DOIS
20|02|2017 Véspera de Carnaval
- Como você acha que vão ser as coisas na escola esse ano? - A pessoa que eu considerava a minha amiga mais próxima me perguntou.
Brenda.
Nunca tive muitos amigos, por escolha própria, é claro, porque nunca fui muito de confiar em ninguém e minha própria companhia sempre me bastou, talvez fosse independência, além de que eu só confiava em algumas pessoas nessa época de escola, todos soavam muito falsos para mim, tóxicos, interesseiros, arrogantes, zombeteiros, havia milhares de adjetivos ruins e isso nunca combinou com meu o estilo.
Sempre fui reservada.
Mas isso também não significava que eu era uma estranha que não falava com ninguém, pelo contrário, eu falava com todos mas não era tão próxima a ninguém, não do nível confidente. Minha melhor amiga era e sempre foi minha irmã e continuaria sendo ela até o fim dos tempos, ela era meu braço direito, a minha pessoa favorita no mundo inteiro.
Brenda e eu estávamos de saída para um bloco de carnaval que ia rolar na avenida Atlântica, meu pai foi amável em querer nos deixar lá depois de dizer uma lista infinita de coisas que eu deveria tomar cuidado porque ele sabia, nós sabíamos, todos sabiam, que a rua ja era perigosa no dia a dia, quanto mais no carnaval.
Mas ok, até ai tudo bem pois iriamos ficar com a galera da escola, era nosso último ano, queríamos fazer tudo ser inesquecível, além de que eu tinha planos de ir embora do Brasil então teria que aproveitar tudo em dobro porque eu não saberia quando teria a o portunidade de novo, principalmente de curtir a data comemorativa que eu mais amava na vida.
A rua inteira estava fervilhando de pessoas por todo canto, todos muito amontoados, marcamos um ponto de encontro com o restante do pessoal, o que era relativamente impossível de todos se encontrarem já que nem nós estávamos no lugar certo.
E eu tinha quase certeza que muita gente se perdeu nesse dia.
O tempo foi passando e a essa altura do campeonato eu estava muito louca, se meus pais vissem meu estado provavelmente eles me deserdariam. Eu já havia beijado algumas bocas até então, mesmo que sem querer, até porque meu intuito no carnaval nunca foi ficar com alguém, mas sim dançar muito, gritar muito... se divertir. Garotos não eram minha prioridade nesse dia, porém, algo aconteceu.
Olhei para trás por um momento, gostaria de saber se não havia me perdido do meu grupo, seria aterrorizante, mas bati o olho nele, naquele ser estranhamente cativante que emanava algo extremamente sórdido.
Suspirei.
Kaio Martins? Haviam convidado ele?
Eu realmente fiquei nervosa, não era a primeira vez e nem última que nos encontraríamos assim, mas não era como se fossemos estranhos, mas também não era como se nós se cumprimentassemos sempre, mas eu queria.
Eu gostava dele, eu queria ele, eu... eu acho que... gostava realmente dele.
Platônicamente é claro.
Eu devia ser louca, paixonada por um idiota da escola que era completamente inútil e ainda por cima um galinha.
Ele estava com uma garota que eu nunca havia visto pendurada no seu cangote, suspirei, era normal ver ele com meninas, mas essa provavelmente não era da nossa escola.
Brenda me puxou para o lado, parecia que ela também tinha ficada animada ao vê-lo.
- Prestou atenção em quem apareceu aqui? - ela falou despreocupadamente, ele não conseguiria ouvir nem que quisesse.
- Sim, quem o chamou? Ele é meio estranho, né? - nem eu mesma me enganava.
Ela sorriu, era obvio que tinha sido ela.
- Kaio é muito legal, quando combinamos de sair ele estava lá, então é claro que convidei. - ela disse dando de ombros.
Eu arqueei a sobrancelha, nunca tinha visto ela conversar tanto com Kaio assim, ele não fazia o tipo de pessoa com quem nós andávamos.
Ele era mais... mais... popular? Não conseguia explicar, esse era um conceito meio ultrapassada.
- O que você quer dizer com "legal"? - indaguei cautelosamente.
Ela umedeceu os lábios.
- Saímos algumas vezes recentemente.
Eu sorri constrangida, então era isso? Ela tinha andado se esfregando com ele? Por isso toda essa euforia?
Suspirei.
Eu não podia culpa-la. Nunca contei que achava ele interessante, já havia falado de muitas pessoas, mas dele não. Sempre tive muita vergonha em relação a confessar coisas profundas assim.
Mas foda-se, ele era só um garoto.
Mas eu realmente me chatiei, o problema não estava em ninguém, estava em mim mesma. Como que eu posso gostar de alguém e nunca nem chegar próximo do menino? Como vou culpar alguém?
Olhei ao redor fingindo me distrair com algo.
Coitada da Brenda. Ela era uma boa pessoa mas eu estava frustrada demais comigo mesma pra continuar ali.
Fui pra bem longe atrás de alguma bebida pra saciar minha mente e comecei a entornar vários copos, e quando dei por mim estava dançando com estranhos, completamente desnorteada e sem sandálias.
Olhei pro céu por um momento e descobri que já estava noite, pus as mãos no meu bolso procurando meu celular e nada.
Merda!
Haviam me roubado.
No meio do meu desespero as pessoas começaram a pular mais e mais junto com a batida da música, estava quase impossível de andar.
Eu precisava achar alguém.
Comecei a andar entre as pessoas para algum lugar que eu pudesse lembrar que fosse uma referência de encontro, mas nem sabia aonde eu estava, alguém sem querer me empurrou e eu cai sobre um buraco enorme que estava no chão me ralando inteiramente.
Que dia horrível.
Olhei para as minhas pernas e pude ver sangue escorrendo do meu joelho, porém eu não conseguia sentir absolutamente nada, então comecei a sorrir como se minha vida dependesse daquilo enlouquecidamente.
Caminhei até o meio fio da rua, algumas pessoas pasavam por mim me encarando, provavelmente deviam estar sentindo vergonha alheia de mim, e confesso que se eu me visse naquele estado também sentiria a mesma coisa.
Eu me sentei no chão e apoiei minha cabeça nos meus joelhos machucados.
Por um momento me deu uma vontade exorbitante de chorar, eu estava muito confusa.
Ele era só um menino, só um menino qualquer? Como poderíamos ser tão bobas a ponto de gostar de alguém que nem conhecemos direito? Alguém que só olhamos de relance em alguns momentos pelos corredores?
Como o ser humano tinha a capacidade disso?
Era extremamente estúpido.
- É ela ali? - aquela voz soou bem rouca logo a frente.
Aonde eu estava o som já nao estava tão alto.
- Sim! Pelo amor de Deus. - essa voz eu reconhecia. - Sofia?
Levantei a cabeça e dei de cara com Brenda acompanhada de Kaio.
Eles pareciam desesperados.
Porque os dois estavam juntos? Tanto faz, porque eu me importava tanto?
Comecei a sorrir em meio aos soluços, não conseguia me decidir se eu chorava ou ria da minha desgraça. Isso era efeito do álcool em meu corpo, destruindo todos os meus neurônios.
- Sofia? Está me ouvindo? Você está bem? - ela se agachou na minha frente.
Eu olhei para cima procurando o ser alto que estava atrás dela, meu foco era outro, não Brenda.
Ele me encarava de uma forma estranha, acho que estava na verdade me analisando.
- O que você tem? Fizeram algo com você? - as palavras saíram de sua boca de forma meio distorcida.
Ou era eu que estava ouvindo tudo distorcidamente.
- Me roubaram... - disse cautelosamente olhando nos olhos de Brenda.
- Porra! Teu pai vai te matar, garota. - ela gritou. Acho que ela realmente devia ter muito medo dele, a sorte dela era que eu não tinha.
- O pai dela é chato? - o menino atrás dela perguntou.
O que te interessa da minha vida Kaio Martins?
- Ela é filhinha de papai. - Brenda constatou.
Eu estava bêbada, um pouco alterada e sem senso comum, mas ainda assim consegui me ofender com aquilo, do que diabos essa menina estava falando?
- Cala a boca, senhora fodona! Quem você pensa que é? - eu surtei.
Eu levantei extremamente tonta, não tinha forças nas pernas.
Brenda suspirou.
- Você enlouqueceu? - Brenda me puxou pelo braço.
Eu virei bruscamente encarando o fundo dos seus olhos.
- Não sou eu que saio por ai pegando os garotos que as amigas gostam. Você devia se tocar. - eu esperniei.
Meu peito estava doendo.
Houve um silêncio absurdo causado pela minha própria mente.
Aquilo foi extremamente desnecessária da minha parte porém eu não conseguia ter controle sobre mim.
- Do que ela está falando, Brenda? - Kaio interviu na conversa se aproximando da gente.
Nesse momento os pontos se ligaram na cabeça de Brenda, muito provavelmente, e ela soube do que eu estava falando.
Era óbvio que ela soube. Não tinha como não saber.
Ela sorriu cinicamente.
- Então era isso? Por isso deu as costas para mim? Você gosta dele? - ela falou diretamente para mim ignorando Kaio.
Eu não falei absolutamente nada, e acho que nem precisava.
- Tanto faz. - sussurrei.
- Meu Deus, você é tão burra, acha mesmo que sou advinha? Como eu iria saber? Logo você, tão certinha e metódica. - ela estava debochando de mim?
- Que porra de ceninha é essa que vocês estão fazendo? - ele se exaltou. - Esse não é o momento pra lavar roupa suja.
O que eu havia visto nesse projeto de homem?
Brenda concordou com ele.
- É, isso é besteira. Vamos pra casa. - ela segurou na minha mão e me ajudou a se apoiar nela. - Você está toda machucada.
Ela não era uma má amiga, eu que era.
Me deu vontade de chorar novamente, mas me segurei.
- Amanhã isso vai doer. - Kaio disse zombando com um riso de lado.
Eu revirei os olhos.
- Quem é você mesmo? - perguntei abusadamente desdenhando dele.
Olhei diretamente para o seu rosto e Kaio brincou com sua língua rindo de forma mais cínica ainda.
Ele passou sua mão na minha cintura enquanto apoiava meu braço esquerdo sobre ele, me puxando completamente dos braços de Brenda. Em seguida ele me levantou facilmente me fazendo parecer flutuar, e de fato eu estava flutuando sobre ele.
Kaio simplesmente me carregou. E que bom, nesse momento eu estava sem força completamente nenhuma no meu corpo.
Eu não fazia ideia do que significava gravidade.
Aquele foi nosso primeiro contato, e eu jamais poderia esquecer aquele momento mesmo que eu estivesse absolutamente inebriada pela bebida, nem que eu quisesse esquecer, aquilo ficaria registrado em mim por anos.
Suas mãos eram fortes e rígidas e o toque dele era como o suporte que faltava em mim.
Eu poderia desmaiar ali.
- Eu sou uma miragem. - ele sussurrou no meu ouvido.
Aquela voz... aquela maldita voz de demônio das profundezas do inferno atingiram a minha alma.
E depois disso, sim, eu desmaiei.
