03 - Olivia Scott
Eu marchava pelo corredor do hotel ao lado de Dante, tentando ignorar a sua presença imponente e o fato de que ele parecia se divertir demais com a situação. Meu vestido de noiva já era história – deixado em um canto do banheiro como um lembrete deprimente da catástrofe que era minha vida – e eu agora estava vestida com um conjunto casual que ele, claro, tinha providenciado. O que era uma gentileza, se ele não tivesse insistido em me dizer que achava “uma graça” como eu cabia perfeitamente nas roupas que ele escolhia.
— Você parece nervosa, Liv. — Dante quebrou o silêncio enquanto caminhávamos.
— Nervosa? Eu? Por que estaria nervosa? — respondi, minha voz um pouco mais aguda do que o normal. — Talvez porque, além de tudo o que aconteceu, estou indo encontrar minha prima, que provavelmente também teve uma noite caótica.
Ele riu, aquele som baixo e quase irritantemente charmoso. — Você estava ocupada tentando destruir minha vida, e Jade estava ocupada… Bom, digamos que ela e Colin estavam se “entendendo”.
Meu cérebro precisou de alguns segundos para processar a informação.
— Minha prima… e o seu melhor amigo?
— Tão chocada assim, Liv? — Ele arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços enquanto me analisava. — Achei que depois do que você fez ontem, nada mais poderia te surpreender.
— Depois do que eu fiz?! — Minha indignação crescia em proporção direta ao sorriso dele. — Você me beijou!
— Ah, claro. Porque você era a imagem da resistência, não é?
— Eu estava bêbada, Dante!
Ele inclinou a cabeça, fingindo pensar.
— Engraçado, porque ontem você parecia muito consciente do que queria fazer comigo.
Minhas bochechas esquentaram, e minha vontade era de socar aquele sorriso do rosto dele.
— Só para deixar claro: nunca mais se insinue desse jeito.
— Claro, claro. — Ele ergueu as mãos em falsa rendição. — Mas só pra constar, se Jade e Colin podem, por que nós não podemos?
Ignorei, cerrando os dentes e voltando a andar. O que mais eu podia fazer? Explodir no meio do corredor não ia ajudar a resolver nada, e, sinceramente, meu foco agora era encontrar Jade.
Quando chegamos à porta do quarto, bati com força, impaciente. Após alguns segundos, ela se abriu, e lá estava minha prima, com os cabelos bagunçados e um sorriso preguiçoso.
— Você não sabe o que aconteceu — começamos, em uníssono.
Nos encaramos por um momento antes de Jade erguer uma sobrancelha, indicando Dante com a cabeça.
— Ah, eu sei o suficiente. Então, vai me apresentar oficialmente ao meu primo?
Eu quase engasguei.
— Ele não é meu marido de verdade!
— Por enquanto, Liv. Por enquanto. — Dante interveio, como se fosse a pessoa mais sensata do mundo.
Jade apenas sorriu e deu passagem.
— Entra logo. Acho que a gente tem muito o que conversar.
E, ah, como tinha. A começar pelo caos que me esperava na volta pra casa…
Entramos no quarto, e, para a minha completa falta de surpresa, Colin estava esparramado no sofá, com um copo de café na mão e uma expressão de quem tinha dormido maravilhosamente bem — diferente de mim, que parecia ter brigado com um rolo de papel bolha e perdido.
— Ah, a noiva do ano chegou! — Colin exclamou, erguendo o copo em um brinde improvisado.
— Não começa. — Respondi, passando por ele e jogando minha bolsa na poltrona.
Jade fechou a porta e foi direto para a cama, sentando-se como se tivesse todo o tempo do mundo. Dante, claro, encostou-se na parede ao meu lado, aquele sorriso irritante de sempre.
— Então, Liv, quer nos contar por que você está casada com ele? — Jade perguntou, cruzando as pernas e indicando Dante com o queixo.
Eu suspirei, sentindo meu rosto queimar.
— Não foi bem uma escolha consciente, tá bom?
— Acho que foi sim. — Dante murmurou, mas ignorei.
— Uma coisa levou à outra, houve bebida demais, conversa de menos, e, quando percebi, já estava assinado e selado.
— Com direito a beijo de cinema. — Dante acrescentou, e eu tive que me segurar para não lançar um sapato nele.
Jade abriu um sorriso divertido.
— Então, além de tudo, você beijou ele?
— Ele me beijou.
— Você não parecia reclamar. — Dante falou novamente, mas desta vez recebeu um olhar mortal de Jade e Colin ao mesmo tempo.
— Por favor, me diz que você vai anular isso. — Colin disse, olhando para mim com uma expressão preocupada.
— Estou tentando! — Exclamei, jogando as mãos para o alto. — Mas ele…
— Não está ajudando. — Dante completou por mim, com a maior tranquilidade.
Jade balançou a cabeça, incrédula.
— E o que o seu pai vai dizer quando souber?
Essa era a pergunta que eu mais temia. Meu pai sabia que eu tinha sido abandonada no altar, mas ele ainda não fazia ideia de que tinha me “recuperado” casando com Dante Callahan – o homem que ele odiava com cada fibra do seu ser.
— Eu… ainda não contei a ele.
Colin assobiou, impressionado.
— Isso vai ser bom. Scott e Callahan, juntos em uma sala. Melhor do que qualquer briga de boxe que eu já assisti.
Eu gemi, enterrando o rosto nas mãos.
— Isso é um pesadelo. Um pesadelo ridículo.
— Não seja tão dura consigo mesma, Liv. — Dante inclinou-se um pouco mais perto, sua voz em tom de provocação. — Às vezes, as coisas mais inesperadas levam às melhores histórias.
Levantei o rosto apenas para lançar-lhe um olhar venenoso.
— Ou às piores decisões da minha vida.
Jade riu, batendo palmas.
— Eu não acredito que estou dizendo isso, mas mal posso esperar para ver como isso vai acabar.
Eu também mal podia esperar. Ou melhor, mal podia acreditar no caos que me esperava assim que colocasse os pés em casa. Uma coisa era certa: a anulação desse casamento não seria meu único problema.
[…]
— Então, você se casou mesmo com o Dante Callahan? — Ela riu, inclinando a cabeça. No quarto do hotel, enquanto terminávamos de nos ajeitar para sair, Jade encarava meu reflexo no espelho com um sorriso travesso. — O mesmo ex que você jurou nunca mais querer ver nem pintado de ouro?
— Dá para parar de repetir isso? — Resmunguei, ajeitando o cabelo pela vigésima vez. — Como se eu não soubesse o quão surreal tudo isso é.
— Bom, surreal mesmo é o meu despertar ao lado do melhor amigo dele. — Jade piscou, divertida. — Colin tem um… charme peculiar.
— Não quero detalhes. — Fiz uma careta, mas não consegui segurar a risada. — Só me diz que você está bem.
— Estou ótima. — Ela deu de ombros. — Mas você, Liv… o que vai fazer?
Suspirei, encarando meu reflexo com um misto de frustração e resignação.
— Vou para casa. Encarar meu pai, explicar esse desastre todo… e torcer para ele não ter um ataque cardíaco.
Jade arqueou uma sobrancelha, claramente duvidando que seria tão simples assim, mas não disse nada…
