Capítulo 5 Helena Duarte
A senhora Tereza suspira antes de falar, como se já soubesse que eu não gostaria da resposta.
- Hoje não vai ser possível, Helena... - diz com cuidado. - Já está ficando tarde, e esse é o horário das atividades das crianças. Preciso manter a rotina delas.
Sinto o peito apertar.
Olho na direção do corredor, como se, de alguma forma, eu ainda pudesse ver a Luna.
- É rápido... eu só queria... - paro no meio da frase, engolindo o restante. A vontade de vê-la.
De ter certeza de que ela está bem.
De sentir aquele sorriso de novo.
A senhora Tereza se aproxima um pouco mais.
- Eu sei - fala com doçura. - Mas você já deu um passo enorme hoje. Agora... precisa ter paciência.
Paciência.
Essa palavra nunca pareceu tão difícil.
Solto o ar devagar.
- Eu volto amanhã.
- E ela vai estar aqui - responde com um pequeno sorriso.
Assinto.
Mas, antes de sair, não resisto:
- Cuida bem dela, por favor.
A senhora Tereza segura minha mão por um segundo.
- Como se fosse minha.
E isso... me dá um pouco de paz.
O caminho de volta para casa é silencioso. Mas, dessa vez, não é um silêncio vazio. É um silêncio cheio de pensamentos.
De planos. De medo.
E de uma esperança que eu nem sabia que ainda existia em mim.
Chego em em casa e opto por preparar algo pra comer, e fico pensando como será quando a Luna estiver aqui?
Será que ela vai gostar dessa casa?
Será que eu serei o suficiente para ela?
Tento jogar essas perguntas longes, e após o banho me deito e fico lendo um livro até o sono chegar...
Acordo mais disposta, tomo banho me arrumo hoje tenho alguns pacientes mais vai ser tranquilo.
Tomo o meu café, e após sigo para o meu consultório quando estou saindo do carro meu celular vibra.
Otávio.
Atendo imediatamente.
- E então? - minha voz sai mais ansiosa do que eu gostaria.
- Calma, Helena - ele diz, com aquele tom equilibrado de sempre. - Eu já vi o documento. Tá tudo caminhando... mas você vai precisar de paciência.
Fecho os olhos por um instante.
- Eu não sou boa com isso.
Ele solta um leve riso do outro lado.
- Eu sei. Mas nesse caso... você vai ter que aprender.
- E o Dante? - pergunto direto.
Um pequeno silêncio se instala.
- Ele ainda não assinou - Breno responde. - Mas também não negou. Isso já é alguma coisa.
Aperto o celular com mais força.
- Eu não confio nisso.
- Nem eu - ele admite. - Mas vamos fazer tudo certo. Sem brechas.
Respiro fundo.
- Eu não vou desistir.
- Eu sei que não vai - ele diz, firme. - E é exatamente por isso que você pode ganhar isso.
Desligo logo depois.
Mas a inquietação... Permanece.
Chego em meu consultório dou um bom dia para minha secretária e entro e encosto a porta atrás de mim.
O silêncio me envolve.
E, por muito tempo...
Foi assim que eu sobrevivi.
Começo a organizar algumas coisas, tentando manter a mente ocupada.
Começo a organizar minha mesa, deixo a sala arejada como gosto de receber meus pacientes, tento ocupar a mente tento fazer qualquer coisa... Para não pensar.
Mas é inútil.
Porque, no meio de tudo o passado vem. Sempre vem.
Marcos.
Fecho os olhos com força.
- Você é incompleta, Helena.
A voz dele ecoa na minha mente como se ainda estivesse aqui.
- Eu quero uma família de verdade.
- E eu não sou suficiente? - lembro da minha própria voz, quebrada naquele dia.
- Não... não é.
Abro os olhos de repente.
A respiração pesada. O peito apertado.
- Covarde... - murmuro, com raiva.
Ele foi embora. Me deixou como se eu fosse descartável.
Como se o meu valor estivesse preso a algo que eu nunca pude controlar.
Mas ele não me destruiu. Não conseguiu.
Endireito os ombros.
Eu me reconstruí sozinha.
E foi assim mesmo. Eu escolhi sair.
Escolhi não voltar pra casa dos meus pais. Não queria olhares de pena. Não queria ser a coitada que não pode ter filhos.
Eu nunca fui isso. Nunca vou ser.
Sempre corri atrás do que quis.
Sempre lutei. Sempre me levantei.
E não vai ser um homem... Muito menos dois... Que vão me fazer desistir agora do meu sonho de me tornar mãe.
Não demora. Minha secretária entra com as pastas organizadas, como sempre, tudo impecável.
- Seus próximos atendimentos, doutora.
Assinto, já estendendo a mão.
- Obrigada.
E então eu mergulho.
Porque, quando entro naquele consultório... eu deixo de ser Helena, a mulher cheia de cicatrizes, e me torno o que sempre fui destinada a ser. Psicóloga infantil. Não foi uma escolha.
Foi algo que nasceu em mim.
Algo que me encontrou antes mesmo de eu entender o porquê.
Nunca me vi fazendo outra coisa.
Nunca quis. Porque ali... eu consigo enxergar além.
Além do silêncio. Além dos desenhos. Além das birras.
Eu enxergo dores que ninguém vê.
Medos que não são ditos.
Mundos inteiros que aquelas crianças criam para sobreviver.
E, pouco a pouco... eu entro neles.
Sem invadir, sem quebrar. Só guiando. Direcionando.
Mostrando que elas não estão sozinhas. E quando um olhar muda... Quando um sorriso aparece... Quando uma evolução acontece... Eu sei.
Eu estou exatamente onde deveria estar.
Já finalizei o segundo atendimento quando tenho um pequeno intervalo.
Me levanto devagar e caminho até a janela.
Cruzo os braços. E fico olhando lá embaixo. O trânsito. Os carros.
As pessoas. Tudo em movimento.
Tudo apressado.
Rostos tensos.
Cansados.
Irritados.
Alguns... completamente vazios.
Poucos... Muito poucos... com alguma leveza no olhar.
Solto um suspiro baixo.
- Como a vida pesa... Muita gente vive...mas não sente.
Corre...mas não sabe pra onde.
E, talvez por isso... eu tenha aprendido a valorizar cada detalhe.
Cada momento.
Cada escolha.
Porque a vida não espera.
Ela arranca, muda, quebra.
E, ainda assim... a gente precisa continuar.
Levo a mão ao vidro frio da janela.
E meus pensamentos mudam.
Se concentram, fixam. Em um sonho. Um que nunca morreu.
- Ter uma filha...
Minha voz sai quase em um sussurro. Não é só sobre ser mãe.
Nunca foi. É sobre amar, ensinar, proteger, mostrar o mundo... e, ao mesmo tempo, ser abrigo dele.
É sobre olhar nos olhos de alguém e dizer, sem palavras: Você é tudo.
E fazer essa pessoa sentir isso.
Todos os dias, sem falhar.
E, inevitavelmente... Eu penso nela.
Luna.
O sorriso. O brilho nos olhos.
A forma como ela se abre... mesmo depois de tudo.
Meu maxilar se contrai.
- Como alguém pode rejeitar isso?
Minha expressão endurece.
A dor vira raiva.
- Dante Ferraz...
O nome sai carregado.
Pesado.
Quase como um desafio.
- Você não faz ideia do que está jogando fora.
Fecho os olhos por um segundo.
Respiro fundo.
Tentando manter o controle. Mas não recuo.
- Só espero que você não atrapalhe...
Minha respiração desacelera.
Mas por dentro...Tudo se fortalece.
Se arma.
Abro os olhos.
E agora não há dúvida.
- Porque, se atrapalhar...
Um sorriso sem humor surge nos meus lábios.
Frio.
- Eu vou até o seu império... E vou te mostrar... exatamente com quem você está lidando.
Fecho os olhos com força.
E, quando abro de novo... Não sou só uma mulher com um sonho.
Sou alguém pronta para lutar por ela. Até o fim.
Volto à realidade com o toque do meu celular.
Alto.
Franzo a testa ao ver um número desconhecido, mas atendo na mesma hora.
- Bom dia, gostaria de falar com a senhora Helena Duarte?
Minha postura se ajeita automaticamente.
- Bom dia, sou eu. Quem está falando?
Há um breve silêncio do outro lado, como se a pessoa buscasse as palavras certas.
- A senhora não me conhece... mas a senhora Tereza pediu para avisar que a pequena Luna... passou mal e foi levada para o Hospital São Lucas.
O mundo para.
- O quê? - minha voz falha por um segundo. - Mas... faz tempo? O que aconteceu?
- Não, foi agora há pouco. Ela só pediu para avisar a senhora.
Meu coração dispara.
- Certo... obrigada. Eu estou indo pra lá.
Desligo sem esperar mais nada.
Minhas mãos já estão tremendo.
Pego minhas coisas quase no automático, a bolsa, o celular... tudo parece fora do lugar, mesmo estando onde sempre esteve.
Abro a porta com pressa e quase trombo com minha secretária entrando.
- Doutora, seus próximos- não a deixo falar.
- Remarca tudo. - corto, direta, sem fôlego. - É urgente. Preciso sair agora.
Não espero resposta.
Saio praticamente correndo.
Assim que entro no carro, sinto.
O medo.
Ele chega de uma vez. Cruel.
Meu coração bate tão forte que parece ecoar dentro do peito.
- Calma... calma...
Mas minha mente não acompanha.
E se for grave?
E se aconteceu algo sério?
- Droga... eu devia ter perguntado mais...
Aperto o volante com força.
Não.
Eu não posso travar agora.
- Vai dar tudo certo...
Repito em voz baixa.
Como um mantra.
- Vai dar tudo certo.
Ligo o carro e sigo.
O caminho até o hospital passa em um borrão. Só urgência.
Estaciono de qualquer jeito e praticamente corro até a recepção.
- Boa tarde - digo, tentando controlar a respiração. - A criança... Luna... ela veio de um abrigo...
A atendente digita rapidamente.
- Sim, já foi atendida. Vou avisar a responsável que a senhora está aqui.
Assinto, mas não consigo ficar parada. Começo a andar de um lado para o outro.
Os segundos se arrastam. O peito aperta. A mente não para.
Até que sou desperta com a voz da senhora Tereza.
- Helena?
Me viro imediatamente.
- Senhora Tereza!
Me aproximo rápido.
- Como ela está? É grave?
Ela levanta as mãos, tentando me acalmar.
- Calma, calma... eu só pedi para te avisarem porque imaginei que você iria visitá-la hoje. Não queria que se preocupasse sem saber.
Minha respiração falha.
- E ela?
- Está melhor - responde com suavidade. - Foi só uma infecção. Coisa de criança. Já está sendo medicada.
Fecho os olhos por um segundo.
O alívio vem forte.
- Graças a Deus...
Levo a mão ao peito, sentindo o coração desacelerar.
- Posso vê-la?
Um pequeno sorriso surge nos lábios dela.
- Claro que pode. Ela vai adorar ter uma visita.
Sigo na direção indicada. E, quando entro no quarto... Meu coração aperta de novo.
Mas por outro motivo. Luna está deitada. Pequena. Quietinha.
Segurando um ursinho com força, como se fosse seu porto seguro.
Me aproximo devagar. Ela me olha.
E, mesmo abatida... Sorri. E isso...
Isso me quebra por dentro.
- Ei, pequena... - minha voz sai suave. - Como você está, hum? Ainda dodói?
Ela faz um biquinho e aponta para a barriguinha.
- Aqui...
Levo a mão até onde ela indicou, com cuidado.
- Oh, meu amor... - sussurro. - Isso já vai passar, tá bom? Você só precisa tomar o remedinho direitinho... e logo vai sair daqui.
Ela me olha com aqueles olhos cansadinhos.
- Tô com sono...
Meu coração derrete. Sento ao lado dela na cama.
- Então fecha esses olhinhos... - digo baixinho, fazendo carinho em seus cabelos. - Eu vou ficar aqui com você.
Ela não demora. Os olhinhos vão se fechando devagar.
A respiração ficando leve. Até que adormece. E eu continuo ali.
Fazendo carinho.
Como se aquele gesto fosse proteger ela de tudo.
Fico ali zelando pelo seu sono, continuo o carinho em seus cabelos e sou desperta com a chegada da senhora Tereza.
- Ela gosta de você, Helena...
A voz da senhora Tereza me desperta. Olho para ela, ainda acariciando os cabelos da Luna.
- E eu dela... - respondo, sem hesitar.
Sem medo.
- Ela vai demorar para ter alta?
- Não - ela diz. - Assim que terminar a medicação, já pode voltar para o abrigo.
Meu peito aperta de novo.
- Eu queria poder cuidar dela... levar ela pra casa...
As palavras escapam antes mesmo que eu pense.
Mas não me arrependo. Nem por um segundo.
A senhora Tereza me observa com atenção. E então... sorri.
- Não se preocupe com isso.
Franzo a testa.
- Como assim?
- Hoje mesmo eu solicitei uma autorização... - ela diz calmamente. - para que a Luna possa passar o final de semana com você.
Meu coração falha uma batida.
- O quê?
- Só estamos aguardando a liberação do juiz. Será algo temporário, um final de semana para iniciar uma adaptaçãol.
Levo a mão à boca, surpresa.
Emocionada.
- Sério?
Ela assente. E eu sinto os olhos marejarem.
- Muito obrigada... - minha voz sai baixa, carregada de sentimento. - Eu vou cuidar dela... nem que seja por pouco tempo...
Olho para a pequena dormindo.
E, naquele instante...Eu sei.
Isso não é mais só um desejo.
É um vínculo. É algo que já criou raiz. E eu não vou deixar ninguém...
Arrancar isso de mim.
Permaneço ali, ao lado da Luna, observando cada detalhe como se, de alguma forma, isso pudesse garantir que ela realmente está bem. Até que a enfermeira entra.
- Vamos retirar o acesso, tá bom, princesa?
Luna faz uma careta pequena, mas não reclama. Só aperta mais o ursinho contra o peito.
Seguro a mãozinha dela.
- Já vai acabar... você foi muito corajosa.
Ela me olha... e mesmo cansada, sorri de leve.
Meu coração aperta.
Logo depois, o médico entra com a prancheta em mãos.
- A pequena já está liberada - ele diz, profissional, mas gentil. - Foi uma infecção simples. A medicação já está fazendo efeito, mas se ela voltar a apresentar dor ou febre, tragam imediatamente ao hospital.
Assinto, atenta a cada palavra.
- Pode deixar. Vamos ficar de olho.
Ele entrega a alta, se despede e sai.
E, naquele instante... Eu sinto o peso sair dos meus ombros.
Luna se mexe na cama.
Ainda com os olhos sonolentos.
Me inclino um pouco mais perto.
- Ei, pequena... preparada pra sair daqui?
Ela pisca algumas vezes, como se estivesse processando.
E então, com a vozinha baixa:
- Sim...
O sorriso que ela dá é pequeno... Mas ilumina tudo.
- Então vamos - digo, animando o tom. - Eu levo vocês.
A senhora Tereza me olha, surpresa por um segundo, mas logo assente.
Luna se anima um pouco mais.
- Vamos passear?
Troco um olhar rápido com a senhora Tereza, que confirma com um leve aceno.
Sorrio para a pequena.
- Em breve, tá bom? Mas pra isso você precisa ficar bem forte.
Ela levanta o dedinho, como quem promete.
- Eu vou!
- Eu sei que vai.
A pego com cuidado nos braços.
Ela se aconchega imediatamente.
A cabecinha no meu ombro. O ursinho preso entre nós.
E aquilo... encaixa de um jeito perigoso.
Como se fosse o lugar certo.
Saímos do hospital assim.
E, pela primeira vez desde que recebi aquela ligação... Eu respiro de verdade.
No carro, a senhora Tereza se acomoda atrás com a Luna.
Coloco uma música infantil baixa.
Suave.
A pequena observa tudo, quietinha, mais desperta.
E, de vez em quando... sorri.
O caminho até o abrigo passa tranquilo.
Quando chegamos, levo Luna direto para o quartinho.
Arrumo a caminha. A deito com cuidado. Ela ainda segura o ursinho.
Os olhinhos já pesando.
- Dorme, pequena... - sussurro, fazendo carinho em seus cabelos.
Não demora. O efeito do remédio vence. E ela adormece profundamente.
Fico ali mais alguns segundos.
Observando. Guardando aquele momento. Como se fosse meu.
Saio do quarto em silêncio e sigo até a sala da senhora Tereza.
- Ela acabou de dormir - aviso.
- Era esperado - ela responde com um sorriso leve.
Respiro fundo.
- Amanhã... eu posso vir buscá-la?
Ela pega alguns papéis sobre a mesa, confere algo e então me encara.
- Pode, sim.
Meu coração acelera.
- Acabei de receber a autorização - ela continua. - Será um período de experiência. Você pode levá-la amanhã e ela deve retornar no domingo à tarde.
Levo a mão ao peito, emocionada.
- Sério...?
- Sim. Agora precisamos que o processo siga o curso.
Assinto, tentando conter a ansiedade.
Mas uma dúvida me atravessa.
- E... o Dante Ferraz? Isso pode dar problema?
Ela nega com tranquilidade.
- Não. Nesse momento, não. É apenas uma experiência. Estamos aguardando a documentação formal, mas você não precisa se preocupar com isso agora.
Solto o ar, aliviada.
- Entendi...
Dou um pequeno sorriso.
- Muito obrigada... de verdade.
- Prepare-se - ela diz, com um olhar significativo. - Isso muda tudo.
E eu sei. Eu sinto.
- Amanhã eu venho buscá-la.
- Estaremos esperando.
- E qualquer coisa... pode me ligar.
- Pode deixar.
Saio da sala com o coração acelerado.
Mas, dessa vez... Não é medo.
É expectativa.
Caminho pelo abrigo já imaginando. Os detalhes. Os sorrisos. A rotina. Minha casa... com ela.
Fecho os olhos por um segundo.
E um sorriso verdadeiro surge.
- Só mais uma noite, porque amanhã tudo começa a mudar...
Mais um capítulo liberado!!!!
