Quem de nós está mais perdido? 2
O meu médico era a única pessoa que parecia normal neste lugar, onde tudo à sua volta estava impregnado de loucura. Ele destacava-se em meio a todo esse caos — alto, de ombros largos, com uma aparência que parecia ter saído dos contos antigos russos. Os seus cabelos claros, quase amarelados, e as sobrancelhas quase imperceptíveis faziam com que ele se parecesse com um herói da antiguidade. Mas havia um detalhe que sempre me deixava um pouco perplexa: quando ele falava, seus lábios se contraíam estranhamente, como se ele estivesse tentando mastigar seu bigode exuberante. Era ridículo e, ao mesmo tempo, de alguma forma reconfortante. Até mesmo suas esquisitices eram previsíveis e, de certa forma, agradáveis.
Certa vez, ele fez uma pergunta que me tocou mais do que eu esperava:
— Por que nunca se interessa em saber quando será dada alta?
A pergunta soou inesperada. Olhei para ele, sentindo meus pensamentos girando em minha mente, mas mantive a calma exterior. Eu sabia que muitos pacientes faziam essa pergunta — quando poderiam sair, quando sua “liberdade” chegaria. Mas eu nunca tive esse impulso. Eu não ansiava pela alta. O meu lugar era aqui, dentro dessas paredes. Por mais estranho que isso pudesse parecer.
Eu dei de ombros e respondi simplesmente:
— Para quê? Aqui é a minha casa.
Ele franziu a testa, claramente sem esperar por essa resposta. Os seus olhos, calmos e perspicazes, pareciam procurar algo nas minhas palavras, algo oculto, que eu mesma não compreendia.
— Alguns consideram este lugar uma prisão — disse ele, como se estivesse a testar a minha reação.
Pensei por um momento. Prisão? Talvez, para alguns, fosse realmente um lugar de confinamento. Para mim, era mais uma jaula, mas uma jaula não feita dessas paredes, e sim de dentro. Eu não sentia diferença entre o que estava lá fora e o que estava dentro de mim. Era a mesma coisa.
— A minha prisão está dentro de mim — disse eu, olhando diretamente nos seus olhos. — Não importa o que está lá fora.
Por um momento, um olhar de compreensão apareceu nos seus olhos. Ele parecia ter captado a essência das minhas palavras, mas não tentou contestá-las ou analisá-las mais a fundo. Ele simplesmente entendeu. E isso foi estranho — pela primeira vez, alguém não tentou me impor as suas interpretações. Não havia julgamento nos seus olhos, apenas uma leve aceitação de que, para mim, aquela vida atrás das grades era normal.
Naquele momento, percebi que ele provavelmente era a única pessoa que realmente não me via como alguém doente ou quebrada. Ele simplesmente me via como eu era.
O mês de outubro foi o último que passei entre aquelas paredes verde-pântano. Parece que foi o período mais melancólico, mas ao mesmo tempo inquietante e tranquilo. Aparentemente, nada de novo acontecia, os dias passavam normalmente, mas eu sentia que algo estava a acontecer. Algo precisava mudar, embora eu não soubesse em que direção. E então, um dia, isso aconteceu.
— Arrume-se — disse a voz de Borka, e ele jogou-me um casaco acolchoado do hospital, aquele que eu agora considerava parte do meu uniforme.
— O quê, nem me dás um abraço de despedida? — acrescentou ele, sorrindo de brincadeira, como se estivesse a despedir-se de uma amiga de longa data, e não de uma paciente que em breve deixaria aquele lugar. Havia em sua voz a habitual leveza, mas agora, por alguma razão, ela me pareceu inadequada.
— Estou a receber alta? — perguntei, tentando entender se ele estava a falar sério ou se era mais uma piada.
— Sim — ele sorriu, piscando o olho, como se tudo isso fosse uma piada. — Estão a dar-me alta. Para os órgãos.
Essas palavras me fizeram parar no lugar. Por um segundo, o chão desapareceu debaixo dos meus pés e tudo à minha volta girou, como num redemoinho. Senti que estava a perder o equilíbrio e, se o Bork não me tivesse segurado, teria caído no chão.
— O que se passa? — perguntou ele suavemente, segurando-me pelos ombros. — Estou a brincar! Quem precisa das tuas entranhas doentes?
Ele sorriu, mas percebi uma sombra de preocupação no seu rosto. Talvez houvesse uma pitada de verdade na sua piada, mas naquele momento eu já não conseguia entender onde começava a realidade e onde terminavam as piadas de Borka.
— Você vai para a clínica de cirurgia plástica — ele continuou com a mesma naturalidade, como se tudo isso fosse normal.
— Para quê? — olhei para ele perplexa, mas ainda não conseguia me recuperar das suas palavras. «Atribuem aos órgãos» — essa frase ressoava na minha cabeça como algo sinistro.
— Ora, para quê? — continuou Borka, olhando para mim com escárnio. — Por exemplo, tem uma tia rica. Dinheiro sem conta, vida bem-sucedida, mas um nariz como o do Buratino ou um narigão como o de um hipopótamo. Só serve para assustar crianças. E tu tens um nariz pequeno e bonito. Então vão tirar o teu e transplantar o dela.
