Clínica de cirurgia plástica 2
— Amanhã vamos tirar o penso, — continuou ela, levantando ligeiramente uma sobrancelha, — e vais ver a beleza que criámos para ti.
Beleza? Mal consegui conter o riso, mas apenas fiz uma careta, sentindo o penso esticar na minha bochecha, causando ainda mais dor.
— Enquanto isso, descansa. Acho que vais ficar deitada por uma semana — acrescentou ela, examinando-me com um olhar profissional, como se eu fosse sua mais recente obra de arte, que acabara de sair da mesa de operações.
— E depois? — perguntei, deixando escapar a pergunta que mais me incomodava.
— Veremos — disse ela com tanta facilidade, como se fosse um plano para o futuro.
Com isso, ela saiu da sala, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. Angelina Alexandrovna estava certa sobre a «beleza». Quando, no dia seguinte, ela removeu o curativo, vi que a cicatriz feia e irregular que antes se destacava na minha bochecha agora se transformara numa fina linha vermelha brilhante. O rosto ainda não estava livre do inchaço, a pele estava esticada, mas eu já podia ver que o resultado era melhor do que eu poderia imaginar.
Ela examinava o seu trabalho com carinho, satisfeita com o resultado, como um artista que olha com orgulho para a sua tela concluída.
«O que achas?», perguntou ela, percebendo que eu não conseguia tirar os olhos do espelho.
— Melhor — respondi baixinho, embora na minha cabeça ainda girassem pensamentos sobre por que tudo isso era necessário. Toda essa estranha história com a operação parecia-me algo incompreensível e distante da realidade. Por que me trouxeram para cá? O que vem a seguir?
Mas Angelina Alexandrovna parecia não se preocupar com nada. Ela estava confiante no seu trabalho e não deixava dúvidas de que tudo tinha corrido como deveria. E eu, sentada na cama do hospital, quebrava a cabeça tentando encontrar sentido em tudo isso.
Algumas horas depois de tirar os pontos, um homem baixo entrou no quarto, que à primeira vista me pareceu nada mais do que um transeunte casual. O seu cabelo já estava grisalho, o rosto era daqueles que pareciam ter ficado congelados numa expressão semi-amigável, mas com um tom de cansaço. Por um segundo, pensei que ele tivesse entrado na porta errada, que fosse apenas mais um médico ou, talvez, alguém dos visitantes que tivesse confundido os quartos.
Mas antes que eu pudesse vê-lo direito, Angelina Alexandrovna entrou correndo no quarto. Ela parecia, como sempre, serena, mas em seu olhar havia algo como uma reprovação irritada. Eu a conhecia o suficiente para entender que ela claramente não esperava ver aquele homem ali tão cedo.
— Felya! — ela quase exalou, como se esperasse a chegada dele, mas não naquele momento. — Tinha a certeza de que virias imediatamente. Mas podias ter esperado por mim até eu ficar livre. Não, como sempre, pressa! Sempre queres tudo imediatamente e agora!
As suas palavras soaram repreensivas, mas sem verdadeira condenação. Apesar do descontentamento, havia uma certa leveza familiar no seu tom de voz, como se ela estivesse acostumada há muito tempo com esse comportamento dele.
O homem a quem ela chamou de Felya não prestou atenção às suas observações. Ele continuou a me examinar, quase que estudando-me, como se eu não fosse apenas uma paciente, mas uma obra de arte que ele tinha vindo apreciar. O seu olhar estava concentrado no meu rosto, como se ele estivesse à procura de algo importante, algo que confirmasse ou refutasse os seus próprios pensamentos.
— Então, eu estava certa? — continuou Angelina Alexandrovna, dirigindo-se claramente a ele. Havia um tom de orgulho na sua voz. — Parece um anjo? Lábios carnudos e sensuais, nariz reto, olhos azuis... Simplesmente uma cor celestial mágica! E um rosto simplesmente perfeito. Este rosto é quase de um anjo! Por enquanto, quase. Com o tempo, a cicatriz ficará praticamente imperceptível.
Eu estava sentada, quase sem respirar, sentindo a tensão aumentar lentamente no ar. Eu me sentia desconfortável com toda aquela atenção voltada para o meu rosto, com as conversas que pareciam acontecer ao meu redor, mas que, ao mesmo tempo, me diziam respeito diretamente. Como se eu não fosse uma pessoa, mas um objeto de discussão.
«Anjo? A sério?» — tive dificuldade em conter o riso, porque tudo isso parecia tão distante da realidade em que eu vivia. O meu rosto, que antes era apenas uma máscara de dor e medo, agora se transformara em algo que eles tentavam chamar de quase perfeito. Mas eu ainda não conseguia compreender o que isso significava.
O homem parou, como se o mundo inteiro tivesse parado à sua volta, e, prendendo a respiração, olhou fixamente para o meu rosto. O seu olhar era tão perscrutador que senti como se ele estivesse a ler cada traço, cada cicatriz no meu rosto, tentando desvendar todos os meus segredos. Com toda essa atenção, comecei a encolher-me involuntariamente, como se o seu olhar me pressionasse, tornando-se quase insuportável. Mas não podia fazer nada, apenas fiquei sentada em silêncio, esperando que aquilo acabasse.
— Imagina se ela tivesse caído nas mãos dos meus veterinários com diplomas de cirurgião? — ele finalmente exalou, sem desviar o olhar, dirigindo-se a Angelina Alexandrovna. A sua voz estava cheia de horror só de pensar nisso. — Eles teriam transformado essa maravilha num monstro! Como eu poderia permitir isso?
As suas palavras estavam cheias de admiração sincera, mas também havia nelas um tom de autoconfiança, como se fosse graças a ele que eu tivesse escapado de algo terrível. Tudo o que ele dizia soava como um elogio a si mesmo, e eu só podia observar como o seu olhar deslizava pelo meu rosto com tanta atenção, como se ele estivesse à procura de confirmação para as suas palavras.
Angelina Alexandrovna riu, o seu riso soou leve, como se fosse um elogio comum, com o qual ela já estava acostumada a trocar com ele.
— Você é mesmo um craque — disse ela, um pouco zombeteira, mas com aquele tom de orgulho que mostrava que ela compartilhava totalmente da opinião dele.
Eu fiquei sentada, sentindo como se essas palavras passassem por mim, a discussão acontecia ao meu redor, mas sem a minha participação.
