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Quem de nós está mais perdido?

Tudo isto parece uma espécie de peça de teatro, mas os atores não sabem os seus papéis. Ninguém os controla, eles simplesmente existem neste mundo que há muito perdeu o sentido. Às vezes, vejo outros pacientes a juntar folhas em grandes pilhas. Eles parecem estar a fazer algo importante, como se esse processo pudesse salvá-los. Mas o que eles podem salvar? As pilhas de folhas parecem anjos cansados do outono, deitados no gramado para nunca mais se levantarem. Eles apodrecem lentamente, como tudo aqui.

Eu observo isso do meu quarto, sentindo como essa imagem se funde gradualmente com o que está a acontecer dentro de mim. Não consigo entender quem de nós está mais perdido — aqueles que andam pelo jardim ou eu, sentada atrás da janela, observando-os.

Costumo sonhar em sair na chuva. Não apenas sob uma chuva fraca e leve, mas sob uma verdadeira tempestade, para que as gotas frias batessem nas minhas bochechas, lavando tudo o que estava tão profundamente incrustado na minha pele e na minha alma. Como se essa chuva pudesse lavar toda a sujeira que se acumulou dentro de mim, limpar-me completamente, fazer-me sentir viva novamente. Mas aqui, dentro destas paredes, a chuva é apenas um sonho. Por isso, fico na casa de banho vazia, debaixo de um fio de água, e fecho os olhos, imaginando que, em vez de água, são gotas frias e purificadoras de chuva que caem sobre mim.

Eu sou sempre a última a entrar no chuveiro. E sempre sozinha. Não é apenas um acaso ou coincidência — é uma ordem do meu médico. Ele percebeu que eu não consigo estar entre outras pessoas, não consigo ver os seus corpos nus, não consigo fazer parte desse espetáculo indesejado. Quando entrei pela primeira vez no chuveiro, vi fileiras de cabines sem portas e uma dúzia de pessoas nuas de diferentes idades, que me olhavam descaradamente, e senti que estava a perder o controlo.

Naquele momento, parecia que o ar à minha volta se comprimia, tornava-se pesado, como se eu tivesse levado um soco no estômago. Não conseguia inspirar, não conseguia expirar. Todos aqueles corpos, todos aqueles olhares eram demais. Parecia que eles me penetravam, me rasgavam em pedaços com o seu silencioso julgamento. Tudo dentro de mim se contraiu como uma mola e eu simplesmente desabei no chão molhado de azulejos.

Eu só ouvia a minha respiração, ofegante, convulsiva, e os batimentos do meu coração, que soavam como um alarme ensurdecedor. Ele batia tão alto que me parecia que todos ao meu redor podiam ouvi-lo. Havia um zumbido ensurdecedor nos meus ouvidos, e meu coração parecia tentar sair do peito para fugir desse pesadelo. Encolhi-me, pressionei as mãos contra os ouvidos, tentando abafar o som, mas não adiantou. Parecia que estava a gritar, mas, em vez disso, apenas choramingava como um cão espancado, implorando a todos ao meu redor que não se aproximassem de mim.

Não me lembro quanto tempo passou até que me arrastassem para fora do chuveiro. Os enfermeiros arrastaram-me como um saco, sem piedade e sem compreensão. Eu já não via os rostos deles — apenas sentia o azulejo frio sob os pés e o vazio dentro de mim. A escuridão tomou conta de mim novamente, e eu não conseguia resistir nem lutar contra isso. Tudo acontecia como num pesadelo que se repetia sem parar.

Quando acordei, o meu médico já tinha tirado as suas conclusões. Ele percebeu que eu não podia ficar nessas condições, não podia ficar entre pessoas. O médico sugeriu que eu sempre tomasse banho por último. E agora, toda vez que entro no chuveiro, tento me convencer de que tudo será diferente, que conseguirei aguentar pelo menos alguns minutos sob o jato de água. Mas, mesmo assim, é apenas um ritual. A água escorre pelo meu corpo, mas não me limpa. Ela não consegue lavar a sujeira que se incrustou profundamente na minha alma.

Fico de pé, com os olhos fechados, e imagino que a chuva está a cair sobre mim — uma chuva verdadeira, fria e forte. Uma chuva que poderia levar consigo todo esse fardo que carrego dentro de mim. Fico de pé, com o rosto voltado para cima, e imagino as gotas frias a baterem no meu rosto, lavando tudo o que me destrói. Mas isso é apenas uma ilusão. Sei que nem a chuva nem a água podem me tornar inteira.

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