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Entre a culpa e o Amor

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Milla Almeida
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Resumo

Ele perdeu tudo em uma única madrugada... Dante Ferraz construiu sua vida sobre controle, poder e frieza... porque sentir se tornou um risco alto demais. Viúvo, amargurado e consumido pela culpa, ele transformou a dor em uma armadura e jurou nunca mais permitir que alguém chegasse perto o suficiente para destruí-lo outra vez. Ela nunca desistiu de amar. Helena Duarte teve seu mundo despedaçado de outra forma: não pela morte... mas pela rejeição. Incapaz de engravidar, foi abandonada pelo homem que amava como se seu valor estivesse apenas na maternidade que não podia oferecer. Ainda assim, ela escolheu recomeçar. Sozinha. Forte. Determinada. E então... existe Luna. Uma criança esquecida pelo mundo... e rejeitada pelo único homem que deveria protegê-la. Quando Helena cruza o caminho de Dante, o choque é inevitável. Ele vê nela uma ameaça. Ela vê nele tudo o que uma criança jamais deveria enfrentar. Mas o destino não pede permissão. Entre confrontos, feridas abertas e verdades que machucam... algo começa a mudar. Porque, às vezes, o amor não nasce da perfeição. Nasce do caos. Da dor. Das escolhas mais difíceis. E quando dois corações quebrados se encontram... Eles podem se destruir de vez. Ou descobrir que recomeçar... também é uma forma de amar.

romanceAmor que cresce com o tempoCasamento arranjadoSangue quente / Cheio de energiaEvolução / Progresso de poder

Capítulo 1 Helena Duarte

A chuva caía fina, quase silenciosa... como se o mundo estivesse prendendo a respiração junto comigo.

Estacionei o carro em frente ao portão do abrigo desligou o motor, mas não tive coragem de sair de imediato.

Meus dedos permaneciam presos ao volante, rígidos, como se soltar significasse atravessar um ponto sem volta. E talvez fosse.

Fechei meus os olhos por um segundo.

Meses de espera, entrevistas, perguntas invasivas, avaliações que pareciam medir cada pedaço da minha alma... Como se precisasse provar, o tempo todo, que era suficiente para amar.

Suficiente para cuidar.

Suficiente para ser mãe... mesmo sem poder gerar. Meu peito apertou.

Hoje não era só mais um dia.

O dia em que eu conheceria a criança que poderia chamar de filha. Parece até surreal falar assim:

Filha.

A palavra ecoou dentro de mim, carregada de tudo que já foi negado... e de tudo que ainda insistia em construir. Passei a mão pelo rosto, sentindo a pele fria.

Medo.

Ansiedade.

Esperança.

Tudo misturado de um jeito quase insuportável.

— Vai dar certo... — sussurrou, mais como um pedido do que como uma certeza.

Infelizmente vem a voz do Felipe falando: Você é uma mulher incompleta, nunca poderá ser uma mulher por completa....

Jogo esses pensamentos

Preciso acreditar nisso.

Mesmo depois de tudo. Vou mostrar que sou uma mulher completa e que ele estava errado, sempre esteve.

Engoli o nó na garganta, pego minha bolsa e saio do carro.

A chuva tocou minha pele como um choque leve, trazendo-me de volta ao presente enquanto caminho até o portão de ferro.

Cada passo parecia mais pesado que

quando levantei a mão para tocar a campainha, o som brusco de um carro freando cortou o silêncio me assustando me viro.

Um carro preto parou quase atravessado na rua, como se tivesse chegado ali com urgência ou fúria.

A porta se abriu com força e então um homem saiu.

Não sabia explicar o que senti naquele instante. Mas algo dentro de mim... se retraiu forte.

O homem parecia carregar uma tempestade inteira nos ombros.

Alto. Postura rígida. Movimentos precisos, duros.

Cada passo dele não era apenas firme... Era pesado assim como a tempestade.

Como se estivesse pisando sobre algo que nunca deixou para trás.

E então vi seus olhos. Escuros,

profundos e frios como a tempestade. E cheios de algo que não reconheceu antes mesmo de entender.

Dor. Mas não uma dor qualquer.

Era uma dor transformada em raiva.

Ele não me olhou.

Passou direto, como se nada ao redor importasse, e parou diante do portão como se aquele lugar fosse um inimigo.

Prendi a respiração sem perceber.

A diretora surgiu do outro lado da grade.

— Senhor Ferraz, eu já expliquei que — antes que ela terminasse ele a interrompeu

— Explique de novo.— A voz dele...

Baixa.

Controlada.

Mas carregada de algo perigoso.

Franzi levemente a testa.

Ferraz.

O nome soou familiar... mas foi rapidamente engolido pelo que veio em seguida.

Ele se aproximou da grade, os dedos fechando com força no ferro.

— Eu quero saber por que continuam me ligando para falar sobre aquela criança.

Aquela criança.

Não uma criança.

Como se fosse um problema.

Senti algo se contrair dentro do peito.

A diretora suspirou, cansada.

— Porque ela não tem ninguém, senhor Ferraz. E o senhor é o único familiar vivo.

O silêncio que veio depois... pesou.

Pesou como se o ar tivesse ficado denso demais para ser respirado.

— Eu já deixei claro — ele disse, cada palavra sendo medida — que não quero nada que tenha a ver com essa criança.

Aquilo me atingiu como um golpe.

Por um segundo, tudo em mim reagiu.

Não com raiva.

Mas com algo mais profundo.

Algo que eu conhecia bem demais.

Rejeição.

Olhei para ele de verdade pela primeira vez.

E foi então que viu.

Não apenas a frieza.

Mas o que estava por trás dela.

Um abismo.

— Ela é sua sobrinha — insistiu a diretora.

— Não.

A resposta veio imediata.

Sem emoção.

— Ela é o erro de uma tragédia que eu já enterrei.

O meu estômago revirou.

Erro.

A palavra ecoou em minha mente como uma lembrança que nunca cicatrizou.

Por um segundo... não estava mais ali.

Estava de volta ao passado.

Àquela sala.

Àquela voz.

"Eu quero uma família completa."

O ar faltou. E antes que pudesse se controlar...

— Crianças não são erros.

As palavras saíram. Firmes.

Carregadas de algo que nem tentou esconder.

Ele virou o rosto lentamente. E então... me olhou.

O impacto foi imediato.

Os olhos dele a prenderam no lugar.

Escuros. Intensos. Vivos de um jeito perigoso.

Senti o meu coração acelerar, mas não recuou.

A chuva caía entre nós, como uma barreira invisível... e ainda assim insuficiente.

— Você trabalha aqui? — ele perguntou, me analisando.

Ergue o queixo para responder.

— Não.

— Então não se meta.

Seco, direto, como um corte.

— Eu não estou me metendo — disse, firme. — Só não acho justo ouvir alguém falar de uma criança como se ela fosse um problema.

Os olhos dele escureceram ainda mais.

— Você não faz ideia do que está dizendo.

Talvez não. Mas sabia o que era ser tratada como insuficiente.

— Talvez não — responde. — Mas sei que nenhuma criança merece ser rejeitada antes mesmo de ser conhecida.

Algo mudou no olhar dele. Rápido.

Quase imperceptível.

Raiva ou algo mais profundo.

Ele deu um passo na minha direção.

A presença dele, a força, o peso.

Mas não recuei.

— Você gosta de se envolver em problemas que não são seus? — ele perguntou.

Sustentei o meu olhar.

Respiro fundo.

— Não. Eu gosto de lutar pelo que importa.

O silêncio entre nós se tornou quase palpável.

Carregado, denso. Então ele soltou uma risada breve.

Fria.

Sem vida.

— Boa sorte com isso.

Ele se virou.

Mas antes de entrar no carro, disse sem olhar para trás:

— A vida tem um talento especial para destruir pessoas que acreditam demais em finais felizes.

Fiquei ali parada. Observando o carro desaparecer na chuva.

O coração batia rápido demais.

Mas não era medo.

Era outra coisa. Algo que eu ainda não sabia nomear. Não sabia quem ele era. Não sabia sua história.

Mas sabia reconhecer dor quando via uma.

E aquele homem... Não estava apenas ferido. Ele estava destruído.

Fecho os meus olhos por um instante.

Respirei fundo.

E então olhou novamente para o portão à minha frente.

Era ali. O meu recomeço.

Mas, por algum motivo que eu ainda não entendia...tinha a sensação de que aquele homem fazia parte dele.

Eu ainda estava parada sob a marquise do abrigo quando o portão finalmente se abriu.

Só então percebi o quanto estava imóvel. Como se meu corpo tivesse chegado ali... mas o resto de mim ainda estivesse preso do lado de fora.

No olhar dele.

Nas palavras dele.

Naquela dor crua que parecia ter atravessado o ar e encontrado um lugar dentro de mim.

— Entre, Helena... — a diretora disse, com um sorriso gentil... cansado demais. E entrei.

Mas a verdade é que só o meu corpo atravessou aquele portão. Minha mente estava lá fora.

— Quem era ele? — perguntei, antes mesmo de conseguir pensar melhor.

A diretora fechou o portão atrás de nós com um suspiro pesado.

— Dante Ferraz.

O nome ecoou dentro de mim.

Dante Ferraz.

— O Empresário?

— O próprio.

Franzi a testa, tentando encaixar o nome ao homem que eu tinha acabado de enfrentar... e, de alguma forma, sentido.

Ela começou a caminhar, fazendo um gesto para que eu a acompanhasse.

Eu fui.

— Ele perdeu a esposa e a filha no parto há alguns anos.

Eu parei.

Simples assim. Como se meus pés tivessem decidido não dar mais um passo. A informação não veio devagar. Ela caiu. Pesada. E, de repente... tudo fez sentido.

A frieza.

O jeito como ele falava... como se a maternidade fosse algo a ser rejeitado.

Não era ódio. Era dor.

Uma dor que ficou tanto tempo guardada... que apodreceu por dentro.

Engoli em seco. Meu peito apertou com força.

— E a criança? — perguntei, mais baixo dessa vez.

Como se já soubesse que a resposta também machucaria. Ela hesitou.

E aquele pequeno silêncio disse mais do que qualquer palavra.

— É sobrinha dele.

Não respondi.

Mas senti.

Senti algo dentro de mim se contrair.

— A mãe da menina morreu há alguns meses — ela continuou. — Dante é o único parente que restou... mas ele se recusa a assumir qualquer responsabilidade.

Aquilo me atingiu. De um jeito que eu não estava preparada.

Vi o rosto dele outra vez na minha mente.

O olhar duro.

E aquela frase... Ela é o erro de uma tragédia.

Meu estômago revirou.

Porque, de alguma forma, eu conhecia aquilo.

Não daquela forma.

Mas conhecia o suficiente para reconhecer. Rejeição.

Respirei fundo.

Tentando organizar tudo que estava sentindo.

Tentando não deixar aquilo invadir um momento que deveria ser meu.

— Posso conhecer a criança? — perguntei.

Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia.

Ela sorriu.

E dessa vez havia algo mais leve no olhar dela.

— É exatamente por isso que você veio hoje.

Assenti.

Mas, no fundo... Parecia mais do que isso.

Parecia que eu tinha sido levada até ali por algo maior.

Seguimos pelo corredor.

O som dos nossos passos ecoava baixo, misturado com vozes distantes de crianças... e aquele cheiro de lugar que tenta ser lar, mesmo sem conseguir ser completamente. Meu coração apertava a cada passo.

Ansiedade, medo e esperança.

Uma esperança tão grande... que chegava a doer.

Quando paramos diante de uma sala iluminada por uma grande janela, a diretora abriu a porta.

Eu entrei.

E o mundo... desacelerou. Havia cores, brinquedos, desenhos nas paredes. Mas nada disso ficou.

Porque meus olhos encontraram apenas uma coisa.

Ela.

Uma menina pequena, sentada no chão, sozinha. Devia ter uns quatro anos. Os cabelos escuros presos em dois coques tortos.

Um ursinho gasto apertado contra o corpo... como se fosse tudo que ela tinha. Ela montava um quebra-cabeça.

Concentrada.

Meu coração apertou de um jeito quase insuportável.

— Luna... — chamou a diretora, com suavidade.

A menina levantou o rosto.

E então... me viu.

Nossos olhares se encontraram.

E algo aconteceu. Como se, naquele instante, duas partes quebradas se reconhecessem sem precisar de explicação.

Senti meus olhos arderem.

Ela se levantou devagar.

Veio até mim com passos pequenos, cautelosos. Parou bem na minha frente.

Me observando.

Como se estivesse tentando entender quem eu era... e se eu valia a pena.

Me abaixei, ficando na altura dela.

Meu coração batia forte demais.

— Oi... — falei, com cuidado.

Com carinho, como se qualquer palavra errada pudesse afastá-la.

Ela inclinou a cabeça.

E então perguntou:

— Você vai embora também?

O mundo parou.

Demorei um segundo para entender. E quando entendi...

Doeu.

— Por que você acha isso? — perguntei, minha voz mais baixa.

Ela deu de ombros.

Como se já tivesse aceitado aquilo.

— Todo mundo vai.

Algo dentro de mim quebrou.

Silenciosamente.

Estendi a mão devagar com cuidado. Como se estivesse oferecendo mais do que um gesto.

— Eu ainda não fui.

Ela olhou para minha mão.

Ficou ali por alguns segundos.

Decidindo e então... Segurou.

Foi simples. Mas, para mim...

Foi tudo. Meu peito se encheu de algo quente.

Forte. Quase assustador.

— Você gosta de desenhar? — perguntei, tentando manter minha voz firme.

Ela assentiu.

— Gosto de desenhar casa.

A palavra bateu diferente dentro de mim.

— Casa?

— Uhum.

Ela pegou um papel e me mostrou.

Uma casa torta.

Simples.

Três bonecos de palito.

E um sol grande demais no canto.

Sorri... mesmo com os olhos marejados.

— Quem são eles?

Ela apontou.

—Eu.

Depois outro.

— Minha mamãe.

Engoli em seco.

Meu coração apertando mais uma vez.

— E esse?

Ela ficou em silêncio.

Os dedinhos apertaram o papel.

E então disse, baixinho:

— Eu não sei.

As lágrimas escaparam.

Sem pedir permissão.

Sem que eu conseguisse impedir.

— Ela sempre desenha esse terceiro boneco... — disse a diretora, suavemente. — Mas nunca sabe quem é.

Respirei fundo.

Mas não adiantou. Porque Luna ainda olhava para mim.

Esperando.

— Você sabe desenhar casa? — ela perguntou.

Eu sorri entre as lágrimas.

Um sorriso verdadeiro.

— Sei um pouco.

Ela puxou uma cadeira.

Simples. Como se já tivesse decidido algo.

— Então senta aqui.

E eu sentei.

E, pela primeira vez em muito tempo... Eu senti, não a dor, não o vazio. Mas algo que achei que tinha perdido para sempre.

Esperança.

Lá fora, a chuva diminuía. Mas dentro de mim... Algo começava a nascer.

E em algum lugar da cidade... Dante Ferraz ainda dirigia sem rumo.

Sem saber... Que naquele exato momento... Eu estava entrando na vida da única criança que ele se recusava a reconhecer.

E que muito em breve... Eu pisaria no mundo dele. E destruiria todas as certezas que ele levou anos para construir.