Capítulo 4
"Você devia ter feito um permanente", eu disse, me jogando ao lado de Mia.
"Você sabe que nós te amamos muito. Por isso tirei essa foto", disse Nat, sorrindo e acenando com o celular no ar.
"Não. Me dá isso." Eu me lancei sobre ele, mas ele foi muito rápido.
Ele se levantou de um pulo, zombando de mim enquanto agitava o celular na minha frente. "Venha pegar", disse ele, rindo.
Eu me lancei sobre ela e a persegui por todo o quarto enquanto Mia ria, desembalando os lanches que haviam trazido.
Por fim, cansei e desisti.
Conversamos, fizemos uma guerra de travesseiros, pintamos as unhas, jogamos e assistimos a um filme de terror. A Nat ficou com muito medo e a Mia dormiu no meio do filme. AMOR
Estou deitada na cama, completamente acordada, desde esta manhã. Hoje é meu primeiro dia de trabalho e, sim, estou nervosa.
Além disso, estou sempre nervoso. Até com as coisas mais insignificantes.
Mia e Nat ainda estão dormindo.
Mia, a roncadora incorrigível, ronca tão alto que faz o teto tremer. Já lhe dissemos mil vezes que ela ronca como um trator avariado, mas ela sempre nega, dizendo que dorme como uma princesa. Sim, uma princesa muito barulhenta.
E a Nat? Ela dorme como uma pedra. Você poderia colocar uma bomba perto dela e ela nem se mexeria.
Não aguento mais.
Tiro as cobertas do lugar e saio da cama em silêncio, esticando os membros. Um chocolate quente cairia muito bem agora.
Saio silenciosamente do quarto e vou até a cozinha; minhas meias rangem suavemente contra o chão frio. O apartamento está silencioso, exceto pelos roncos de Mia, que ecoam pelo corredor como o ronco de um porco.
Pego uma caneca, aqueço um pouco de leite e adiciono uma colherada generosa de cacau. O aroma me envolve como um cobertor — quente, doce e reconfortante.
Com as mãos em concha ao redor da caneca fumegante, aproximo-me da janela da sala de estar. Abro a cortina o suficiente e me sento na beirada do sofá.
Lá fora, o mundo ainda está meio adormecido. O céu desperta lentamente, banhado por suaves tons de rosa, laranja e lavanda.
Dou um gole lento. O calor me envolve.
Está tudo quieto. Silencioso.
Por alguns minutos, permiti-me existir naquele momento. Sem nervosismo, sem expectativas, apenas eu, o nascer do sol e uma xícara de chocolate quente.
Só por um instante.
Porque a cena de ontem se insinua, sem ser convidada.
Mangas arregaçadas.
Os dois botões superiores estão desabotoados.
Aquele cabelo perfeitamente penteado... Juro que tive vontade de bagunçá-lo com os dedos!
Ele é bonito. Isso é um fato.
Bonito demais para alguém com essa atitude.
O jeito como ele me olhou ontem, como se eu fosse um grão de poeira em seus sapatos de grife.
Ele mal disse uma palavra depois de me entregar o contrato. Apenas olhares frios, instruções lacônicas e aquela sobrancelha levemente arqueada, como se eu estivesse desperdiçando o tempo dele.
E, no entanto…
Meus olhos pareciam ter vida própria, lançando olhares furtivos para seu queixo forte, a curva de sua boca, o jeito como suas veias se contraíam ao longo do antebraço enquanto ele arregaçava a manga.
Por que homens assim têm que existir? Homens que irritam a alma e também causam repulsa?
Dou outro gole no meu chocolate quente, revirando os olhos ao me ver refletida no espelho.
Controle-se!
Um resfolego repentino e um estrondo alto me fizeram pular.
Me viro e vejo Mia cambaleando até a cozinha, com o cabelo despenteado, uma meia meio desamarrada e os olhos semicerrados como se tivesse acabado de sair de uma zona de guerra.
"Você acabou de cair da cama?", perguntei, reprimindo o riso.
"Acho que tropecei no cadáver da Nat", murmura ele, caminhando lentamente em direção à geladeira. "Ela está dormindo como se tivesse sido embalsamada."
Ela não está morta, apenas está profundamente inconsciente.
Mia geme e encosta a testa na porta da geladeira. "Eu tive um sonho muito estranho... que alguém estava me acusando de roncar."
Ergo uma sobrancelha e tomo um gole do meu chocolate quente.
—Vejo que você ainda está negando.
Ela se vira lentamente, olhando para mim com os olhos semicerrados como se estivesse tentando desvendar um crime. "Que horas são?"
- Seis. -
Ela solta um suspiro dramático. "Seis da manhã? Quem é você e o que fez com a minha verdadeira amiga?"
"Não consegui dormir", murmurei, abraçando a caneca contra o peito.
"Ótimo", disse ela, bocejando tão amplamente que eu poderia jurar que vi sua alma. "Agora eu também acordei."
Ela abre a geladeira, encara o interior por cinco longos segundos e depois a fecha novamente como se o conteúdo a tivesse ofendido pessoalmente.
"O que tem para o café da manhã?", pergunta ele, desabando no sofá como se tivesse acabado de correr uma maratona.
Dou uma olhada por cima do ombro para ela. "Eu não tinha planos de cozinhar nada."
"Que decepção", murmura ele no travesseiro. "Aqui estou eu, vítima de acusações de ronco e trauma por acordar cedo, e nem sequer ganho ovos em troca!"
Murmurei entre dentes cerrados e balancei a cabeça. "Se você quer ovos, faça você mesmo."
—Eu faria, mas agora estou emocionalmente instável.
Reviro os olhos e engulo o último gole de chocolate quente. O calor é agradável, mas meu estômago já está roncando.
"Está bem", suspirei, arrastando-me para fora do banco da janela. "Vou fazer alguma coisa."
Mia levanta a cabeça o suficiente para dar um sorriso sarcástico. "Viu? Eu sabia que se eu me fizesse de vítima por tempo suficiente, você acabaria cedendo."
Entro arrastando os pés na cozinha e começo a tirar ovos e pão. —Não se acostume com isso.
Assim que estou quebrando o primeiro ovo na tigela, nós ouvimos.
O rangido do piso do corredor.
Os olhos de Mia se arregalaram. "Comece."
E então ela aparece... o cabelo de Nat espetado para todos os lados, enrolada num cobertor como um fantasma sem vontade de viver.
Ela passa por nós lentamente, descalça, sem dizer uma palavra, com os olhos semicerrados como se ainda estivesse sonhando.
Mia bufa. "Olha só. Nosso cadáver ressuscitou."
