Ela aplicou-me uma injeção na veia e percebi que quase não me restava tempo. O sono aproximava-se, pesado como um cobertor que me cobria cada vez mais. Eu sabia que, se adormecesse, tudo acabaria.
— Conte até dez — disse Angelina Alexandrovna suavemente, segurando a minha mão, como se tentasse me acalmar.
Comecei a contar mentalmente, lutando desesperadamente contra a fadiga que me invadia. Um. Dois. Três. O mundo começou a ficar embaçado diante dos meus olhos. Quatro. Cinco. O meu corpo parecia estar a afundar na água. Seis. Sete. Tentei não fechar os olhos, mas as forças estavam a esvair-se. Oito. Nove. Senti a consciência a escapar-me lentamente. Dez.
Tudo desapareceu.
Ao acordar, a primeira coisa que fiz foi agarrar as orelhas, como se estivesse a verificar se estavam todas no lugar. Depois, a minha mão foi involuntariamente para o nariz. Ainda tinha na cabeça aquelas palavras estranhas sobre o nariz que o Bork me disse antes da operação. O meu corpo parecia mover-se por conta própria, verificando se nada de estranho tinha acontecido. Mas, ao tocar a ligadura na bochecha, senti uma dor aguda que me fez parar. Durante todo esse tempo, o medo permaneceu comigo, mesmo quando eu estava sob anestesia. E agora ele acordava comigo, com uma onda aguda de dor e incompreensão.
Logo, Angelina Alexandrovna entrou no quarto — a mesma mulher de olhar penetrante que me recebeu na clínica.
— Então, está tudo bem, garota corajosa? — ela perguntou, um pouco zombeteira, mas sem malícia. — Já se recuperou?
Eu apenas acenei com a cabeça, sem saber o que responder. A sua certeza de que tudo tinha corrido bem era um pouco desconcertante. O meu corpo ainda estava repleto de vestígios de ansiedade, mas eu não compreendia de onde vinha essa sensação.
