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Capítulo 3 Helena Duarte

Sentar ao lado da Luna foi… inesperadamente leve.

Simples. Mas de um jeito que fazia o peito aquecer.

— Você segura assim — ela disse, colocando o lápis na minha mão com toda a seriedade do mundo. — Senão a casa fica torta.

Sorri, obedecendo.

— Ah, então você é a especialista aqui?

Ela assentiu, orgulhosa.

— Sou.

A concentração dela era quase comovente. A língua presa no canto da boca, os olhinhos atentos, como se aquele desenho fosse a coisa mais importante do mundo.

E talvez fosse.

Porque, para uma criança… aquilo não é só um desenho.

É refúgio.

É linguagem.

É um jeito de falar o que ainda não sabe explicar.

— Olha — ela disse, me mostrando o papel. — Essa é a casa.

Uma casa simples.

Torta.

Mas cheia de cor.

— E quem mora nela? — perguntei, com cuidado.

Ela apontou.

— Eu.

Depois hesitou antes de tocar outro bonequinho.

— Minha mamãe.

Meu coração apertou.

Mas foi o terceiro desenho que me fez prender a respiração.

Ela ficou olhando para ele por alguns segundos.

Em silêncio.

— E esse? — perguntei, suave.

Luna deu de ombros, os olhos ainda no papel.

— Eu não sei.

O mundo dela tem um espaço vazio.

E todos desenhos ela faz o mesmo três pessoas.

Um lugar esperando alguém que nunca chegou. Ou pior… Que foi embora.

Engoli em seco.

— Quer que eu desenhe com você?

Ela levantou o rosto imediatamente.

Os olhos brilhando.

— Sim!

Puxou o papel na minha direção, animada.

— Faz uma casa bem bonita!

— Desafio aceito — murmurei, sorrindo.

Desenhei devagar, sentindo o olhar dela em cada movimento.

E quando terminei…

— Uau…

A reação dela foi tão sincera… tão cheia de encanto… que algo dentro de mim se desfez.

— Ficou linda! — ela disse, batendo palminhas pequenas.

Ri baixo.

— Ficou, né?

Ela assentiu com força, depois olhou para mim de um jeito diferente.

E naquele instante eu entendi.

Não era só sobre desenhar.

Era sobre ser vista, ouvida, escolhida.

E Deus… como aquilo doía.

Porque como alguém pode olhar para uma criança assim… E simplesmente virar as costas?

Como alguém pode rejeitar um coração tão puro?

O pensamento me atravessa como uma lâmina.

Dante Ferraz.

Fecho os olhos por um segundo, controlando a revolta que cresce dentro de mim.

Não. Isso não vai ficar assim.

Depois do lanche, ainda brinco mais um pouco com ela.

Cada risada.

Cada palavra.

Cada gesto pequeno… Vai se enraizando em mim de um jeito perigoso.

— Você vai voltar? — ela pergunta de repente, segurando a barra da minha blusa.

O mundo para olho para ela.

E vejo.

Medo.

Aquele medo silencioso de quem já aprendeu que as pessoas vão embora. Me abaixo, ficando na altura dela.

Seguro seu rostinho com cuidado.

— Vou, sim.

Ela me encara, desconfiada.

— Promete?

Sem hesitar.

— Prometo.

Ela relaxa e sorri.

E naquele momento… Eu sei.

Não tem mais volta.

Saio da sala com o coração pesado… mas decidido.

Procuro a senhora Tereza imediatamente.

Ela está na sala dela, organizando alguns papéis.

Bato na porta.

— Posso entrar?

— Claro, querida — ela responde, levantando o olhar.

Fecho a porta atrás de mim.

Sem rodeios.

— Eu preciso saber tudo sobre a Luna.

Ela me observa por alguns segundos.

Como se já soubesse.

— Helena…

Dou um passo à frente.

— Não — interrompo, firme. — Eu não vou recuar.

Minha voz sai mais forte do que eu esperava.

— Eu sei o que estou fazendo.

— Isso não é simples — ela alerta.

— Eu sei.

— Vai ser uma briga difícil.

— Eu sei.

— E envolve o Dante Ferraz.

Sustento o olhar dela.

Sem medo.

— Eu também sei disso.

O silêncio se instala.

Mas não há dúvida em mim.

Não mais.

— Então me diga tudo — insisto, mais baixa agora, mas ainda firme. — Porque, a partir do momento que eu der o primeiro passo…

Respiro fundo.

Sentindo o peso da decisão.

— Não vai existir ninguém capaz de me afastar daquela menina.

Pausa.

— Nem mesmo o Dante Ferraz.

E, naquele instante… Eu sei.

A guerra começou.

A senhora Tereza respira fundo antes de começar. Como se cada palavra tivesse peso. Como se contar aquela história… doesse nela também.

— A Luna chegou aqui há dois meses — ela diz, apoiando as mãos sobre a mesa. — A mãe dela faleceu.

Sinto o peito apertar.

— Como?

Ela hesita por um instante.

— Complicações… em um acidente, mas no laudo não entrou em muitos detalhes. Foi rápido.

Fecho os olhos por um segundo.

Como se isso tornasse mais fácil.

— E o pai?

Ela nega com a cabeça.

— Não há registro. Nenhuma informação. É como se ele nunca tivesse existido.

Engulo em seco.

Então…

— Ou seja, ela ficou completamente sozinha.

— Sim.

O silêncio que se segue é pesado.

Quase sufocante.

— E o Dante Ferraz? — pergunto, já sentindo a tensão crescer dentro de mim.

A expressão da senhora Tereza muda, cansada, frustrada.

— Ele é o único parente vivo.

Meu maxilar se contrai.

— E mesmo assim…

— Mesmo assim — ela interrompe, firme — ele nunca veio aqui.

A confirmação me atinge como um soco.

— Nunca?

— Nunca.

Minha respiração pesa.

— Nós entramos em contato diversas vezes. Ligamos, enviamos documentos, notificações…

Ela faz uma pausa, como se ainda não acreditasse.

— E tudo o que recebemos foi recusa.

Raiva começa a subir.

— Ele deixou claro que não quer nenhum tipo de responsabilidade sobre a menina.

Fecho as mãos em punho.

— Como alguém consegue ser assim?

A senhora Tereza me encara com cuidado.

— Ele não era assim.

Franzo a testa.

— Não?

Ela suspira.

E por um momento… parece escolher o quanto vai me contar.

— Depois que perdeu a esposa…

Sua voz enfraquece. — E a filha.

Sinto o ar falhar por um segundo.

— Filha?

— A esposa dele estava grávida. A criança morreu no parto… junto com ela.

Agora… tudo faz sentido.

A frieza.

A raiva.

As palavras cruéis.

Mas ainda assim…

— Isso não justifica.

Minha voz sai mais baixa.

— Não justifica virar as costas para uma criança.

Ela não responde de imediato.

E esse silêncio… diz tudo.

Dou alguns passos pela sala, tentando organizar os pensamentos.

Mas eles não se organizam, mas se confrontam.

— Ele sempre foi assim… ou se tornou isso depois da perda? — pergunto, mais para mim mesma do que para ela.

— Eu não sei — ela admite. — Mas a dor muda as pessoas, Helena.

E a encaro.

— Ou revela quem elas realmente são.

O silêncio volta.

Mais pesado agora.

Respiro fundo.

Tomando minha decisão.

— Eu vou falar com ele.

A senhora Tereza franze a testa.

— Helena…

— Eu preciso — interrompo, firme. — Ele não pode simplesmente ignorar a existência dela.

Meu olhar endurece.

— E se ele continuar negando…

Pausa.

Sinto o peso do que estou prestes a dizer. Mas não recuo.

— Eu volto.

Ela me observa, atenta.

— E entro com o processo de guarda da Luna.

O nome dela sai como uma promessa.

Não como uma possibilidade.

A senhora Tereza solta o ar devagar.

— Você tem certeza disso?

Sustento o olhar dela.

Sem hesitar.

— Nunca tive tanta.

Saio do abrigo com um propósito e não pretendo voltar a trás.

O caminho até em casa passa em um borrão.

Minha mente não para.

O olhar da Luna.

A pergunta dela.

Você vai embora também?

Aperto o volante com força.

— Não… — murmuro para mim mesma. — Eu não vou.

Assim que chego, não perco tempo.

Pego o celular e ligo para o meu advogado.

— Helena? — ele atende, surpreso. — Aconteceu alguma coisa?

— Sim. E eu preciso da sua ajuda.

Caminho pela sala, ainda agitada.

— É sobre uma criança.

Silêncio do outro lado.

— Explica melhor.

Respiro fundo.

E conto tudo.

Cada decisão que já está formada dentro de mim.

Quando termino…

— Então deixa eu ver se entendi — ele diz, mais sério agora. — A menina não tem pai registrado… a mãe faleceu… e o único parente legal é o tio, que está se recusando a assumir qualquer responsabilidade?

— Exatamente.

— Ele chegou a entrar com algum pedido? Guarda, tutela, qualquer coisa?

— Não. Nada.

Outro silêncio.

— Helena… — a voz dele muda, firme — se isso se confirmar formalmente…

Meu coração acelera.

— As suas chances são altas.

Seguro a respiração.

— Altas quanto?

— Muito altas.

Fecho os olhos por um segundo.

Sentindo algo crescer dentro de mim.

Esperança.

— Mas tem uma condição — ele continua. — O tio precisa manter essa posição. Se ele decidir intervir… tudo muda.

Abro os olhos.

E a imagem de Dante surge na minha mente.

Frio.

— Ele não vai mudar — digo, mais para mim do que para ele.

Minha voz endurece.

— E se mudar… vai ser tarde demais.

Silêncio.

— Então você quer mesmo fazer isso? — ele pergunta.

Olho para o vazio.

Mas, na verdade… Eu estou vendo uma menina de olhos grandes… segurando um ursinho gasto.

Esperando.

Sempre esperando.

— Não — respondo, firme.

Pausa.

— Eu não quero.

Respiro fundo.

— Eu vou fazer.

E dessa vez… Não existe volta.

Depois que desligo com meu advogado… o silêncio da casa parece diferente.

Mais pesado.

Como se algo tivesse sido colocado em movimento… e agora não pudesse mais ser parado.

Caminho até a cozinha quase no automático.

Abro armários.

Pego ingredientes.

Começo a preparar o jantar.

Mas minha mente não está ali.

Ela está em outro lugar.

Em outra pessoa.

— Você gosta de desenhar casa…

A voz da Luna ecoa na minha cabeça.

Dou um leve sorriso, sem perceber.

E então… me pego imaginando.

Ela sentada à mesa.

Os pezinhos balançando na cadeira.

Os lápis espalhados pela sala.

Uma risada pequena preenchendo o vazio que sempre existiu aqui.

Minha mão para no meio do movimento.

O peito aperta.

— Luna… — sussurro, quase sem voz.

Fecho os olhos por um instante.

E quando abro…

A decisão já está ali.

Firme.

Inquebrável.

Eu preciso ir até Dante Ferraz.

Preciso olhar nos olhos dele, preciso ouvir da boca dele que aquela menina não significa nada.

Porque, no momento em que eu der entrada nesse processo… Não vai existir volta.

E, principalmente… Eu não vou desistir dela.

Nunca.

A noite passa arrastada.

O sono não vem. E quando vem… É leve.

Fragmentado.

Cheio de pensamentos que não me deixam descansar. Viro na cama.

Olho para o teto.

E a única coisa que consigo ver…

São aqueles olhos.

Aquela pergunta.

Você vai embora também?

Aperto os lençóis com força.

— Não… — murmuro no escuro. — Eu não vou.

O dia amanhece rápido demais.

E, ainda assim, parece que eu não dormi nada.

Mas eu não posso parar.

Não hoje, tenho pacientes.

Histórias. Outras dores que também precisam de cuidado.

Então eu sigo.

Coloco meu melhor sorriso.

Minha melhor postura.

E atendo cada um deles como sempre fiz. Mas, no fundo…

Eu não estou inteira.

Parte de mim ficou naquele abrigo.

Parte de mim… ficou com a Luna.

As horas se arrastam.

Lentas. Até que, finalmente…

— Seu último paciente saiu — minha secretária avisa, abrindo a porta.

Solto o ar devagar.

— Obrigada.

Ela me entrega um papel.

— Aqui estão as informações que você pediu.

Olho para o documento.

Endereço.

Dante Ferraz.

Meus dedos apertam o papel com mais força do que deveriam.

— Obrigada — repito, já me levantando.

Não penso duas vezes.

Pego minha bolsa.

Saio do consultório e entro no carro.

O caminho parece mais curto do que realmente é. Ou talvez…

Seja só a pressa dentro de mim.

Estaciono em frente ao prédio da empresa.

Imponente.

Frio.

Exatamente como ele.

Respiro fundo.

Uma vez.

Duas.

Meu coração acelera, mas não é medo é certeza.

Saio do carro. E caminho em direção à entrada.

Cada passo mais firme que o outro.

Segurando o papel como se fosse mais do que um endereço.

Como se fosse… Um ponto sem retorno. Paro por um segundo antes de entrar. Olho para o prédio. E penso nela.

Na Luna.

Sozinha.

Sempre esperando.

Meu maxilar se contrai.

— Eu estou aqui por você… — sussurro.

Então ergo o queixo. E entro. Só espero que ele me receba. Por que eu vim para lutar pela Luna.

A frieza com que ele me recebeu…Ainda queima.

Cada palavra.

Cada desprezo.

Seguro o volante com força enquanto dirijo, tentando controlar a mistura de sentimentos que me atravessa. Raiva. Indignação.

E algo pior… Incredulidade.

— Como alguém consegue ser assim…? — murmuro, a voz baixa, mas carregada.

Ele não é só frio.

Ele é cruel.

Fechado em um mundo onde ninguém mais importa. Nem mesmo… A única família que ainda tem.

Aperto os dentes.

— Você vai se arrepender, Dante Ferraz…

As palavras saem como uma promessa.

— Vai perder o amor mais sincero que existe… O amor de uma criança que só queria ser escolhida.

O silêncio dentro do carro pesa.

Mas, dessa vez… Não penso duas vezes.

Saio direto da empresa e sigo para o abrigo.

Enquanto dirijo, pego o celular e mando uma mensagem rápida para o meu advogado.

Vou dar entrada no processo da Luna. Preciso de você no abrigo.

A resposta vem quase imediata.

Estou indo. Te encontro lá.

Solto o ar devagar.

Agora é real.

Não é mais só sentimento.

É decisão. É caminho sem volta.

Estaciono em frente ao abrigo.

Desço do carro sem hesitar.

Meu coração bate mais forte a cada passo. Mas não é dúvida.

É certeza.

Entro.

Cumprimento rapidamente algumas funcionárias e sigo direto para a sala da diretoria.

Bato na porta.

— Entre — a voz da senhora Tereza vem do outro lado.

Abro e entro.

Assim que me vê, ela se levanta.

— Como vai, Helena?

Caminho até ela.

— Eu estou bem.

Sustento o olhar dela.

Decidida.

— E vim dar entrada no processo de adoção da Luna.

Por um segundo… O silêncio domina a sala.

E então… Ela sorri.

Um sorriso leve.

Quase emocionado.

— Eu sabia — ela diz, baixinho.

Mas logo a expressão dela muda para algo mais sério.

Mais profissional.

— Perfeito. Mas você precisa saber de uma coisa.

Cruzo os braços, atenta.

— Antes de qualquer avanço, precisamos notificar o senhor Dante Ferraz formalmente.

Meu maxilar se contrai.

— E?

— E ele precisa assinar um documento de ciência. Só depois disso o processo pode seguir sem impedimentos.

Fecho os olhos por um breve instante.

Claro.

Não seria simples.

Nunca é.

— Ele não vai facilitar — digo, mais para mim do que para ela.

— Talvez não — ela responde com cautela. — Mas é um passo necessário.

Antes que eu diga qualquer coisa…

Alguém bate na porta.

— Com licença.

Viro o rosto.

E vejo Otávio entrando.

Postura firme.

Solto um pequeno suspiro de alívio.

— Ainda bem que você chegou.

Me aproximo dele.

— Obrigada por vir.

Olho para a senhora Tereza e faço a apresentação:

— Esse é o Otávio. Ele será meu representante no processo de adoção.

Otávio estende a mão, cordial.

— É um prazer. Vamos conduzir tudo dentro da lei, com a máxima agilidade possível.

A senhora Tereza aperta a mão dele, assentindo.

— Fico feliz em ouvir isso.

Olho entre os dois.

Mas, no fundo… Minha mente está em outro lugar.

No próximo passo. No obstáculo que ainda preciso enfrentar.

Dante Ferraz.

Respiro fundo.

Sentindo o peso do que está por vir.

Mas também… A força que cresce dentro de mim. Eu estou lutando.

E ninguém… Ninguém vai me impedir de tirar a Luna daquele lugar. Nem mesmo ele.

Mais um capítulo liberado!!!!!!!

E aí meninas quero chuvas de teorias!!!

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