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TRÊS

- Kaio! - exclamei surpresa. - A quanto tempo? - me afastei bruscamente.

Umedeci os lábios nervosa.

Passei a mão pelo cabelo um pouco desconcertada e bebi todo o restante do líquido que tinha no meu copo enquanto eu procurava por mais.

Kaio Martins.

Por muito tempo ele foi motivo de angústia para mim, meu peito ardia de mágoa só de pensar.

O pior era que mal nos falávamos em toda uma vida e agora ele estava aqui.

Na minha frente...

Conversando comigo.

Irônico, não?

Durante a escola eu havia tido uma paixão platônica por ele, por toda minha adolescência eu ficava com vários meninos fantasiando estar com ele. Aquilo era ridículo, eu sei, mas eu fazia questão de fazer porque não ser notada por ele me doía.

Doía muito.

O que diabos eu tinha de diferente de todas aquelas garotas com quem ele ficava? Eu era tão horrível assim?

Ele era o culpado de ter destruído minha autoestima na época.

Não sei o que havia me feito gostar dele, talvez fosse o fato dele ser um dos caras mais egocêntricos da escola ou então simplesmente porque eu era fascinada por babacas.

Eu não sabia.

Só sabia que ele mexia profundamente comigo.

Me recompus na frente de Kaio que me analisava achando estranha a minha atitude.

Eu ri relaxadamente. Foi só um susto.

Estava tudo bem.

Quando fui pra Portugal deixei meus sentimentos por ele guardados no fundo da gaveta e nunca mais tinha tocado neles. Se duvidasse, eu nem gostava mais dele.

Mas, eu tinha que admitir que ele ainda me deixava atraída.

Continuava o mesmo gato charmoso de sempre.

O único problema era que de milhões de caras no mundo eu achei de tentar flertar justo com aquele que era o errado.

Já que estávamos aqui, iríamos ver até onde isso iria dar.

- Acho que não gostou muito de saber que era eu por trás dessa máscara. - Ele balançou a máscara em suas mãos me fazendo encara-la.

Mordi os lábios me inclinando sobre o balcão.

- Só fiquei surpresa ao reencontrar um antigo colega de escola. - Me justifiquei.

Ele tomou um gole da sua bebida.

- Entendo. - Kaio me olhou nos olhos. - Você está mais bonita que na época da escola.

Naquele momento me deu uma vontade imensa de dar uma gargalhada.

Imbecil.

- É mesmo? - eu ironizei. - Não sabia que você prestava tanta atenção em mim naquela época.

Para mim tudo isso que estava acontecendo agora não passava de uma grande piada e as câmeras escondidas já podiam sair de onde estavam.

- Eu conhecia tudo que estava à minha volta. E principalmente conhecia todos quem eu queria conhecer. - Sua voz saiu mais rouca que o normal.

Um frio percorreu a minha espinha.

- Não lembro de sermos amigos. - disse fazendo bico enquanto olhava pra algum canto da cozinha que não fosse ele.

- Não éramos. - Ele disse dando de ombros me fazendo olhá-lo novamente. - Mas eu queria que fossemos, é uma pena. Nunca fomos apresentados corretamente, nunca podemos nos conhecer mais... profundamente, sabe?

Ele riu cinicamente. Idiota.

- Que papo furado. - Revirei os olhos. - Kaio, você não é nenhum pouco convincente.

Ele se aproximou.

- É sério, Sofia. - Enrijeceu o corpo. - Porque não acredita em mim? - ele tirou uma mecha do meu cabelo que estava no meu rosto e pôs atrás da minha orelha.

Eu respirei fundo.

Típico de um sedutor barato de meia tigela.

- Porque você não é nada confiável. - Continuei perto do seu corpo. - Aliás, continua um safado?

Ele arqueou a sobrancelha parecendo surpreso e em seguida riu de lado.

- É, continuo. - Ele se aproximou mais ainda, se inclinando, deixando seu rosto a centímetros de distância do meu. - Porque? q?Quer experimentar?

Bingo!

- Talvez. - Eu disse na lata.

É, eu queria muito experimentar.

Ele havia entendido o recado, deu pra ver em seus olhos.

Eu nem podia acreditar que estava flertando com Kaio, esperei muito tempo pra que isso acontecesse e agora eu não iria jogar a oportunidade fora.

Talvez eu ainda tivesse resquícios de um sentimento devorador por ele.

Eu precisava de qualquer forma sentir os lábios dele, até de longe pareciam ser os melhores.

Minha vez tinha acabado de chegar, estava na hora.

- Podemos resolver isso. - Ele sussurrou.

Sua mão segurou suavemente a minha nuca puxando meu rosto para perto do seu.

Ele me beijou, ele realmente me beijou.

Seus lábios eram quentes e macios.

O seu beijo era exatamente da forma que eu havia imaginado que seria.

Passei minhas mãos em volta do seu pescoço colando seu corpo ao meu enquanto aprofundava o beijo, ele puxou meu lábio inferior ferozmente me fazendo dar um risinho inapropriado para o momento.

Kaio havia me tirado todo o fôlego.

Quando o beijo chegou ao fim, nenhum de nós dois queríamos que acabasse, então, ele me deu um selinho a mais, e confesso, fui pega de surpresa.

- Ow, isso foi legal. - Eu disse um pouco inebriada sentindo o cheiro bom que ele exalava.

- Isso foi só o começo, minha diabinha. - As palavras saíram da boca dele de uma forma sensual.

"Minha"

Aquela palavra me deixou um pouco pensativa e desconfortável, mesmo que fosse só uma palavra.

Mal sabia ele que eu já era sua a muito tempo.

De repente duas pessoas passaram pela porta tirando a nossa privacidade, aquela privacidade que nós não tínhamos nessa casa por culpa da festa que estava rolando ao nosso redor.

- Ei Sofia, nós te procuramos por tudo que é canto. Vamos embora logo. - Rebeca disse me chamando enquanto Erick a abraçava por trás.

Eu olhei pra ela profundamente desacreditada. Sério? Agora Rebeca?

- Kaio? Pensei que você não viria pra festa hoje à noite. - Erick se soltou de Beca vindo até nós o cumprimentando. - Você e Sofia se conhecem?

Mais o que? De onde vinha aquela intimidade, eles se conheciam?

Eu estava completamente perdida.

Olhei para Rebeca pedindo explicações com os olhos e ela balançou os ombros como quem dissesse que não fazia ideia do que estava acontecendo.

- Mudei de ideia e vim, tive um pressentimento de que encontraria algo bom hoje, e encontrei. - Ele me olhou com um riso safado nos lábios. - E sim, conheço Sofia, de outros carnavais.

- Ta, mas agora é minha vez de perguntar, de onde vocês se conhecem? - eu indaguei curiosa.

- O Kaio namorou a minha irmã. - Erick disse.

Eu olhei para o Kaio imediatamente.

Aquela garotinha tinha namorado com o Kaio? Eu não estava acreditando nisso.

Definitivamente ele tinha um péssimo gosto.

- Puta merda. - Eu exclamei. - Isso é realmente curioso.

Fui sarcástica.

- Não foi bem um namoro, mas ela espalhou pra todo mundo que era. - Ele revirou os olhos. - Pelo amor de Deus, Erick. Não seja igual a sua irmã e não fique espalhando mentiras para queimar o meu filme. Que empata foda...

Ele respirou fundo.

- Não minta na minha cara, você sabe sim que foi namoro, tive que aturar a reconciliação de vocês várias vezez.- Ele respondeu ao Kaio rindo.

- Vamos embora logo. Eu estou louca pra sair daqui. - Rebeca reclamou fazendo todos olharem pra ela, na tentativa de fugir daquele assunto.

- Não vai me deixar sozinho aqui, vai? - Kaio se aproximou sussurrando em meu ouvido.

- Nós vamos para um bloco de rua. Se quiser vir com a gente... - sugeri dando de ombros.

A nossa história ainda não havia acabado, mas eu não ia ficar aqui me rastejando.

Ainda mais porque tinha acabado de descobrir essa história ridícula dele com a irmã de Erick, o que embrulhou meu estômago.

- Eu vou, não tem mais nada aqui pra mim, você já está indo embora mesmo. - Ele concluiu eu ri convencida.

Rebeca e Erick se entreolharam e foram saindo, eu os segui e consequentemente Kaio veio atrás.

Deixamos aquela casa o mais rápido que conseguimos. A viagem até o bloco foi cheia de lembranças, todos fazíamos questão de relembrar como havia sido o tempo de escola.

Pra mim foi péssimo, mas eu não precisava admitir aquilo ali para todos.

Kaio me olhava de relance às vezes e eu insistia em provocá-lo ignorando-o.

Jamais pensei que iria encontrá-lo quando marquei a viagem de volta e confesso que foi uma surpresa mais que agradável.

Quando chegamos a rua estava lotada, caminhamos entre a multidão tentando se infiltrar.

Como eu amava o calor humano. Eu adorava todo aquele clima de carnaval.

A música tocava alto e as pessoas dançavam tocando umas nas outras. Eu não estava mais em mim. Queria me divertir.

- Faz tempo que eu não vinha curtir isso. - disse dando pulinhos.

- Eu ainda não sei como você consegue viver naquele país sozinha. - Rebeca disse olhando ao redor.

Eu dei de ombros.

- Pode ter certeza que sozinha eu nunca estou. - disse rindo.

Kaio me jogou um olhar estranho, eu apenas ignorei.

- Deve ter sido uma experiência legal. - Ele disse ao meu ouvido para que eu escutasse.

A música estava alta, era quase impossível escutar as pessoas ao meu redor.

- Ainda está sendo porque eu moro lá. - Eu disse de volta.

- Então vamos fazer essa viagem de volta ao lar ser inesquecível, ok? Para você ter vontade de voltar mais vezes. - Ele piscou pra mim.

- Com certeza. Espero que me ajude nesse processo. - Eu disse o puxando pra mim e olhando nos seus olhos.

- Essa é minha intenção. - Ele rebateu antes de me pegar desprevenida com outro beijo.

Aquele cara havia me deixado incendiando.

Erick nos olhou achando a cena muito estranha, mas Rebeca o puxou fazendo-o olhar pra ela enquanto ela dizia algo que eu não podia ouvir.

Eu queria ver o trio elétrico que estava passando melhor então pedi a ajuda de Kaio, ele não recusou, se agachou no meio de todos enquanto eu subia pelos seus ombros e em seguida ele me levantou rapidamente enquanto eu me segurava firme para não cair.

Eu tive uma visão ampla de todo o lugar, parecia que estávamos em um formigueiro. Aquilo era realmente bom.

Eu tentava me concentrar na festa ao meu redor, mas nada me tirava da cabeça que eu devia fazer alguma coisa urgente. Eu precisava consumir aquilo que eu queria há muito tempo.

Mas antes de qualquer coisa eu precisava de mais uma bebida, eu parecia ser um pouco sonsa mais a verdade era que eu não era tanto assim, por isso tentava me soltar um pouco mais com o álcool.

Pedi para que Kaio me colocasse no chão depois de alguns minutos, eu não podia abusar da sua bondade.

Aquilo era tão estranho, parecíamos íntimos e eu não podia evitar ficar desconfortável.

- Eu preciso beber algo, vou ali e já volto. - Avisei a todos dando as costas para ir até uma banca de bebidas.

Me espremi entre as pessoas tentando passar, foi uma luta pra chegar ao outro lado onde as coisas estavam mais calmas. Quando dei por mim alguém segurou no meu pulso me fazendo olhar a pessoa. Kaio estava ali parado atrás de mim.

- Eu não podia te deixar vir só. - Ele disse e em seguida pediu uma bebida no meu lugar para o vendedor.

- Eu ainda consigo fazer algumas coisas sem ajuda. - Eu disse rindo.

- Sei que você sabe que não estou aqui atoa, Sofia. Eu só vim pra esse lugar por sua culpa. Eu odeio aglomerado de pessoas. - Ele disse pagando o senhor que deu pra ele uma garrafa de vodca.

Eu sei o que ele queria, me levar pra cama.

Não tinha nenhum problema nisso, mas eu também me sentia incomodada lá no fundo, porque era isso que homens faziam com as garotas que eles queriam pegar.

Jogavam conversa fora.

Ele colocou a bebida na minha boca, ele definitivamente queria me deixar bêbada. Eu iria aceitar, era óbvio.

Era bom saber que ele estava aqui por minha causa, nunca pensei que alguma vez Kaio Martins se sentiria submisso a mim. Não que ele estivesse mas parecia.

- Estamos no carnaval, você esperava calmaria? - passei meus dedos pelos meus chifres de diabinha. - O que você espera de mim hoje?

Minha pergunta havia o pego de surpresa, mas então ele simplesmente riu como se fosse óbvio.

- Eu não espero, eu só quero que você me ofereça tudo o que tem a oferecer. Quero seus segredos mais sórdidos para mim hoje. - Ele mordeu os lábios. - Pode ser?

Peguei a garrafa da sua mão abrindo-a.

- Vou pensar no seu caso. - Quando abri virei o líquido da garrafa direto na minha boca. - Não é porque eu esperei muito por isso aqui. - Apontei para nós dois. - Que vai acontecer tão fácil assim.

Ele me olhou de uma maneira diferente. Algo em mim havia mudado por completo, eu me senti como se tivesse voltado aquela época da escola, eu me sentia frágil.

E por mais que não parecesse, eu podia ser extremamente quebradiça.

Ele balançou a cabeça positivamente confirmando algo que eu tinha certeza que ele não podia imaginar o que era.

Eu mudei de ideia. Seria fácil sim, aliás, ele não era qualquer um, era Kaio Martins. A minha perdição.

- Me leva pra sua casa? - eu perguntei no ouvido dele.

Ele riu, era um riso simples, mas que de alguma forma havia me derrotado.

- Agora mesmo. - Ele disse pegando a minha mão e me levando pela multidão

Antes de ir relutei em pegar meu celular, não queria ser roubada mais a essa altura, a minha adrenalina estava a mil, mandei uma mensagem para Rebeca dizendo que eu ia pra bem longe dali com o Kaio.

E lá estava eu, me sentindo um pouco tonta, mais bem lúcida pra guardar aquele momento para o resto da minha vida.

Eu me sentia uma estúpida. Assim como eu me senti a uns anos atrás.

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