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Diaba, Um Romance de Carnaval.

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Mayla Silva
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Notas

Resumo

Sofia sempre foi autossuficiente e madura, nunca precisou de ninguém para tomar suas próprias decisões e todos sabiam o quão "feliz" ela estava em outro país, mas na verdade as coisas não eram bem assim, e estavam longe de ser. Depois de 5 anos morando em Portugal decidiu matar a saudade e passar o Carnaval no Brasil. Ela só não imaginava encontrar Kaio Martins, o homem por quem ela era apaixonada desde a escola e nem se quer um dia a olhou como mulher, até o Carnaval desse ano, até eles entrarem de paraquedas um na vida do outro trazendo algumas atribulações e um romance de tocar o coração.

amorromance

UM

Serena, eu me sentia serena e em paz.

O que era curiosamente estranho já que normalmente eu vivia elétrica e pegando fogo a todo momento, em sentido figurado, é claro.

Eu era uma mulher normal, apenas um pouco mais agitada e rebelde que as outras, só que ainda sim bastante comum.

Eu havia voltado para o Brasil exclusivamente para aproveitar o Carnaval, algo que era bem típico daqui e que eu fazia questão de participar.

Eu amava ir para as ruas, sentir todo aquele calor humano, dançar sem parar e me fantasiar todos os dias.

Era uma data importante e inesquecível, pelo menos para mim.

Se tornou a minha data favorita do ano, depois do meu aniversário e Réveillon, é óbvio. Com certeza esse é um momento especial que eu tirava do caos que minha vida era para curtir com meus amigos pelo menos um pouco, e de fato, era um momento que ninguém poderia me tirar.

Nem o idiota do meu chefe, aquele cretino subordinador.

Ele realmente tentou arruinar a minha viagem, felizmente não conseguiu.

Mas ok, está tudo certo agora. Não quero ter que me estressar de novo, então é melhor nem pensar nisso.

Quando resolvi ir morar em Portugal não imaginava que seria tão bom, tanto que deixei de lado meu país natal, não foi de propósito, é sério, mas as coisas mudaram.

Minha família sempre havia me dado total apoio, eles confiavam cegamente em mim para me virar sozinha longe deles, sempre fui independente e emocionalmente estável e capaz.

Fazia algum tempo que eu não os via, e agora eu estava aqui, de novo.

Eu não podia explicar a sensação, eu sentia saudades, mas não havia nada que me prendesse a este lugar.

Quando finalmente cheguei em frente à casa dos meus pais tomei um choque ao perceber que nada havia mudado, nem sequer uma pedra estava fora do lugar. Aquilo me fez sorrir ao lembrar das coisas que vivi nessa casa durante toda minha infância e adolescência.

A nostalgia era inevitável, acho que todos sentiam essa sensação ao voltar para a casa.

Eu decidi que iria estudar fora com dezoito anos e aqui estava eu, com vinte e três, voltando cinicamente, cinco anos depois.

Dizem as más línguas que sempre um bom filho à casa retorna. Eu que o diga.

- Eu estou tão empolgada por você está aqui. - Rebeca disse animada me fazendo sair do meu devaneio. - Já escolheu a fantasia?

Rebeca era minha irmã mais velha, eu sempre a imitava quando éramos pequenas, ela era meu ícone heroico, tudo que ela fazia parecia ser completamente incrível aos meus olhos e ela sempre se orgulhou disso. Éramos inseparáveis, quase gêmeas se não fosse pelo fato dela ter sido apressada e ter nascido três anos antes.

- Não sei, estou em dúvida entre anjo e diaba. - Respondi inocentemente pensativa.

Todos na sala começaram a rir.

Nesse momento me perguntei se tinha dito algo de errado.

- É sério isso? Todos sabemos que de anjo você não tem nada. - Erick, o namorado de Rebeca disparou.

- Ainda me lembro da vez em que você quase bateu em uma professora porque ela havia te dado uma nota errada. - Minha mãe relembrou como se tivesse sido um fato histórico.

Eu sorri cautelosamente um pouco constrangida.

Aquele dia havia sido icônico, eu estava com ódio pois precisava passar em matemática e Deus sabia o quão ruim eu era na matéria, tanto que havia agarrado a ideia com unhas e dentes de estudar que nem uma louca durante duas semanas sem parar, tudo para poder tirar um dez na prova.

Se eu consegui? Não, é claro que não! Mas tirei um belo de um oito, o que era suficiente para quem estava no fundo do poço.

Aquela mulher não podia mudar isso apenas porque não estava usando seus óculos.

Eu iria até o inferno para defender o fato de que eu estava certa.

- Ou então, o dia em que eu te peguei aos beijos com um moleque em cima da sua cama. Não é mocinha? - meu pai completou o amontoado de argumentos contra mim com cara de poucos amigos.

Eu poderia esconder minha cara num gigantesco buraco agora.

Fiquei vermelha imediatamente.

Aquele assunto tinha que ter ficado no passado junto com todos os meus outros podres, para que jogar tudo isso no ventilador agora? Jamais pensei em ser pega no flagra pelo meu próprio pai, foi um dos piores dias da minha vida, pensei que ia ser expulsa de casa, me senti culpada, porém, o meu pai era muito calmo e nada passou de uma conversa séria seguida de um castigo bem rígido.

E não adiantou nada, a história de levar garotos pra casa se repetiu várias vezes, só que, das outras vezes eu fui mais esperta e ele nunca mais descobriu.

- Como que eu nunca fiquei sabendo disso, Sofia? - minha mãe perguntou espantada enquanto me olhava surpresa.

Eu ri cinicamente.

- Pai... - resmunguei manhosa. - Eu pensei que isso ia ficar só entre a gente e do nada você vem e fala na frente de todo mundo. - falei cinicamente colocando a mão na cabeça.

Era algo íntimo.

- Sofia, pelo amor de Deus, isso faz anos, você acha mesmo que alguém vai se importar? - meu pai disse passivo enquanto tomava seu café.

Minha mãe o olhou desafiadora.

- Eu me importo. - Ela disse dando de ombros e voltando a comer.

Estávamos em pleno café da manhã discutindo sobre a minha primeira aventura amorosa.

- Bom, pelo menos agora temos certeza de qual vai ser a tua fantasia de Carnaval. - Rebeca soltou no meio de toda aquela cena teatral dramática que eu criei.

- Pode ir preparar a roupa vermelha e os chifres, cunhada. - Erick gesticulou. - Você nasceu pra isso.

Me dei por vencida. No fim, eles tinham razão.

Eu era uma Diaba.

XX

- Droga, eu quero ir para a multidão e não pra uma festa de Carnaval fechada com pessoas ricas e metidas. - Eu revirei os olhos. - Por favor pessoal, eu quero beijar na boca, assim vocês estragam a minha noite.

Eu estava chateada.

Rebeca queria ir para uma festa privada de alguns amigos do Erick e sozinha eu não iria sair de casa, eu era louca, mas sabia o quão perigoso poderia ser estar só em blocos de Carnaval a noite.

- Sofia, se acalma, eu te prometo que vamos ficar só um pouco e depois vamos pro bloco. - Minha irmã tentou argumentar. - Mas agora faz o favor de parar de reclamar, porra!

Rebeca andava de um lado para outro procurando o par da sua sandália de pedraria verde.

Ela estava linda fantasiada de sereia, o que mais chamava atenção era seu cabelo loiro que agora estava colorido, tingido por tinta temporária de várias cores.

Erick havia ganhado na loteria, os homens matariam para ter Beca como namorada.

Suspirei.

Me olhei no espelho tentando me comparar, eu também não era alguém que se jogasse fora. Meu cabelo castanho claro era ondulado e curto na altura dos ombros, meus olhos eram da mesma cor e meu corpo, bom... Eu não era magra, mas tinha curvas.

A fantasia que eu estava usando me deixava ainda mais sexy.

Sorri aliviada.

Definitivamente eu também estava à altura de concorrer contra Rebeca. Nós duas éramos impecáveis!

Minha autoestima estava lá em cima. Eu tinha que me amar, se não, quem amaria?

Todas nós mulheres éramos lindas e tínhamos que tirar da nossa cabeça o complexo de rebaixamento, é impossível viver com toda essa pressão psicológica, me martirizei muito tempo por culpa disso achando que eu era gorda demais, ou magra de menos, sei lá, mas passou. Nossos defeitos no corpo nos deixavam ainda mais únicas e eu havia assumido com orgulho as minhas celulites e estrias porque todas as mulheres possuíam isso e os homens tinham que ser bem homens pra aceitar que isso não era um problema.

- Vamos garotas? - Erick apareceu na porta vestindo apenas uma cueca samba canção.

Ele mostrava seu corpo relativamente definido com uma plaquinha pendurada em si com a seguinte frase, "Sei que sou gostoso, porém, já tenho dona."

Eu ri daquilo. Coragem.

Olhei novamente para o espelho ajeitando uns últimos detalhes. Eu sabia que esse tipo de fantasia já estava ultrapassada, mas e daí? É por isso que os clichês são os melhores, porque eles têm algo único.

Eu usava um vestido vermelho de cetim com alcinhas e fenda na coxa, um chifre que piscava enlouquecidamente na minha cabeça e uma maquiagem provocante sem deixar faltar é claro o nosso astro da noite, o batom vermelho.

O objetivo era fazer os homens delirarem.

- Vamos. - concluí. Rebeca segurou em minha mão me levando pra fora do quarto e com a outra pegou na mão de Erick.

- Senti falta de sairmos os três juntos. - Rebeca sussurrou, ela estava feliz.

A última vez que saímos assim foi quando os dois foram me visitar em Portugal e fazia muito tempo.

- Temos que fazer isso mais vezes. - comentei indo para a garagem.

- Se você não morasse tão longe, talvez. - Erick retrucou rodopiando a chave do carro com a mão que estava desocupada.

A viagem de carro havia sido divertida, ligamos o rádio e fomos cantando músicas aleatórias. Parecíamos três adolescentes, só que estávamos longe disso, tínhamos muitas contas para pagar agora.

Quando chegamos ao local do evento pude ver uma casa enorme e bem iluminada. Os amigos do Erick todos tinham muita grana e faziam questão de comemorar todo tipo de festa em grande estilo e gastando muito. Quem tinha dinheiro podia se dar ao luxo, no meu caso, eu não conseguiria fazer nem um churrasco na laje.

E eu não brinco quando digo isso, vim para o Brasil parcelando minha alma.

De dentro da casa podia-se ouvir músicas de carnaval antigas e havia um entra e sai danado de pessoas com copos na mão.

Uma coisa eu não podia negar, parecia que as coisas aqui estavam bem melhores do que eu esperava.

Estranhamente eu havia gostado.

- Acho que estamos atrasados. - Erick disse enquanto andava em direção a entrada.

Eu e Rebeca o acompanhamos.

Enquanto isso eu analisava as pessoas com fantasias alegres e cheias de glitter. Eu precisava de uma bebida urgentemente.

Quando entramos dentro da casa atraímos olhares, eu não sabia dizer o porquê, talvez eles olhassem todos que chegassem ou fosse só coisa da minha cabeça.

- Não sabia que você iria vir tão bem acompanhado. - Um cara falou, surgindo absolutamente do nada em nossa frente.

Ele abraçou Erick de forma impertinente.

- Eu só ando com boas companhias. - Erick se exibiu.

Ele era um perfeito idiota.

- Eu conheço a Rebeca, mas essa aqui é uma novidade. - O cara me analisou dos pés à cabeça.

Ele era interessante, mas não fazia o meu tipo.

- Essa é minha irmã Sofia, chegou ontem de Portugal. - Rebeca me apresentou com um sorriso simpático, como sempre. - Esse é o Paulo, maninha. O anfitrião da festa.

- É um prazer. - Sorri sendo simpática. - Eu estou com sede. - Fiz menção a minha garganta. - Me deem uma licencinha.

Disse dando um passo pra trás cuidadosamente.

- Ok. Depois a gente termina a nossa conversa. - Ele disse como se em algum momento eu tivesse trocado um ótimo e longo papo com ele.

Pisquei para Beca e me distanciei deles. Eu iria começar a caçada, mas antes eu precisava não estar tão sóbria.

Comecei a andar entre as pessoas que dançavam animadas, agora a playlist de música havia sido trocada, um funk alto e estrondoso fazia o chão tremer. Esse clima do Brasil era revigorante.

As pessoas aqui tinham um gosto musical peculiar.

Andei até achar a cozinha, havia várias bebidas em baldes enormes de gelo. Pensei que esse tipo de gente teria mais classe, mas no final, eles gostavam de uma bagunça.

Peguei uma garrafa de Bloody Mery que era uma bebida azul deliciosa e em seguida um copo, o enchendo. Dei um gole e depois chupei um limão que havia encontrado mais à frente.

As coisas haviam acabado de melhorar.

Eu estava prestes a sair da cozinha quando um ser mascarado entrou.

Eu parei de andar para analisar o homem, eu não podia ver seu rosto por culpa da máscara, mas eu podia olhar amplamente seu corpo.

Ele estava com uma calça larga laranja de presidiário com alguns números nela e não usava blusa. Eu podia ter uma visão deliciosa do seu abdômen moreno e uma metralhadora de plástico pendurada por trás da sua costa, ele era alto e seus cabelos eram negros iguais a carvão e brilhavam por culpa da luz.

Eu encarei seus olhos cor de mel através do buraco que existia na máscara para que ele pudesse enxergar.

Quem era aquele homem? Eu senti uma vibração nostálgica e quente vindo dele.

Meu corpo se ligou instantaneamente e eu me senti ardendo em chamas.

Ora, ora, eu tinha achado o meu alvo da noite.

- Fico me perguntando que tipo de fantasia é essa. - falei automaticamente sem desviar o olhar.

Ele não me respondeu de primeira, andou pela cozinha até achar um copo, então começou a olhar as bebidas enquanto eu o observava.

- O que você acha que é, diabinha? - ele usou sua voz era sexy e rouca. - Creio que seja um serial killer maníaco. - Continuou. - Não tem medo?

Eu sorri abertamente.

- Nenhum pouco. - falei convincente.

Ele se serviu de uma vodca.

- Pois deveria, eu sou destruidor. - Ele disse enquanto caminhava até mim ficando extremamente próximo do meu corpo.

- Não mais que eu. - Fiquei na ponta dos pés para poder sussurrar aquilo em seu ouvido.

Ele gargalhou. Era muito boa aquela sensação. Era gostosa.

Eu nunca havia sentido aquela corrente elétrica antes.

Puta merda! Eu queria aquele cara.

- Tenho a impressão que te conheço. - Ele disse se inclinando, deixando seu rosto próximo ao meu.

Eu queria saber quem ele era. Por mim, o mistério havia funcionado, agora ele já podia tirar aquela máscara horrível do rosto.

- Só saberemos depois que você tirar isso aí. - Eu toquei com meu dedo indicador na máscara.

- Você tem razão. - Ele disse baixo. Tão baixo que quase não pude ouvir por culpa do barulho que vinha da casa.

Meu coração acelerou e eu não podia explicar o motivo. Eu sentia como se meu corpo todinho estivesse reagindo a uma droga pesada. Agora eu podia dizer com convicção que eu estava fazendo juízo ao papel de diaba.

Eu me sentia no inferno e nunca pensei que isso poderia ser tão bom.

As mãos dele deslizaram até a máscara puxando-a para trás, revelando o seu belo rosto.

Eu entrei em pânico.

Não podia ser!

Kaio Martins estava na minha frente com um sorriso sórdido na boca.

Eu podia até imaginar o que nesse momento ele estava pensando, um belo e dolorido "Te peguei."

- Olá Sofia. - Ele disse calmamente. - É bom te ver de novo.