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Quando Matilde estava saindo, Altea subiu as escadas externas que levavam ao andar de cima e abriu a porta, depois a fechou atrás de si. Acendeu a luz e atravessou a cozinha até o quarto, mas não entrou. Ele parou na frente da porta e ficou imóvel por alguns segundos, tentando focar naquele algo diferente que seu cérebro havia registrado com a visão periférica. Algo dourado.
Ele se virou e voltou para a cozinha. Apoiado na mesa da cozinha havia uma barra inteira de chocolate preto e branco embrulhado em seu papel alumínio dourado.
Altea olhou para ele sem tocá-lo. Ele olhou ao redor, então de volta para aquele salpico gigante de chocolate. Ele finalmente pegou. Oh sim! Isso era verdade! E era pesado também. Mas como diabos aquele chocolate foi parar na cozinha dela?
A cria que nasceu na quinta da Matilde era pequena e tenra. Altea o acariciava desde que ele chegara e, embora no início ela estivesse bastante desconfiada, depois de um tempo ela se permitiu ser abordada.
Matilde usava grandes botas marrons e tinha a saia levantada como Altea quando trabalhava no campo. Cabelo loiro amarrado em uma grande mecha na cabeça.
O céu naquele dia estava especialmente cinzento, algo positivo segundo Altea, pelo menos teria regado bem o jardim. Ele havia plantado todas as mudas e esperava que uma pequena toupeira não estragasse todo o trabalho que havia feito.
- Você está dizendo que Luigi comprou para você? -
- Luís? Mas e se ele nem sabe quem eu sou? E então como ele poderia saber onde ele morava? Ele também nunca saiu da praça, e quando cheguei lá ele já estava lá, então não pode ter nos seguido. -
Matilde largou a pá no chão e caiu de costas na grama, com os braços estendidos.
- Estou exausto. -
Dois dias se passaram desde a festa e ela ainda não conseguia explicar como aquele chocolate foi parar na mesa da cozinha. Ele não havia tocado nele, apenas o moveu da mesa para um canto do balcão da cozinha para poder se apoiar nele para cozinhar, mas o chocolate estava como novo e ele não tocou nele até saber quem o colocou lá. . . Também porque se tivesse sido roubado, ela certamente não queria ser acusada e chamada de ladra.
Naquela manhã, com muito pouca antecedência, o Sr. Marconi ligou para ela para perguntar se ele poderia pegar Sofia na escola e ficar com ela até o final da tarde, antes do jantar. Embora Altea estivesse arrasada com o trabalho nos campos, ela aceitou de bom grado, porque precisava de dinheiro.
- Então, quando vamos jantar? -
- Manhã? -
"Tenho que ouvir Rosalina e Giuliana", explicou Matilde.
- Está bem. Diga a Rosalina que se ela vier eu faço o fettuccine dela. Ontem a Silvana me trouxe uma caixa de cogumelos que o marido dela pegou quando veio buscar o minestrone. -
- Fettuccine? Então considere isso confirmado. -
Althea sorriu. Ela se levantou do chão e desenrolou a saia do canudo que havia grudado nela. Ele teve que se preparar para ir para Sofia.
*
A volta para casa não foi um pouco desastrosa. As nuvens cinzentas que ela tinha visto naquela manhã do jardim de Matilda ficaram pretas, explodindo em uma tempestade, de modo que Altea, além de correr perigosamente pela beira da estrada, sem abrigo, encharcada, também se preocupava com seu jardim e rezava que as plantas não foram danificadas.
Enquanto ela corria para casa, um carro passou por ela, encharcando-a ainda mais. Sua saia pesava e enquanto corria ela a segurava com as mãos para não tropeçar nela.
Pegou a estrada de acesso à casa e chegou sob o telhado que protegia sua porta, a tempo de preparar o jantar, pois Silvana, pouco antes de ir para Sofia, havia perguntado se podia preparar algo para ela e o marido. E como Altea poderia dizer não?
Antes de entrar, olhou para os campos, mas já estava escuro lá fora e a vista era ruim. Ela entrou na casa e se despiu perto da porta, mantendo a combinação de cor creme que estava apenas parcialmente guardada, mas também teve que ser trocada. Ela pegou a pilha de roupas encharcadas e as levou para o banheiro, mas precisava de um banho antes de lavá-las.
Lavou-se às pressas, pôs a roupa de molho e, depois de vestir um velho vestido florido que a mãe lhe deixara, correu para a cozinha e amarrou a parananza na cintura.
O chocolate ainda estava lá, no canto onde ele o havia deixado e isso mostrava que ele não podia andar sozinho e ir para onde quisesse. Sim! Eu também tinha pensado nessa possibilidade.
Ela tirou aipo, cenouras e cebolas da geladeira, tirou três latas de feijão de debaixo do armário e, apoiando-se na prateleira perto do fogão, começou a cortar legumes para o refogado. Enquanto estes chiavam na panela de barro, ele abriu os três potes e lavou os grãos em água corrente. Quando o molho estava bom e dourado, ele derramou o feijão, acrescentou água, óleo, sal e pimenta.
- Ai! Tomates. -
Ela foi até a geladeira e tirou alguns tomates, os mais vermelhos e maduros que havia, e voltou para a pia para lavá-los.
Enquanto se aproximava da panela sobre o fogo, Altea pegou uma faca, ciente de que algo estava diferente, algo errado. Assim como com o chocolate, sua visão periférica registrou algo. Uma sombra, talvez.
Enquanto cortava os tomates, seu corpo começou a ter uma reação que a confundiu, porque ela não tinha realmente pegado algo que suas mãos teriam que enrijecer e parar de cortar. No entanto, os cabelos de sua nuca se arrepiaram, um calafrio percorreu sua espinha e, de repente, tudo começou a gritar perigo.
Aquela sombra de repente fez sentido; uma forma. Seu cabelo ficou em pé e ele sentiu um calafrio correr por seu cabelo, como milhões de galhos de eletricidade.
Em um piscar de olhos, Altea largou o tomate e agarrou a grande e pesada tábua de madeira que seu pai havia feito. Ignorando o tremor em seus braços e um grito que parecia rasgar suas entranhas, ele se virou, se jogando sobre a mesa onde achava que havia perigo, e arremessou aquele grande pedaço de madeira com toda a força que tinha em seus braços.
Quando a tábua de corte atingiu o rosto de um homem com um baque, o grito dentro de Altea explodiu como um trovão. Ele continuou martelando com aquela tábua de cortar, sem saber o que realmente estava acontecendo, até perceber que aquele gesto não tinha importância. Ela caiu contra a pia. A tábua de cortar caiu no chão e Altea abriu a gaveta e pegou a maior faca que tinha.
Ela se sentiu sozinha. Seus gritos, a sopa de legumes fervendo, a chuva caindo e o trovão rugindo no céu... isso mesmo. Foi isso que a fez se sentir ainda mais confusa e assustada.
A que estava sentada na cadeira da cozinha era um homem. Um homem que não tinha quebrado ou defendido enquanto ela o espancava. Ele ficou ali, indefeso, um braço apoiado na mesa, o outro caído ao seu lado. Seu cabelo era comprido, escuro e molhado, como o de Altea. Não podia ver seu rosto porque mantinha a cabeça baixa por causa dos golpes que Altea lhe dera com a tábua de cortar.
- Quem é? Altea gritou com voz trêmula. - Oque Quer? Como você entrou? -
Silêncio.
- Você entrou pela janela? -
O menino levantou a cabeça e lentamente a virou para ela.
