Capítulo 4 Dante Ferraz
Depois que aquela mulher sai da minha sala...
O silêncio não traz alívio.
Traz incômodo.
As palavras dela ainda ecoam.
Você é um monstro.
Um dia você vai se arrepender.
Aperto o maxilar.
— Louca... — murmuro, passando a mão no rosto.
Ela não sabe de nada.
Não sabe o que eu perdi.
Não sabe o que aquilo me custou.
Se quer cuidar da criança... Que cuide. Eu não vou me envolver.
Não vou.
Mas, por mais que eu repita isso... Algo dentro de mim não se cala.
E isso me irrita ainda mais.
Pego o celular com mais força do que o necessário.
As chaves do carro.
Não consigo ficar ali.
— Cancela minha agenda — digo ao passar pela mesa do meu assistente. — Só volto amanhã.
Ele me olha surpreso, mas não questiona.
— Sim, senhor.
Entro no elevador.
As portas começam a se fechar... Mas travam. Abrem novamente.
E Breno entra.
Meu amigo.
Um dos poucos que ainda atravessam a minha muralha.
— Como vai, Dante? — ele pergunta, me analisando. — Dia difícil?
Solto uma risada seca.
Sem humor.
— Você não faz ideia.
Ele encosta ao meu lado, cruzando os braços.
— Então vamos resolver isso do jeito certo.
Ergo uma sobrancelha.
— Bebendo?
— Exatamente.
Ele me encara, mais sério agora.
— Me acompanha no bar? Estou precisando espairecer.
Observo melhor.
Algo está errado.
— O que aconteceu?
Breno solta o ar, passando a mão pelos cabelos.
— A Vivian me pediu um tempo.
Franzo a testa.
— Tempo?
— É. — ele ri, desacreditado. — Nas vésperas do nosso casamento.
O elevador desce em silêncio por alguns segundos.
— Já tentou conversar com ela? — pergunto, mais calmo agora.
— Já tentei tudo. — ele passa a mão no rosto, frustrado. — Falei que podíamos adiar o casamento, que ela não precisava se sentir pressionada...
Ele ri de novo, mas dessa vez sem humor.
— Mas ela não fala nada com nada.
Observo em silêncio.
— Cheguei a perguntar se ela ainda me ama.
Isso me faz olhar para ele de verdade.
— E?
— Ela não respondeu.
O silêncio pesa entre nós.
— Dei até amanhã pra ela me dizer o que está acontecendo — ele continua, a voz mais dura. — Porque eu não vou me casar com alguém que, a um mês do casamento, me pede um tempo.
As portas do elevador se abrem.
Mas nós não saímos ainda.
— Falta menos de um mês, Dante... — ele completa, com a voz carregada. — E ela resolve complicar tudo.
Caminhamos para fora do prédio.
— As pessoas sempre complicam — respondo, automático.
Ele me encara de lado.
— Nem todo mundo é você, cara.
Ignoro.
Respiro fundo.
— Amanhã vocês conversam com calma.
Breno solta um suspiro.
— Espero que sim.
Faço um leve aceno.
— Vou aceitar o convite.
Ele ergue uma sobrancelha, surpreso.
— Sério?
— Precisamos disso — digo, firme. — E, sinceramente... nada melhor do que um amigo pra esquecer um pouco.
Ele sorri de leve.
— Então te encontro lá.
Assinto.
— Te encontro lá.
Seguimos cada um para o próprio carro. Mas, no caminho... Minha mente trai. E vai direto para ela.
Monalisa. Aperto o volante.
Se ela estivesse aqui... Talvez soubesse o que dizer para a irmã.
Talvez resolvesse isso em minutos.
Ela sempre soube lidar com as pessoas. Com sentimentos e com o caos. Diferente da Vivian.
Vivian sempre foi o oposto.
Impulsiva.
Indecisa.
Ego forte demais.
Monalisa... Era calma.
Compreensiva.
Tinha uma empatia que preenchia qualquer ambiente. Só de estar presente... tudo parecia mais fácil.
Fecho os olhos por um segundo no sinal vermelho.
Droga.
Até nisso ela faz falta.
Em tudo. Balanço a cabeça, afastando o pensamento.
Chega.
Estaciono em frente ao bar.
Desço do carro. O som baixo de música e conversas me atinge assim que entro. Olho ao redor.
E o encontro.
Sentado no balcão.
Dois copos já nas mãos. Como se soubesse exatamente o que eu precisava.
Caminho até ele. Mas com o peso do dia ainda grudado em mim.
Breno empurra um dos copos na minha direção.
— Isso aqui resolve metade dos problemas.
Pego o copo.
Olho para o líquido âmbar por um segundo.
E então bebo de uma vez o gosto queima.
Mas não o suficiente.
Coloco o copo sobre o balcão.
— Então... — ele começa, me observando — quer me contar o que deixou você desse jeito?
Penso por um segundo.
Na mulher.
Na criança.
Naquilo tudo que eu não quero sentir. Mas já está lá.
— Nem vale a pena.
Breno me encara, desconfiado.
— Quando você diz isso... é porque vale.
Solto um suspiro.
Passo a mão no rosto.
E, pela primeira vez desde que saí da empresa... As palavras dela voltam.
Mais fortes.
Mais presentes.
E mais difíceis de ignorar.
— Tem uma mulher... — começo, a voz mais baixa. E só isso... Já é mais do que eu gostaria de admitir.
— Ela veio me enfrentar... por causa da criança.
Minha voz sai mais dura do que eu esperava. Breno franze a testa imediatamente.
— Que mulher é essa? — ele se inclina um pouco na minha direção. — E essa criança... é a filha da sua irmã?
Engulo seco. Só de falar já me irrita.
Já me expõe.
Mas Breno...Sempre foi um dos poucos que não recuaram diante do que eu me tornei.
— A mulher é uma louca — digo, sem paciência. — Está se metendo onde não foi chamada.
Viro mais um gole do copo.
— Disse que vai lutar pela criança.
Breno fica em silêncio por um segundo.
Me analisando.
— Dante... — ele começa, mais sério agora — você está mesmo ouvindo o que está dizendo?
Reviro os olhos, irritado.
— Não começa.
— Eu vou começar, sim.
A firmeza na voz dele me faz olhar.
— Essa menina é a única família que te restou.
As palavras dele batem. Mas eu me fecho.
— Você já perdeu seus pais... sua esposa... sua filha... e agora a sua irmã.
Aperto o copo com força.
Silêncio.
Pesado.
Cortante.
— E mesmo assim... você vai virar as costas pra essa criança?
Meu maxilar trava.
— Ela pode ser exatamente o que você precisa.
Solto uma risada seca.
Sem humor.
Sem paciência.
— Eu não preciso de nada.
Minha voz sai baixa. Mas carregada.
— Nem de ninguém.
Encaro ele, direto.
— Já basta perder tudo o que eu tinha.
Minha respiração pesa.
— Eu não vou colocar mais ninguém perto de mim.
Breno não recua.
— Nem uma criança?
— Muito menos uma criança — corto, firme. — Que eu nem conheço.
O silêncio que se instala agora é diferente.
Mais desconfortável.
— Você não sente nada? — ele insiste, mais baixo. — Além de ser do seu sangue... ela é inocente, cara.
Inocente.
A palavra ecoa.
Mas eu a afasto.
— Não sinto nada.
Minha resposta sai rápida.
Fria.
Viro o restante do copo.
— E é melhor a gente mudar de assunto.
Breno me encara por mais alguns segundos.
Como se tentasse encontrar algo ali.
Alguma brecha.
Mas não há. Ele solta o ar devagar.
— Você sabe que, se quiser conversar... eu estou aqui.
Não respondo.
— E já passou da hora de você tentar seguir em frente, Dante.
Meu olhar se fecha.
— Já fazem três anos.
Três anos.
Parece ontem.
— A Monalisa não iria querer te ver assim — ele continua. — Afundado nessa frieza... sozinho... afastando todo mundo.
Meu peito aperta.
Mas eu engulo.
Como sempre faço.
— Eu estou bem assim.
A resposta sai automática.
Treinada.
Vazia.
— Não precisa se preocupar comigo.
Desvio o olhar.
— Agora vamos mudar de assunto.
Pego o copo e faço um gesto para o bartender.
— Eu preciso esquecer um pouco.
Breno ainda me observa.
Mas, dessa vez... Ele cede.
— Certo — murmura.
E o assunto muda.
Falamos sobre negócios.
Viagens. Novos hotéis. Regiões em crescimento.
Investimentos.
Expansão. Coisas que fazem sentido.
Coisas que eu controlo.
Breno se solta mais, entrando no assunto. Ele sempre teve uma boa visão.
Mesmo sendo advogado da empresa... Pensa como empresário.
Já cheguei a convidá-lo para sociedade mais de uma vez.
Mas, hoje... Nada disso realmente importa. Porque, no fundo... Minha mente ainda está presa.
Naquela mulher.
Naquela criança.
Naquela insistência que não deveria me afetar... Mas afeta. E isso me irrita.
As horas passam rápido demais. Ou talvez... Eu só esteja tentando não sentir.
Quando percebo, já passa das dez da noite. Meu motorista chega na frente do bar.
Breno se despede com um aceno silencioso. Entro no carro sem dizer muito. O mundo lá fora passa borrado pela janela. E o álcool...
Começa a pesar. Era isso que eu queria esquecer.
Nem que fosse por algumas horas.
Chego em casa. O silêncio me recebe como sempre.
Frio.
Vazio.
Familiar.
Tiro a roupa pelo caminho e entro direto no banho. A água quente cai sobre mim... Mas não leva nada embora. Nunca leva. Saio, me seco de qualquer jeito. E me jogo na cama.
O corpo cede.
Cansado.
Mas a mente... Ainda luta.
E antes que o sono me leve completamente... Uma imagem surge. Uma mini cópia da minha irmã que eu nem mesmo cheguei a ver.
Viro o rosto no travesseiro, irritado.
— Droga...
Mas o cansaço vence.
E, pela primeira vez no dia... Eu apago.
Sem controle.
Sem saber que... aquela criança que eu tento ignorar... já começou a ocupar um espaço que eu jurei nunca mais abrir.
Acordo com a cabeça latejando.
Forte. Pesada. Como se alguém estivesse martelando por dentro.
— Caralho... — resmungo, passando a mão no rosto. Fecho os olhos de novo por um segundo.
Péssima ideia.
A dor piora. Solto o ar com irritação.
— Foi uma ótima ideia beber, Dante... — ironizo para mim mesmo.
Mas, no fundo... Eu sei, eu precisava daquilo.
Precisava desligar. Mesmo que fosse à força. Me sento na cama devagar, apoiando os cotovelos nos joelhos.
A cabeça gira. E, junto com a dor... As lembranças da noite voltam.
Breno.
A conversa. A discussão. Aquela mulher.
Fecho os olhos com força.
— Droga...
A imagem dela surge de novo. O olhar firme. A voz carregada de verdade.
Eu vou lutar pela Luna.
Meu maxilar trava.
— Louca...
Passo a mão no rosto, tentando afastar aquilo.
— Espero nunca mais ver você na minha frente.
Levanto, ignorando o peso no corpo, e sigo para o banheiro. Abro o chuveiro e entro debaixo da água gelada sem pensar duas vezes.
O choque me faz prender a respiração. Mas eu permaneço. Deixo a água cair. Forçando o corpo a acordar.
Forçando tudo a voltar para o controle. Minutos depois, saio.
Mais desperto.
Mas não melhor.
Já vestido, desço para o café. A mesa está posta.
Silenciosa. Impecável. Exatamente como eu gosto.
Sem vozes. Sem risadas. Sem... vida.
Sento e começo a comer.
Automático. Sem sentir gosto. Sem pensar ou tentando não pensar.
Porque, no momento em que eu paro... Tudo volta.
Termino rápido.
— O carro já está pronto, senhor — o meu motorista avisa.
Assinto.
Hoje não tenho cabeça para dirigir.
O trajeto até a empresa passa em silêncio. Olho pela janela, perdido.
Mas, dessa vez... Não é o passado que me incomoda. É o presente.
Algo está prestes a acontecer.
Eu sinto. E não gosto.
Assim que entro no prédio... Um dos seguranças se aproxima.
— Senhor Ferraz?
Paro. Já irritado.
— O que foi?
— Tem um advogado à sua espera na recepção.
Franzo a testa.
— Advogado?
— Sim, senhor.
Isso não me agrada. Nada.
Sigo em direção à recepção.
E o encontro.
De pé. Falando ao celular.
— Queria falar comigo? — digo, direto.
Ele se vira imediatamente e encerra a ligação.
— Bom dia, o senhor é Dante Ferraz.
— Eu mesmo. Do que se trata?
Ele me observa com atenção antes de responder.
— Preciso que o senhor avalie e assine um documento... para que possamos dar andamento a um processo.
Cruzo os braços.
— Que processo?
Ele não hesita.
— Sobre a menor Luna Ferraz.
O nome cai como um peso. Sinto algo apertar no peito. Mas mantenho a expressão intacta.
Ele me entrega um envelope.
Pego. Abro.
E, quando meus olhos caem sobre o documento...
Destituição do poder familiar.
Leio por cima.
Rápido.
Direto.
Objetivo.
Mas o significado... É claro demais.
Minha mandíbula se contrai.
— Eu vou precisar que meu advogado analise isso.
Minha voz sai firme. Sem espaço para discussão.
— Claro — ele responde, mantendo a postura. — O senhor pode acompanhá-lo, e eu retorno mais tarde para recolher o documento.
Assinto, ainda com o papel em mãos. Mas antes que ele se afaste, pergunto:
— Posso saber quem fez a solicitação?
Ele me encara.
— Não é um processo sigiloso.
Pausa. E então:
— Senhora Helena Duarte.
O nome ecoa.
E, pela primeira vez desde que vi o documento... Sinto algo diferente da raiva. Algo mais perigoso.
Ela fez isso, não estava blefando.
— Mas para que o processo siga — ele continua — preciso da sua assinatura após leitura completa.
Seguro o envelope com mais força.
— Meu advogado vai entrar em contato.
Ele assente e se afasta.
Fico parado por alguns segundos.
Imóvel.
Com o documento nas mãos. Como se aquilo pesasse mais do que deveria. Como se aquilo... Significasse mais do que eu quero admitir.
Então viro e sigo pelo corredor.
Passos firmes. Mas a mente... Em caos.
Pego o celular e ligo.
Breno atende no segundo toque.
— Fala, Dante.
— Passa na minha sala.
Minha voz sai mais séria do que o normal.
— Preciso que você analise um documento.
— Já estou na empresa — ele responde imediatamente. — Tô indo pra aí.
— Certo.
Desligo sem esperar mais nada.
Entro na minha sala.
Fecho a porta. E jogo o envelope sobre a mesa.
Fico olhando para ele. Como se fosse só papel. Só um documento.
Mas não é.
Porque aquilo ali... Não é sobre um processo. É sobre escolha. E, pela primeira vez... Alguém decidiu lutar. Contra mim....
