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Capítulo 5 - Carla (PARTE 2)

EU NUNCA SOUBE O quanto da vida sexual de Kelly minha amiga Claudia tinha conhecimento, mas numa tarde qualquer, eu acabei descobrindo que a menina tinha visitado Micaela em nossa casa na Saúde e coincidiu de ser bem num dia em que o meu marido tinha chegado mais cedo do seu trabalho como engenheiro na Suares & Castilho.

Nenhum dos dois confessou para mim o que aconteceu dentro do quarto naquela tarde, provavelmente, muito animada que eles passaram juntos com a menina Kelly, mas eu tinha certeza que tinham feito um ménage à trois enquanto eu trabalhava na A3.

Pelas poucas vezes que tinha encontrado com a menina em nossa casa ou no colégio em que estudava, não tinha percebido nela aquele mesmo comportamento meio lascivo que parecia exalar da minha Micaela. Kelly demonstrava maior recato, algo como se ela fosse uma freira comparada à minha filha — que onde chegava gostava de chamar todas as atenções —, mas o seu comportamento contido em nada deveria refletir àquilo que ela devia fazer pelas costas de Claudia quando ninguém podia ver. No dia em que a fomos buscar na porta do seu apartamento para a sua tão badalada festa, eu tive a certeza absoluta disso.

Claudia me ligou alguns dias antes da festa à fantasia que estava bancando para comemorar o aniversário de Kelly e pediu que eu fosse a responsável por buscar a garota em casa no dia da comemoração.

— Eu vou trabalhar na agência pela manhã e mais ou menos na hora do almoço pretendo ir direto para o salão de festas na Vila Madalena — disse a publicitária em ligação —, eu sei que a equipe que contratei para organizar tudo dá conta até que eu chegue lá, mas fico em cólicas só de pensar em ficar de fora dos acertos finais. Quero garantir que nada dê errado no dia da minha princesa.

— Sei exatamente como se sente, Claudia. Eu sou exatamente igual! — Confessei, aos risos.

— Seria muito abuso pedir que você buscasse a minha neném em casa no dia da festa? Eu poderia mandar que um Uber a pegasse, mas tem a questão da fantasia. Ela escolheu um modelo meio curtinho, não quero a Kelly exposta na rua.

Eu tinha me sentido bastante lisonjeada por Claudia ter me pedido aquele favor e não tive nenhuma intenção de me recusar a atendê-lo, já que Micaela tinha adorado a ideia de ser uma das primeiras pessoas a ver a aniversariante no dia de sua festa, e uma vez que as duas não se desgrudavam mais.

— Que abuso o quê, mulher! — Disse a ela. — Vai ser um prazer buscar a Kelly em casa nesse dia tão importante. A Mica vai adorar ir com a amiga para o salão de festas. Essas duas viraram unha e carne!

No dia seguinte àquela conversa, eu encomendei a fantasia que escolhi no catálogo online da loja e pedi para que entregassem à domicílio na portaria da A3. Após o expediente no estúdio, eu experimentei a roupa da deusa Afrodite que tinha achado a minha cara e fiz um pequeno desfile para minhas sócias Nana e Duda.

Assim como elas, a minha secretária Nádia — a irmã do bofe que eu estava pegando secretamente — também ficou encantada como o vestido branco longo com uma fenda na perna esquerda me caiu bem. Me olhando no espelho, achei que o meu corpo tinha ficado bastante sinuoso dentro daquele tecido que imitava uma transparência — quase como se quisesse revelar a minha nudez por baixo dele — e a tira em volta do pescoço sustentou bem o busto do traje avantajando meus seios. As costas nuas e os adornos dourados nos pulsos, braços e a tiara na cabeça completavam o meu visual fazendo eu me sentir como uma deusa de verdade.

O Gilson ia adorar me ver com essa roupa. Acho que vou mandar fotos para ele, pensei na mesma hora em que me vi dentro do vestido da deusa grega.

Naquele mesmo dia, Roque tinha saído mais cedo do trabalho para acompanhar Micaela até a loja de fantasias onde eles iam buscar as suas roupas e a minha filha não parou mais de me mandar fotos e vídeos dela vestida como a personagem de desenho animado que tinha escolhido. Como era de se esperar, Mica havia optado por um modelo bem curtinho, e embora eu tivesse achado um pouco indecente na parte traseira, Roque adorou e a incentivou a usar.

No dia da festa, saímos de casa mais cedo, como eu tinha combinado com Claudia, e fomos da Saúde até o Itaim para buscar Kelly e Nicole no prédio em que elas moravam. A filha de Silvana estava morando com Claudia devido um desentendimento sério que havia acontecido entre a menina e a mãe por causa do padrasto da mesma — o tal personal trainer gostoso —, mas nenhuma delas quis entrar em muitos detalhes, o que me fez respeitar sua privacidade.

Embora tivesse passando por momentos complicados com a sua família, Nicole estava bastante animada quando a encontramos com Kelly à porta do condomínio onde viviam, e as duas logo se juntaram a Micaela no banco de trás da SUV de Roque, competindo para ver qual delas estava mais linda.

Nicole estava vestida de TinkerBell e exalava charme com um delineado delicado nos olhos e uma sombra que destacava ainda mais o belo par de faróis azuis que herdara da mãe. Foi divertido ver as três tagarelando o caminho todo enquanto meu marido dirigia sorridente até a Vila Madalena, mas eu tinha percebido olhares meio estranhos entre Roque e Kelly pelo retrovisor.

Estaria eu vendo coisas por conta daquela desconfiança sobre o ménage à trois dos dois e Micaela? Pensei, um tanto quanto receosa.

Eu já havia visitado o site da Illuminare, agência de Publicidade de Claudia, e conhecia alguns dos seus trabalhos, mas quando chegamos ao prédio onde a festa de Kelly ia acontecer, eu fiquei positivamente impressionada com o requinte e o luxo com que a equipe da publicitária havia organizado tudo.

Os dois andares do lugar estavam igualmente decorados para se assemelharem ao interior de um castelo medieval, e por um momento, foi como se eu tivesse viajado mesmo no tempo. Eu era formada em arquitetura, estava acostumada a ver e lidar com todo tipo de instalação e decoração — das mais minimalistas às mais carnavalescas — e aquela festa não deixava nada a dever a todos aqueles cenários antigos que tanto estudávamos nas aulas de História da Arte. Assim que tive um tempo a sós com Claudia, depois dos cumprimentos de praxe à sua equipe, eu a puxei de lado e quis saber quem havia assinado aquela decoração.

— Eu contratei um estúdio especializado em decoração de festas. A designer de interiores é amiga das minhas funcionárias e uni o útil ao agradável. Sabe como é: Nessas horas é ótimo ser da área e ter contatos!

Claudia trabalhava com duas jovens irmãs gêmeas que cuidavam de toda a parte visual da sua agência e as garotas tinham ajudado bastante na organização da festa. Eu as cumprimentei pessoalmente e passamos um bom tempo conversando sobre a decoração que tanto havia me encantado.

Naquele meio tempo, Micaela, Kelly e Nicole ficaram bajulando o DJ famoso que Claudia havia contratado para dar o som da festa, e vestido de pirata, Roque aproveitou para encostar no balcão do bar instalado na lateral esquerda do salão onde uma dupla de bartenders sarados já começavam os trabalhos servindo drinques dos mais variados. Eu estava encarregada em conduzir o carro de volta para casa em segurança naquela noite e queria que meu marido se divertisse bastante, nem que para isso ele precisasse beber muito.

Perto das dezenove horas, o salão superior já estava apinhado de convidados e enquanto a molecada dançava animadamente em várias rodas de amigos, os mais velhos se mantinham à margem, conversando próximo do balcão do bar — onde os atendentes gostosos serviam bebidas quase sem parar, com performances impressionantes de malabarismo com garrafas e coqueteleiras — ou no andar inferior, nas mesas dispostas do bufê.

Após uma hora frenética de dança no meio da pista acompanhada de Claudia, das duas gêmeas vestidas de mafiosas, de Natalie Schneider — a irmã do tal Henrique com quem a publicitária se relacionava sexualmente às vezes — e das amigas da garota, eu precisei dar uma relaxada e fui até o bar pedir um suco. Eu não me divertia daquele jeito desde a festa de dezoito anos da minha sobrinha Janete, a filha do meu irmão Renato, e perdi o fôlego para acompanhar Dana e Dona. As garotas tinham corpos esbeltos e possuíam uma energia inesgotável, além de contagiante. Quando reencontrei Roque no balcão, eu estava esbaforida.

— Não dá para aguentar o ritmo dessas meninas por muito tempo não! — Confessei, ao pé do ouvido do meu marido, apoiando uma das mãos em seu ombro. — Elas parecem elétricas!

Roque lançou um olhar pelo salão com um sorriso estampado no rosto, e mais à frente, viu as gêmeas sacudindo os quadris com muito charme dentro de seus ternos risca-de-giz e o chapéu fedora na cabeça. Próximo a elas, Natalie, Rafaela Albuquerque — uma amiga de infância dos irmãos Schneider — e um grupo de mais quatro outras meninas também dançavam efusivamente cheias de alegria. Claudia já havia se afastado delas para dar conta de algum pormenor da organização da festa e as nossas filhas estavam em algum lugar no meio daquela multidão de jovens saltitantes. Por alto, devia ter umas cem pessoas ali em cima.

— Essa festa lembra bastante aquelas que íamos juntos na época de faculdade. Você se lembra, amor? — Disse Roque bem próximo ao meu ouvido tentando se fazer escutar apesar do som pesado e ritmado comandado pelo DJ “Maverick”.

Um dos bartenders sem camisa veio logo me atender junto ao balcão. Usava apenas uma calça com suspensório e exibia um corpo musculoso magnífico. Me serviu o suco que eu havia pedido prontamente e sem que Roque percebesse, ele deu uma piscadinha de olho para mim ao me passar o copo. O meu marido já estava na quarta dose de vodca àquela altura da festa. Eu retribuí o gracejo do saradão com um sorriso.

— Como poderia esquecer? — Respondi, enfim — Foi numa dessas festas que você me mostrou o gingado desses quadris!

Roque não gostava muito de dançar em público. Dizia que era desengonçado e sem ritmo, mas eu sabia que nada daquilo era verdade. Nós dançávamos muito juntos em nossa casa quando Micaela ainda era um bebê de colo e muito antes disso também. Ele era o homem mais ritmado que eu conhecia, e naquele dia, quis mostrar isso para todo mundo. Eu o puxei para o meio do salão e nós voltamos a dançar juntos como quando éramos jovens. Por um tempo, esquecemos completamente nossos problemas de relacionamento e voltamos a ser o casal feliz e animado que sempre fomos. Foi o momento mais maravilhoso da noite.

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