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SEIS

Eu acordei meio atordoada e com bastante dor de cabeça, respirei fundo com a luz do lugar invadindo meus olhos de forma brusca, pressionei os olhos com um pouco de força tentando recobrar a consciencia.

Tinha algo de errado com a atmosfera da terra naquele exato momento.

Olhei para o lado cautelosamente e avistei um dorso musculoso, minhas mãos tremeram e eu vacilei.

Ah, não.

Não foi um sonho, então.

Talvez eu só estivesse chapada na hora mas agora eu consigo sentir o peso das minhas atitudes.

Pelo pouco que eu me lembrava havia realmente sido bom, meu corpo queimou a noite toda e minha alma havia sido destroçada em mil pedaços, Kaio era magestoso em todo o sentido da palavra.

Até no momento em que ele deveria ser extremamente libertino e perverso ele havia sido extremamente cuidadoso e gentil, quase como se estivesse tocando em uma obra de arte.

Eu ganhei, posso afirmar que soube que ganhei na vida agora que consegui o que eu sempre quis, e apesar de ter sido algo surreal, algo em mim estava se contorcendo por dentro.

Talvez a cota de desejos quase que impossiveis tivesse chegado ao fim, existia limite para tudo, estava na hora de sair do mundo de fantasias.

Levantei com cuidado procurando as minhas roupas da forma mais silenciosa possivel, a ultima coisa que eu precisava era que ele acordasse e deixasse o clima absolutamente estranho.

Foi mais dificil que eu imaginei, parecia que ele saltaria a qualquer momento da cama e me pegaria de forma desprevenida. Eu morreria.

Eu não poderia me agarrar a essa noite, era melhor eu ir embora.

Pensei se seria muita falta de educação apenas sumir, mas na verdade não importava, eu não o devia nada e nem ele a mim.

Parei no pé da cama e o observei por um segundo, as pontas dos meus dedos formigaram, o tilintar dos carros na rua me deixava ainda mais agoniada, e no fim eu só paralisei. Eu não sabia o que pensar, não foi só sexo, foi um pedaço de mim, um pedaço da minha adolescencia perdida, algo que criou raizes por muito tempo, algo que nasce e a gente sufoca para que suma, e eu nem sabia porque, mas estava feito, eu podia seguir minha vida sem culpa no final das contas.

Ele era bonito, mas ia alem disso, ele era excentrico, a linha do maxilar saltada naquele momento podia ressaltar alguma obra magnifica de Van Gogh.

Se me perguntassem agora o porque de gostar tanto dele eu não saberia responder, ele provavelmente podia me da motivos para odia-lo eternamente, talvez ele fosse ignorante com garçons ou simplesmente odiasse gatos, ele também podia ter algum defeito estranhamente secreto jamais contado, ou simplesmente não gostar dos Simpsons, ou pior, ser contra a ecologia e a favor do desmatamento da Amazonia, ele podia ser o proprio Jack estripador e eu estava aqui, depois de mais de oito anos apaixonada por ele e sem um motivo bom e plausivel para isso. Nunca tive oportunidade de conhece-lo, não sei seus gostos, suas frustações e muito menos suas felicidades, mas algo no meu destino fez com que valesse a pena eu gostar dele até agora, até o momento de hoje em que eu pude estar com ele, mas esse gosto ruim que esta na minha garganta me diz que toda essa historia supercial só serviu para ferrar com a minha cabeça.

Até porque eu irei ter vontade de mais, mais dele.

Mordi os labios e sai na pontinha do pé.

Eu estava com tanto medo de ir embora.

Abandonei a casa dele da forma mais rapida que consegui, olhei no celular e havia acabado de dar 10 da manhã, eu precisava digerir tudo isso.

Eu não fazia ideia de onde eu estava, queria muito tomar café mas não podia arriscar a ficar nas redondezas de onde ele morava, se eu ia sumir, tinha que sumir direito.

Pedi um uber para que me levasse para o centro da cidade, eu estava com muita vontade de comer algo especifico. Durante o caminho mandei mensagem para Rebeca para que ela me encontrasse, era claro que ela não viu, e se viu ignorou, então comecei a ligar incansavelmente para ela até que por fim ela decidiu que eu era importante demais para se dar ao luxo de ir me fazer companhia.

Rebeca estava acordada desde cedo fazendo algumas fotos para sua loja, o que me levou a constatar que logo depois que eu fui embora ela também foi ja que ela não gostava tanto de carnaval assim como eu.

Ela tinha uma alma velha.

Assim que cheguei no centro fui caçar a barraquinha que eu estava em mente, antes disso olhei meu reflexo em uma vidraça e conclui que eu estava um lixo, mas tudo bem, só se vivia uma vez. Amarrei meu cabelo em um coque e limpei a maquiagem do meu rosto com as mãos da forma que eu pude, ajeietei meu vestido e por fim cheguei aonde eu queria.

Na pastelaria do centro.

Eu poderia ser comparada a uma grávida, estava desejando um bom pastel de queijo com caldo de cana, desde que havia chego no Brasil os meus gostos e vontades estavam tomando vida própria.

Me sentei e fiz o pedido enquanto esperava minha irmã. Eu necessitava falar com ela, estava proxima de um colpaso nervoso. Não importava o que Beca falasse, ela sempre parecia estar certa.

Alguns minutos se passaram e ela chegou me olhando dos pés a cabeça enquanto eu devorava o pastel com um olhar culpado no rosto.

- O que fizeram com você minha pobre irmã? - zombou sentando-se na minha frente.

Eu suspirei.

- Eu também queria saber, não me sinto a mesma desde que pus os pés nesse país. - tentei dialogar com a boca cheia.

- Talvez o problema seja você, e não o país. - retrucou.

Limpei minha boca e a encarei, ela tinha razão.

- Porque está aqui? Cadê o amigo do Erick? O que aconteceu ontem? Você é completamente irresponsável, sabia? Saiu comigo, deveria ter voltado comigo.

Levei o caldo de cana para boca, eu parecia uma criança esfomeado.

Houve uma pausa.

Eu não sabia por onde começar, eu estava perdida.

- Lembra daquele garoto que eu gostava na escola? Aquele que você tentava me fazer esquecer me jogando para os teus amigos?

Ela sorriu de forma cúmplice.

- Aquele babaca cujo você nunca teve atitude de flertar na vida? Sim. Sei. - ela cruzou as pernas. - Pensei que tivesse superado.

Eu encolhi os ombros.

- Eu também pensei, até eu ir pra cama com ele ontem. - soltei de forma simples.

O queixo de Rebeca caiu, seus olhos se arregalaram e ela entrou em curto.

- Mas e o amigo do Erick? - ela perguntou e então suspirou. - Pera... é ele? Não é?

Ela deu um salto da cadeira e se aproximou mais ainda.

- Sofia, você acredita em destino, não acredita? - Continuou.

Não sei, até ontem não.

- Tanto faz, Beca. Rolou, e eu me sinto estranha. Tenho a sensação de que me dei de presente, fui muito fácil, mas também não quero me sentir culpada por isso, sou uma mulher solteira, posso viver minha vida, mas o fato de ter sido ele... bom, isso realmente mexeu comigo. - desabafei.

O mundo parecia ter parado para que eu pudesse descer.

- Por favor, sem alto piedade. Você fez o que tinha que ser feito, no seu lugar eu teria feito igual ou pior. - ela disse como se fosse óbvio. - Porque você está sendo tão paranoica? Você não deve nada a ninguém. Você veio ao Brasil para viver o Carnaval, então sinta a "magia" dele, porra.

Ela tinha sido um pouco brusca, mas eu entendi o conceito do sermão.

- O fato de eu gostar dele talvez tenha influênciado nesses pensamentos estranhos. - cosntatei.

- Já passou muitíssimo tempo, Sofia. Encare como uma ficada. Aliás, pelo que eu te conheço, posso apostar que você fugiu da casa dele, e que provavelmente vocês não irão se falar mais, então esquece isso e guarde a lembrança.

Ela tinha razão.

Eu não voltaria a vê-lo.

- O que eu faria sem você? A partir de hoje inicia a contagem de sete dias para que eu possa voltar para Portugal, é melhor eu matar a saudade e pensar no que realmente importa.

- Exatamente. Esse cara não vale a sua neurose.

Kaio Martins não era um prioridade nessa viagem.

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