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04 - Olivia Scott

No caminho para a minha casa, dentro do carro de Dante, o silêncio era quase tão sufocante quanto os pensamentos tumultuados na minha cabeça. Até que ele decidiu falar:

— Então, vamos ignorar o elefante na sala ou finalmente falar sobre o passado?

Revirei os olhos, sem saber se estava mais irritada com ele ou comigo mesma por ainda sentir aquele aperto no peito ao ouvir sua voz.

— Não tem nada para falar, Dante. — Respondi, tentando manter a voz firme. — O passado é passado.

— Engraçado você dizer isso. — Ele sorriu de lado, sem tirar os olhos da estrada. — Porque parece que ainda estamos presos nele.

— Só porque você apareceu do nada e bagunçou tudo de novo. — Retruquei, cruzando os braços. — Você acha que pode simplesmente voltar, casar comigo por acidente e agir como se nada tivesse acontecido?

Dante soltou uma risada baixa, mas havia algo sombrio na sua expressão quando virou o rosto ligeiramente para me olhar.

— Eu não voltei por você, Liv. Nem tudo gira em torno da sua vida perfeita com o papai querido.

— Perfeita? — O sarcasmo na minha voz quase queimava. — Você não sabe nada sobre a minha vida.

— Sei mais do que você imagina. — Ele murmurou, antes de voltar a focar na estrada.

E foi só nesse momento que percebi que algo muito maior estava escondido nas entrelinhas. Ele e meu pai tinham uma história sombria, mas eu não fazia ideia do quão fundo isso ia.

Quando paramos em frente à minha casa, Dante desligou o motor, mas permaneceu sentado, o rosto sério.

— Você não vai entrar? — Perguntei, confusa.

Ele riu, sem humor.

— Nem um pouco. Scott e eu temos… assuntos pendentes. E, confie em mim, não é algo que você quer ver.

Engoli em seco, sentindo meu coração acelerar.

— O que aconteceu entre vocês dois?

Dante se inclinou ligeiramente, seu sorriso de lado voltando.

— Pergunte ao seu pai. Talvez ele tenha coragem de responder.

Ainda sentada no carro, hesitei antes de sair. Algo me prendia ali, e não era só o olhar penetrante de Dante. Eu precisava entender, precisava ouvir algo que justificasse tudo isso.

— Você mudou, Dante. — Falei, finalmente, minha voz baixa, mas firme. — E não estou falando do cabelo ou das roupas. É como se você fosse outra pessoa.

Ele soltou uma risada amarga, encostando no banco com uma expressão que misturava cansaço e frustração.— É isso que acontece quando você passa por coisas que te quebram, LivVocê muda, ou não sobrevive.

Aquilo me atingiu como um soco no estômago. Eu sabia que ele tinha razão, mas isso não significava que eu entendia o que ele queria dizer.

— Então é isso? — Perguntei, cruzando os braços, tentando manter minha compostura. — Você desaparece, volta anos depois, casa comigo por acidente, e espera que eu simplesmente… aceite essa nova versão sua?

Dante virou-se para mim, e pela primeira vez naquele dia, seu olhar não tinha nenhuma provocação ou sarcasmo.

— Eu não espero nada de você, Olivia. — Ele disse, sua voz baixa, quase como se estivesse admitindo algo para si mesmo. — Não tenho esse direito.

— Não tem mesmo. — Retruquei, sentindo meu peito apertar. — Especialmente depois do que aconteceu. Depois de como você me deixou.

Um silêncio pesado caiu entre nós. Ele desviou o olhar, os dedos tamborilando no volante como se estivesse escolhendo as palavras certas.

— Você acha que foi fácil para mim? — Ele finalmente disse, sua voz carregada de algo que parecia ser culpa, talvez arrependimento. — Terminar com você foi a coisa mais difícil que já fiz.

— Difícil? — Soltei uma risada incrédula. — Não parecia difícil quando você virou as costas e me deixou ali, como se tudo entre a gente não tivesse significado nada.

— Significou. — Ele rebateu, rapidamente, antes que eu pudesse continuar. — Mais do que você imagina.

Fiquei sem palavras por um momento, e ele aproveitou o silêncio para continuar.

— Mas você tem razão. Eu mudei. Não sou o mesmo cara que você conheceu.

— É, eu percebi. — Murmurei, cruzando os braços. — O Dante que eu conhecia jamais teria se casado comigo por acidente e ainda faria piada disso.

Ele sorriu de lado, mas havia algo triste naquele sorriso.

— E a Olivia que eu conhecia nunca teria me beijado de novo depois de tudo.

Aquela frase me pegou de surpresa, e meu rosto queimou. Ele estava certo. Eu odiava admitir, mas algo naquela noite tinha despertado sentimentos que eu jurava estarem mortos e enterrados.

— Foi a bebida. — Respondi, rapidamente, tentando me convencer mais do que a ele.

Dante arqueou uma sobrancelha, sua expressão voltando a ser provocativa.

— Se você diz, esposa.

— Não me chame assim. — Bufei, abrindo a porta para sair.

Antes de fechar, olhei para ele uma última vez.

— Eu amei você, Dante. De verdade. Mas não sei quem você é agora, e sinceramente, não acho que quero descobrir.

E sem esperar por uma resposta, saí do carro, fechando a porta com mais força do que o necessário. Eu não olhei para trás, mas podia sentir os olhos dele me seguindo enquanto eu caminhava em direção à minha casa, pronta para enfrentar o caos que me esperava lá dentro.

Quando finalmente entrei em casa, já sentindo o peso de toda a confusão do dia, fui recebida por nada menos que um pandemônio. Jade estava esparramada no sofá, com uma expressão que só podia ser descrita como pura ressaca moral, enquanto minha tia Margot fazia um verdadeiro espetáculo no meio da sala, gesticulando como se estivesse no teatro.

— E você acha que é assim que uma dama se comporta, Jade? — Margot bradou, apontando um dedo acusador para minha prima, que sequer se deu ao trabalho de abrir os olhos. — Sumir a noite inteira e voltar com aquele… aquele… rapaz?

Jade deu um gemido baixo, apertando uma almofada contra o rosto.

— Mãe, pelo amor de Deus, me deixa morrer em paz.

Antes que minha tia pudesse rebater, a figura imponente do meu pai, Ryle Scott, surgiu no corredor, parecendo mais furioso do que eu jamais o tinha visto. Seus olhos fixaram-se em mim, e eu soube que meu casamento acidental não passaria despercebido.

— Olivia. — Ele começou, a voz carregada de fúria contida. — Você tem alguma explicação para… isso?

Ele jogou um jornal sobre a mesa de centro. E lá estava a manchete: “Filha do magnata Ryle Scott casa em cerimônia relâmpago com magnata rival.”

Meu estômago deu um nó. Como se as coisas já não estivessem ruins o suficiente.

— Pai, eu… — Comecei, mas ele me interrompeu com um gesto brusco.

— Você sabe com quem se casou? — Ele perguntou, sua voz subindo um tom.

Engoli em seco. Eu sabia que não podia mentir.

— Sim. Com Dante Callahan.

O silêncio que se seguiu foi mortal. Minha tia Margot parou de gesticular. Jade finalmente abriu os olhos, agora arregalados. E meu pai… Bem, ele parecia prestes a explodir.

— Callahan?! — Ele gritou, batendo com força no braço do sofá. — Você perdeu a cabeça, Olivia? Ele é o nosso inimigo!

— Não foi planejado! — Retruquei, cruzando os braços. — E nem ele sabia!

— Ele sabia muito bem o que estava fazendo! — Meu pai rebateu, apontando para mim como se eu fosse a culpada de tudo. — Isso é uma jogada, Olivia, e você caiu feito uma idiota!

Retruquei, a voz subindo um pouco mais do que eu pretendia. — Foi um casamento impulsivo, e eu nem lembro de como aconteceu direito!

Ryle respirou fundo, tentando manter a compostura.

— E você acha que isso fica por isso mesmo? Esse casamento é uma ameaça direta à nossa família!

— Eu não fui a única a arruinar algo, pai. — Disse, firme, mesmo que minha voz tremesse levemente. — Vamos falar sobre como você me pressionou a casar com Logan para salvar a sua pele!

O olhar de Ryle ficou mais frio

— Isso era um acordo! — Ele rebateu, vermelho de raiva.

— Um acordo que eu não assinei! — Exclamei.

— E já que estamos falando disso, Olivia… — Ele começou, pausando para efeito dramático. — Sabe quem é o próximo marido perfeito para consertar essa bagunça?

Senti um calafrio subir pela espinha.

— Não quero nem saber, pai.

— Bryan Calloway. — Ele anunciou, ignorando meu protesto. — Pai de Logan. Um homem respeitável, poderoso e disposto a assinar o contrato que você destruiu.

Eu pisquei, incrédula.

— O quê?

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