Biblioteca
Português
Capítulos
Configurações

Capítulo 2 Dante Ferraz

Dormir... deixou de ser descanso há muito tempo.

Desde aquela madrugada.

Basta fechar os olhos... e tudo volta.

O cheiro do hospital.

As luzes fortes.

Os sons apressados.

E o medo.

Sempre o mesmo medo esmagando meu peito como se estivesse acontecendo outra vez.

Acordo no meio da noite, sem ar, com o coração disparado... como se tivesse corrido para salvar alguém.

Mas eu não salvei.

Abro os olhos de repente. O quarto está escuro.

Silencioso.

Mas, por um segundo... eu ainda vejo. Ela.

Monalisa.

Deitada naquela cama, pálida demais... distante demais... enquanto eu implorava em silêncio para que aquilo não fosse o fim.

Passo a mão pelo rosto, sentindo o suor frio.

Droga.

Até quando isso vai continuar?

Meu olhar se perde no vazio à minha frente. E então vem o pior.

A lembrança que nunca falha.

A voz do médico.

Baixa. Cuidadosa demais.

Como se existisse alguma forma gentil de destruir alguém.

(Sinto muito.)

Duas palavras. E tudo acabou.

Minha mulher.

Minha filha.

Na mesma noite.

No mesmo maldito momento.

Solto uma risada baixa, sem humor.

Irônico, não é?

Passei anos construindo uma vida... planejando cada detalhe... acreditando que, pelo menos ali, eu teria controle. E bastou uma madrugada. Uma única madrugada... Para me mostrar o quanto eu estava errado.

Levanto da cama, passando a mão pelos cabelos. Olho para o lado vazio. Ainda não me acostumei.

E acho que nunca vou.

Monalisa deveria estar ali.

Olívia deveria ter chorado pela primeira vez naquele quarto.

Eu deveria ter sido pai.

Mas não fui.

Não consegui.

Não protegi nenhuma das duas.

A culpa aperta meu peito como uma mão invisível. Porque, no fundo, é isso que me destrói.

Não foi só a perda.

Eu falhei.

Fecho os olhos com força.

E, por um instante, vejo de novo.

Monalisa sorrindo, com a mão sobre a barriga.

- Ela vai ter seus olhos - ela disse, rindo.

E eu acreditei.

Acreditei em cada plano.

Cada detalhe.

Cada futuro que nunca chegou.

Abro os olhos bruscamente.

Chega. Passo a mão no rosto, tentando afastar as imagens.

Mas é inútil.

Porque o passado não vai embora.

Ele só espera. E ataca quando eu menos espero.

Pego o copo na mesa ao lado e viro o resto da bebida de uma vez.

O gosto amargo desce queimando.

Mas não é suficiente.

Nunca é. E como se não bastasse...

A vida decidiu me lembrar de tudo outra vez.

Alguns dias atrás.

Um telefonema.

Outra notícia.

Minha irmã morta.

Um acidente, simples assim.

Mais uma pessoa tirada de mim.

Mais um pedaço arrancado.

Mas dessa vez... veio algo junto.

Uma criança.

Uma filha que eu nem sabia que existia.

Minha sobrinha.

Fecho os olhos, irritado.

Só de pensar nisso... meu corpo reage.

Raiva.

Rejeição.

Eu não vou passar por isso de novo.

Não vou. Dei um enterro digno para minha irmã. Fiz o que precisava ser feito.

Mas parei por aí. Não fui ao abrigo.

Não quis ver a criança.

Não quero ver.

Ela terá outras pessoas.

Outras famílias.

Mas parece que ninguém entende isso. Principalmente aquela diretora insistente. A mulher simplesmente não desiste.

Ligando.

Insistindo.

Como se eu tivesse alguma obrigação emocional com algo que eu me recuso a reviver.

Ontem foi o limite.

Eu estava em uma reunião importante quando ela resolveu ligar. Falando daquela criança como se fosse minha responsabilidade.

Como se eu tivesse escolha.

Senti o sangue ferver.

Saí da reunião sem me importar com nada.

Disse tudo que precisava ser dito.

Que ela seguisse em frente.

Que aquela criança não me interessa. E então... Ela apareceu com olhos amêndoas cheio de petulância no olhar.

A outra.

Aquela necessidade irritante de se meter onde não é chamada.

(Crianças não são erros.)

A voz dela ainda ecoa na minha cabeça. Aperto o copo com força.

Quem ela pensa que é?

O que ela sabe?

Nada.

Ela não sabe o que é perder tudo em questão de horas.

Não sabe o que é sair de um hospital... sozinho.

Sem esposa.

Sem filha.

Sem nada.

Solto o ar com força.

Qual é a dificuldade de entender?

Eu não vou cuidar dessa criança.

Não vou.

Porque eu sei exatamente onde isso termina. No mesmo lugar de sempre.

Perda.

Dor.

Silêncio.

Sou arrancado dos pensamentos pelo som do celular tocando.

Olho para a tela, irritado.

Meu assistente.

Atendo.

- Alô.

- Senhor Ferraz, o diretor da filial já está à sua espera para a reunião.

Merda.

Olho pela janela.

O dia já amanheceu.

Nem percebi.

- Já estou a caminho.

Desligo sem esperar resposta.

Passo a mão pelo rosto mais uma vez. Frio.Vazio.

Controlado.

É assim que eu funciono agora.

Sem espaço para erros.

Sem espaço para sentimentos.

Sem espaço para... nada.

Mas, por algum motivo que eu ainda não entendo... Aquela mulher... E aquela maldita criança... Ainda não saíram da minha cabeça.

E isso... Isso me irrita mais do que deveria.

Chego na empresa como sempre.

Sem olhar para ninguém.

Sem cumprimentar.

Sem parar.

As pessoas abrem caminho automaticamente não por respeito... mas porque aprenderam a não se aproximar. E eu prefiro assim.

O silêncio.

A distância

O controle. O trabalho é a única coisa que ainda funciona.

A única coisa que não falha.

A única coisa que me impede de afundar completamente. Entro no elevador e observo meu reflexo no espelho.

Frio.

Intacto por fora.

Destruído por dentro.

As portas se abrem no meu andar.

Caminho direto para a sala de reunião. Sem desvios. Sem pausas.

Quando entro, tudo está exatamente como deve ser.

Organizado.

Cada pessoa no seu lugar, os documentos alinhado sobre a mesa.

Controle. É disso que eu preciso.

- Bom dia, senhor Ferraz - alguém arrisca dizer.

Não respondo.

Puxo a cadeira na cabeceira da mesa e me sento.

Todos ficam em silêncio.

Esperando.

Abro a pasta à minha frente, passando os olhos pelos primeiros relatórios, números, estratégias.

Expansão.

Tudo dentro do esperado até que...

Eu vejo. Meu corpo enrijece.

O nome do projeto.

"Hortelária DOM".

Por um segundo... o ar pesa.

Minhas mãos param. E o tempo... desacelera. Não. Não pode ser.

Levanto o olhar devagar.

- Quem autorizou isso?

Minha voz sai baixa.

Mas carregada.

Perigosa.

Os olhares se cruzam na mesa.

Ninguém responde de imediato.

Então um dos diretores limpa a garganta.

- Senhor... nós achamos que- o corto sem paciência alguma.

- Eu não perguntei o que vocês acharam.

O silêncio cai pesado.

Corto o documento com os dedos, empurrando-o sobre a mesa.

- Eu perguntei quem autorizou isso.

- Foi uma decisão estratégica - outro tenta intervir. - O projeto tem potencial enorme de retorno e- Eu rio.

Sem humor.

Sem paciência.

- Retorno?

Levanto da cadeira lentamente.

- Você acha que eu estou interessado em retorno?

Caminho até a ponta da mesa, pegando o documento novamente.

Meus olhos passam pelas páginas, mas eu não estou vendo números.

Eu estou vendo outra coisa...

Outro lugar.

....

- Vai se chamar Hortelária DOM.-

Monalisa sorria, sentada no sofá, com os pés apoiados na mesa, completamente à vontade.

- Hortelária DOM? - arqueei a sobrancelha, cruzando os braços.

- Um lugar com vida, Dante. - ela colocou a mão sobre a barriga. - Verde, leve... cheio de famílias. Crianças correndo.

Meu olhar caiu automaticamente para a barriga dela.

Olívia.

- Você já planejou tudo, não foi? Agora o que significa Dom?- perguntei, tentando não sorrir.

- Claro que planejei. - ela deu de ombros, convencida. - Você só vai executar será nossas inicias onde tudo começou.

Aproximei-me, ajoelhando na frente dela.

- Eu faria qualquer coisa por vocês duas.

Ela sorriu daquele jeito... que ainda me persegue.

- Então constrói nosso lugar no mundo, Dante.

....

Fecho o documento com força.

O barulho ecoa pela sala.

De volta.

Para o vazio.

- Esse projeto foi encerrado - digo, firme.

- Mas senhor, os estudos mostram que- não o deixo terminar.

- Eu não me importo com os estudos!

Minha voz sobe pela primeira vez.

Cortante, pesada.

Irreversível.

Todos se calam imediatamente.

Apoio as mãos na mesa, inclinando o corpo levemente para frente.

- Esse projeto... - minha voz sai mais baixa agora, mas muito mais perigosa - não é um número.

Ninguém respira.

- Ele não volta.

Silêncio.

Um dos diretores ainda tenta.

- Senhor Ferraz, com todo respeito, esse projeto pode se tornar um marco para a empresa. Seria um legado- Meu olhar encontra o dele.

E ele para.

Porque entende.

- Eu já perdi o único legado que importava.

A frase sai seca.

Sem emoção aparente. Mas por dentro... Por dentro tudo está queimando. Endireito o corpo.

Ajusto o paletó. Volto a ser o que eles esperam.

Frio.

Inatingível.

- Retirem isso da pauta. Agora.

Ninguém discute.

Fecho a pasta com precisão.

- Próximo assunto.

A reunião continua.

Mas eu não estou mais ali. Porque, pela primeira vez em anos... Aquele projeto voltou. E com ele... Tudo que eu passei tanto tempo tentando enterrar.

Eu já estava finalizando os últimos documentos quando a porta se abre sem aviso.

- Senhor Ferraz...

A voz do meu assistente vem carregada de algo incomum.

Tensão. Ergo o olhar devagar. Ele está rígido.

Cauteloso demais.

- A senhorita Duarte deseja falar com o senhor.

Franzo levemente a testa.

Duarte.

Desconheço esse sobrenome.

- Do que se trata?

- Ela apenas disse que é do seu interesse... e de extrema importância.

Solto um suspiro impaciente, recostando-me na cadeira.

Ninguém chega até aqui sem motivo.

- Mande entrar.

Volto o olhar para o quadro à minha frente.

Monalisa, sorrindo.

Sempre sorrindo.

Foi em uma das nossas viagens.

Ela estava feliz. Plena. Viva.

Engulo em seco, sentindo aquele aperto familiar no peito.

Então... A porta se abre. O som me puxa de volta. Levanto os olhos.

E a vejo. Por um segundo, não reconheço.

Mas então... A lembrança encaixa.

O abrigo. A discussão. Aquela mulher.

Aponto para a cadeira à minha frente, sem dizer nada.

Ela entra com firmeza.

Sem medo.

Isso já me irrita.

- Boa tarde, senhor Ferraz.

A voz dela é firme.

Controlada.

- Preciso falar com o senhor sobre algo importante.

Cruzo os braços, recostando-me na cadeira.

Frio.

Impassível.

- Você não tem nada que possa ser importante para mim.

Faço um gesto seco em direção à porta.

- Pode sair.

Ela não se move.

Nem um centímetro.

- Não. Eu só vou sair depois que disser tudo o que vim dizer.

Um silêncio pesado cai entre nós.

Perigoso.

Inclino levemente a cabeça, analisando-a.

- Você realmente acha... - minha voz sai baixa, carregada - que eu tenho tempo a perder com você?

Me inclino para frente.

- Não me faça perder a paciência.

Ela sustenta meu olhar.

Sem recuar.

- Não se pode perder algo que não tem.

A resposta vem rápida.

Direta. Meus olhos se estreitam.

E então ela solta:

- Estou aqui por causa da Luna.

O nome ecoa.

Incômodo.

Indesejado.

- Você precisa conhecer a menina. Precisa falar com ela. Ela só tem você.

Algo dentro de mim se fecha.

Violento.

Levanto da cadeira de uma vez.

- Quem é você - minha voz sobe, carregada de fúria - para entrar aqui e dizer o que eu devo fazer?

Dou a volta na mesa, parando a poucos passos dela.

- Não se meta na minha vida.

Aponto para a porta.

- Se está tão preocupada... fique você com ela.

Ela se levanta também.

E então faz algo que poucos têm coragem.

Ela me encara.

De igual para igual.

Sem medo.

- Eu sou alguém que sabe exatamente o que é ser abandonada.

A frase me atinge.

Mas eu não demonstro.

- Sei o que é ser rejeitada. Sei o que é esperar... e ninguém voltar.

A voz dela treme por um segundo.

Mas não quebra.

- E é exatamente por isso que eu estou aqui.

Silêncio pesado.

- Você é um monstro.

As palavras caem entre nós.

Secas

Minha mandíbula trava.

- Como consegue olhar para uma criança... e não sentir nada?

Ela dá um passo na minha direção.

- Ela é inocente. Não tem culpa da tragédia que tirou a mãe dela.

Cada palavra dela bate.

Forte.

Mas o que cresce em mim não é culpa. É raiva.

- Pois bem - ela continua, a voz mais firme agora - se você quer fugir disso, fuja.

Ela pega a bolsa, mas não desvia o olhar.

- Porque eu não vou.

Meu corpo enrijece.

- Eu vou fazer o que for preciso pela Luna.

Ela se aproxima mais um passo.

Perto demais.

- Até o impossível.

Silêncio.

O ar entre nós parece mais pesado.

Mais... perigoso.

- Já que ela não pode contar com o único parente vivo que tem.

A frase vem como um golpe.

Preciso.

- E pode ter certeza de uma coisa, senhor Ferraz...

A voz dela baixa.

- Um dia... você vai se arrepender.

O silêncio depois disso é ensurdecedor.

Ela me encara por mais um segundo. E então... Vira as costas.

E vai embora.

A porta se fecha com força.

E o som ecoa pela sala.

Mas eu não me movo.

Fico ali parado.

Com o olhar fixo na porta.

O maxilar travado.

A respiração pesada.

Porque, pela primeira vez em muito tempo... Alguém não teve medo de mim. E pior alguém conseguiu me atingir. E isso me irrita muito mais do que deveria....

Baixe o aplicativo agora para receber a recompensa
Digitalize o código QR para baixar o aplicativo Hinovel.