CINCO - KAIO MARTINS
Quando se é novo e não se tem muitas preocupações sua única mentalidade é ter tudo o que não se pode ter, é pensar demais, falar demais, agir demais e não ter limite algum daquilo sobre isso.
O ensino médio havia sido uma grande época para mim, as coisas se encaixavam perfeitamente, tanto em casa como fora dela. Meus pais ainda estavam juntos, eu tinha vários e vários amigos, andava em festas, era chamado para lugares e até então as pessoas queriam estar comigo, assim como as meninas também.
Não era como se eu me esforçasse para isso, eu era apenas carismático.
Estava tudo devidamente sobe controle.
Em algum momento, por birra de alguma das minhas namoradas ciumentas, chegou no meu ouvido uma fofoquinha de corredor de escola, algo clássico.
Uma garota de tal sala, de tal ano, era completamente apaixonada por mim.
Naquele momento eu sorri convencido, eu realmente senti como se tivesse o rei na barriga, mas nada, absolutamente nada acontecia depois disso.
O que eu estava esperando afinal?
Talvez estivesse tudo tão normal e "perfeito" que eu estivesse procurando algo de diferente, algo para me tirar da zona de conforto.
Não que eu me importasse mas isso estava realmente se tornando recorrente demais na minha vida.
Eu estava aguardando algo, uma resposta, um sinal, ou qualquer coisa que me confirmasse que isso era verdade. Não que eu fosse fazer algo sobre isso, ou que eu fosse dar em cima da menina.
Eu podia afirmar com toda certeza do mundo que ela não me importava tanto assim, o fato era que eu queria saber o que aconteceria depois disso, o que vinha além?
Eu sabia que existia algumas garotas que gostavam de mim, e era normal até, pensando por esse lado, porém elas sempre davam um jeito de se aproximar, mas aquela garota, aquela garota que as pessoas tanto falavam que gostava de mim parecia nem ao menos me notar.
O que me intrigou.
Sofia Alencar, o que ela tinha de diferente? Absolutamente nada.
A menos que eu realmente parasse para analisa-la, e só então eu podia achar algo, mas nunca fiz, para ser exato, não até um breve e curto período de desespero.
Ela era uma menina até que bonita, mas comum.
Só que, o fato não era esse, o fato que me deixava doido era sempre o mesmo comentário que me levava até a mesma garota que não fazia absolutamente nada além de existir.
Ela não me chamava a atenção de forma alguma.
E ela não precisava fazer isso, talvez se fizesse seria algo insuportável.
Ela passava por mim e nem me olhava, ela passava por mim e nem me cumprimentava, se por ventura do destino estivéssemos no mesmo lugar era como se eu fosse só mais um, ela não puxava assunto, não sorria para mim, não comentava as minhas piadas, ou simplesmente não achava graça.
E se eu olhasse ela de longe, ela parecia estar vivendo a vida dela normalmente sem qualquer sinal de que eu fosse pelo menos significante na sua vida. E mais uma vez destacando, eu não precisava ser, eu tinha noção disso.
Não que isso importasse, porque não, NÃO IMPORTAVA.
Mas por algum motivo aquilo virou um incômodo.
E aí eu percebi a minha total burrice e ignorância estúpida, porque se estava incomodando, então sim, importava.
Será que isso tinha a ver com algum problema psicossocial relacionado a minha infância? Talvez, acho que posso concluir que li algo sobre isso alguma vez em algum site provavelmente muito duvidoso.
Aquilo me encheu de curiosidade, apenas por birra. Apenas por querer saber qual era a dela e porque todas as pessoas a levavam a mim sempre.
E se ela gostava, qual era o motivo? Porque? Quem diabos eu era na vida dessa garota? O que tinha de tão especial assim em ser Kaio Martins? Um garoto meio complexado e esquisitamente mais magro que o normal.
Só um rosto "bonito", sendo que tecnicamente eu nem era tão bonito assim.
O que chegava a ser um pensamento engraçado me observando agora.
As minhas características não eram marcantes, eu não era um excelente aluno, e eu não era tão, tão engraçado assim a ponto de ser mais popular que os outros, na verdade, eu nem era tão popular assim, eu só tinha amigos, amigos que no final eram como a maioria, falsos.
E sobre as garotas, bom, eu era um menino no alge da minha puberdade, era claro que eu queria ficar com garotas, era claro que eu queria me divertir com todas.
Eu não queria namorar, eu não queria relacionamento, eu só queria aproveitar.
Mas isso me fez refletir por um tempo, será que ela realmente não me notava como pessoa?
Ou simplesmente ela era apenas uma estranha, ou pior, eu era um estranho e aquela menina estava apenas vivendo a vida dela.
Droga, eu realmente havia ficado preso nessa linha de raciocínio.
Até que eu parei e percebi que o problema não era mais ela, e sim eu, eu que estava à observando demais, a notando demais, era eu que não estava mais deixando escapar detalhes.
Eu estava metodicamente cuidando da vida de uma menina completamente aleatória. Mas quem se importava?
Ela não era meu tipo, ela parecia ser aquelas bonecas de porcelana altamente quebraveis porque eram muito sensíveis, e eu gostava de garotas mais brutas, com personalidade forte.
Eu a olhava e tinha vontade de ir lá e saber tudo o que me assombrava de dúvida.
Ora ela sorria, ora estava séria, ora estava perdida em pensamentos, ora ficando com garotos completamente estranhos, e em uma data completamente aleatória como no Carnaval ela estava virando bicho na rua. Um termo complexo, eu sei, mas durante todos esses anos eu percebi que no Carnaval ela se tornava uma outra pessoa, o que relativamente me dava vontade de curtir com ela.
Ela era uma confusão, tudo e nada ao mesmo tempo, como a imensidão de uma galáxia, as diversas e múltiplas informações acontecendo ao mesmo tempo numa fração de segundos.
Era cativante.
Imaginar o sorriso dela me deixava anestesiado, dopado, drogado, brisado. Milhares de adjetivos com a mesma conotação sonora.
Havia sido uma perdição.
Eu me rendi aos seus encantos sem nem tentar recuar pois sabia que não adiantaria nada.
Eu me martirizei por não a ter tocado antes, era burro, nem cogitei em olhá-la quando tive a oportunidade de tê-la para si no passado.
Quis me xingar, eu me odiei por isso.
Ela era o meu diabo particular em vestido de cetim e ela já havia me condenado por meus pecados, eu realmente estava cogitando querer descer ao inferno imediatamente porque eu necessitava ser punido.
Ela era demais e tinha veneno, era por isso que eu estava morrendo aos poucos.
Ela havia se tornado meu desejo de consumo, algo que eu olhava e apreciava, igual a um objeto raro de colecionar em uma loja de luxo, e no final eu sempre ficava com medo de entrar e gastar mais do que devia.
E isso era extremamente insano.
