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Capítulo 6 - Carla (PARTE 3)

APESAR DE TODA A AGITAÇÃO na pista de dança, do empurra-empurra e do calor juvenil, foi inevitável não conhecermos os amigos das minhas sobrinhas e muitos dos convidados de Claudia e Kelly ao longo de toda a noite.

Enquanto eu e Roque aproveitávamos um pouco dos quitutes maravilhosos do bufê no andar de baixo, algum tempo depois de dançarmos, nós dois fomos apresentados aos irmãos Monterey que tinham acabado de se sentar na mesa ao lado e foi a menina Rafaela Albuquerque quem nos conectou.

Assim como ela era amiga de infância dos Schneider, família a qual pertencia também a anfitriã da festa, a garota e seu irmão Maxwell eram bem próximos dos Monterey, o que nos fez sentarmos todos juntos à mesa enquanto o som abafado das batidas de uma música eletrônica soava sobre nossas cabeças.

— Eu conheci a Micaela quando ela fez uma visita à nossa construtora há algumas semanas — disse Rodrigo Monterey, pouco depois que um garçom serviu um prato de fettuccine a ele e a sua irmã mais nova Carina, de 18 anos —, agora sei de quem ela puxou as sardinhas e os cabelos ruivos!

O rapaz disse aquilo apontando para o meu marido sentado ao meu lado e ele sorriu. Os dois irmãos eram extremamente simpáticos e por um tempo, nem me pareceram que eram herdeiros de uma das fortunas mais consideráveis da burguesia paulista. Não exalavam toda aquela arrogância tão comum a filhos de empresários ricos naquela idade e eu achei Rodrigo bem charmoso. Charmoso até demais!

— Depois da visita à construtora, ela e a Kelly visitaram a nossa casa nos Jardins. As duas até tomaram um banho de piscina aquele dia!

Carina tinha um sorriso fácil no rosto bonito e a maquiagem escura exagerada em seu rosto a tinha deixado com o ar exato das performers do Moulin Rouge que ela procurava emular com a sua fantasia. A pele clara combinava bastante com as dançarinas francesas do cabaré mais famoso do mundo e não dava para negar o quanto a garota tinha ficado exuberante naquela roupa vermelha e preta.

Micaela tinha comentado há algum tempo alguma coisa sobre a casa de um tio de Kelly que ela havia visitado certa vez nos Jardins e eu tive alguma dificuldade para relacionar aquelas informações com o que os Monterey tinham acabado de dizer.

— A Mica falou alguma coisa sobre um tio da Kelly… Mas você não é parente dela, certo? — Questionei a Rodrigo, embocando uma garfada de um macarrão com molho branco em seguida.

A porção em meu prato estava deliciosa, assim como quase tudo que estava sendo servido à nossa volta no bufê. Os dois irmãos se entreolharam e deram uma risada cúmplice. Rafaela parecia também ter entendido a piada interna entre eles e aguardou que o rapaz respondesse.

— Eu conheci a Kelly quando ela tinha uns dez aninhos, por meio da prima dela, a Natalie. Desde aquela época, ela pegou mania de me chamar de “tio Rodrigo” e o apelido acabou pegando. Até hoje a Kelly me chama de “tio” quando me vê, mas é porque eu namoro a prima dela.

Embora não tivesse dado a devida importância àquele fato antes, eu me lembrava de já ter ouvido minha filha mencionar um tal “tio Digo” nas conversas por áudio com Kelly pela casa e agora eu entendia de quem se tratava.

Enquanto o assunto à mesa ia se prolongando, Roque e Rodrigo passaram a falar de negócios e foi então que me ative ao fato de que quem estava sentado ali com a gente, conversando alegremente há vários minutos, era o filho de um dos principais rivais comerciais da Suares & Castilho, fato aquele que com certeza desagradaria e muito meus irmãos Renato e Mauro que tocavam a nossa construtora com mais afinco.

Apesar de ser uma das acionistas da empresa, eu não tinha quase nenhuma participação ativa na tomada de decisões dos negócios, mas sabia o suficiente sobre como a Monterey Construtora era uma adversária ferrenha da Suares & Castilho há vários anos, além da animosidade que parecia existir entre Fausto Monterey, pai de Rodrigo e Carina, e de João Suares, o sócio majoritário da S&C.

— Confesso que não fazíamos ideia que vocês dois eram filhos do velho Monterey quando se sentaram à nossa mesa! — Disse Roque, até um pouco constrangido com aquela constatação.

— Espero que não tenhamos causado nenhum desconforto — disse Rodrigo, bastante educado —, o papo está muito bom até agora e eu não gostaria que ele fosse estragado por conta da rivalidade comercial entre as nossas famílias.

— De maneira nenhuma, Rodrigo — respondi em nome de mim e de meu marido —, acho que o que acontece no mundo dos negócios não precisa se estender para nossas vidas pessoais. Estamos aqui curtindo uma festa de aniversário juntos. Não vejo necessidade em estragar o clima porque nossos pais viveram se engalfinhando por causa de clientes há algumas décadas.

Carina e Rafaela pareciam concordar e foi a primeira quem estabeleceu outra relação entre todos nós.

— O pai da Rafa, o senhor Otto Albuquerque, é diretor administrativo da Monterey e mesmo assim, ela é uma das melhores amigas da Janete Castilho, a sua sobrinha — Carina apontou para mim —, pelo que entendi, o pai da Janete é um dos principais diretores da Suares & Castilho, mas as duas não deixam isso atrapalhar a amizade delas.

— É verdade! — Concordou a preta linda à nossa frente vestida de egípcia, com um sorriso estampado no rosto — A Jane não se importa nem um pouco por nossos pais serem rivais nos negócios. Eu amo aquela garota!

O assunto construtora e a rivalidade entre Monterey e Castilho continuou ainda por um tempo, mas, logo foi sobreposto por coisas mais amenas como gostos musicais e programas de TV.

Algum tempo depois, a minha sobrinha Janete apareceu no bufê para se juntar a nós e trouxe com ela uma outra amiga chamada Rarissa Vecchio. Todos pareciam já se conhecer muito bem, e tanto eu quanto Roque adoramos ser envoltos por toda aquela energia juvenil.

Apesar de muito jovens — Rodrigo que era o mais velho da mesa tinha 23 anos —, eles eram muito inteligentes e tinham cultura suficiente para render horas e horas de conversa. Mesmo Janete, a minha linda sobrinha de 18 anos que era a menos conhecida dos demais, se entrosou perfeitamente com eles tendo Rafaela para fazer a ponte entre ela e os irmãos Monterey.

Apesar de saber que o herdeiro milionário era namorado da prima de Claudia e Kelly, era inegável a química que parecia haver entre o rapaz e a exuberante morena de cabelos cacheados que havia chegado à mesa. Rarissa estava vestida de colegial sexy e embora tentasse disfarçar, o seu olhar se cruzava o tempo todo com o de Rodrigo. Os dois ficavam tentando fingir que não, mas aquilo era tensão sexual pura no ar.

Eu conhecia muito bem como aquilo funcionava, mas preferi me manter calada sobre as minhas suspeitas a fim de evitar problemas com a família Schneider.

Certeza que esses dois já se pegaram, e se não, estão doidos para se pegar, pensei, um tanto quanto venenosa.

Algum tempo depois, próximo dos parabéns para a aniversariante que estava radiante dançando com as amigas, eu voltei para a pista de dança e foi muito gostoso me juntar às minhas sobrinhas Janete, Priscila e Cleide para sacudir a bunda. Maverick tinha sequências contagiantes de músicas brasileiras “na agulha” e quando ele botou para tocar os mixes que tinha feito com vários funks populares, foi impossível não me deixar levar com as meninas.

Naquele momento, Micaela trouxe Kelly e Nicole para dançar com a gente e até Claudia entrou na bagunça remexendo com muito talento em seu visual de cortesã dos anos 20, à la Betty Boop. Eu trouxe Roque para requebrar comigo e não demorou para que os meninos se aproximassem também trazendo mais de nossos conhecidos para perto da nossa roda.

O clima não parecia muito bom entre os dois, mas vi Rodrigo e Natalie se divertindo juntos procurando imitar os passos de dança dos demais. Os irmãos Albuquerque, Rafaela e Maxwell, entraram rápido no ritmo com Carina e Rarissa, depois, foi a vez dos meus sobrinhos Cleber e Pedro entrarem na coreografia mostrando que tinham bastante gingado.

Aquela tinha sido a festa à fantasia mais bem produzida e animada que eu já tinha participado em minha vida toda e tinha certeza que seria inesquecível. A dona da festa estava explodindo de felicidade ali no meio e a minha filha não desgrudou da menina um segundo sequer dançando, às vezes, de maneira bem empolgante com ela, colada em seu traseiro como uma amante quente e ávida. Estavam todos se divertindo muito para que eu pensasse melhor a respeito na hora, mas estava mais do que claro que Micaela e Kelly estavam deixando rolar algo mais tórrido do que uma simples amizade. As duas não estavam querendo esconder de ninguém e quando me dei conta, senti um choque percorrer todo meu corpo. Aquela era a grande surpresa do dia.

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