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05 - Olivia Scott

Se havia algo que eu tinha aprendido na vida era que discussões com Ryle Scott não eram batalhas vencidas pela razão. Ele era um mestre em manipular as palavras, em transformar cada argumento contrário em algo que só fortalecia seu ponto de vista.

— Pai, não acredito que você está falando sério sobre… sobre isso! Bryan Calloway? Ele tem idade para ser meu pai!

— Bryan é um homem respeitável, Olivia. Ele não vai envergonhar a família como você fez.

— Ah, sim. Porque o Logan, seu primeiro candidato, foi uma escolha tão impecável! — rebati, sentindo meu sangue ferver. — Ele fugiu com a mamãe e todo o dinheiro, e ainda assim você continua obcecado com essa ideia de contratos!

Ele franziu a testa ao ouvir o nome de Amelie, como se eu tivesse proferido algum tipo de blasfêmia.

— Logan foi um erro de cálculo. Bryan é diferente. Ele é estável, confiável, e disposto a corrigir o que você destruiu.

— O que eu destrui? — a indignação explodiu. — Você tá falando do meu casamento impulsivo com o Dante? Foi um acidente!

— Nada que envolva Dante Callahan é um acidente! — A voz de Ryle subiu uma oitava, e o tom frio de antes deu lugar a uma raiva mal contida. — Esse homem é perigoso, Olivia. Ele não se aproximou de você por acaso.

— Perigoso? Você tá insinuando o quê, exatamente? — Cruzei os braços, sentindo meu estômago revirar.

Ryle desviou o olhar por um segundo, como se o peso de algo não dito pendesse entre nós.

— Há coisas que você não sabe, coisas que não entenderia.

— Então me explique! — Exigi. — Eu já tô cansada desse teatro, pai. Desde que eu terminei com o Dante, você sempre se esquivou de falar o que realmente aconteceu. Se ele é tão perigoso assim, por que você nunca me contou?

Ele hesitou, o que foi mais revelador do que qualquer resposta.

— Essa conversa não é sobre o passado. — Ele finalmente disse, a voz mais baixa, mas não menos autoritária. — É sobre o seu futuro.

— Meu futuro, pai? — Ri, mas não havia humor no som. — Você quer me obrigar a casar comum homem que eu mal conheço e que, porsinal, é o pai do meu ex-noivo. Isso é o meu futuro?

— É o futuro que garante a sobrevivência da nossa família.

— A nossa família ou o seu bolso? — Perguntei, encarando-o.

O silêncio que se seguiu era ensurdecedor. E naquele momento, tudo ficou claro. Ryle Scott não estava interessado em mim, na minha felicidade ou no que eu queria. Ele queria o poder, o status, a segurança financeira que Bryan Calloway poderia oferecer.

— Sabe o que é engraçado, pai? — Continuei, agora em tom mais baixo, mas carregado de firmeza. — Eu sempre tentei ser a filha que você queria, mesmo quando isso me custou muito. Mas chega. Eu não vou me casar com o Bryan. Nem com ele, nem com qualquer outro contrato que você tentar me empurrar.

Ele abriu a boca para falar, mas eu ergui a mão, interrompendo-o.

— E sobre o Dante… — Pausei, tentando conter as emoções conflitantes que borbulhavam dentro de mim. — Talvez você esteja certo. Talvez ele seja perigoso. Mas sabe de uma coisa? Eu também não sou a mesma de antes. Então, boa sorte tentando me controlar.

Antes que ele pudesse reagir, virei as costas e saí, sentindo meu coração disparar.

— Olivia, volte aqui! — A voz de Ryle reverberou pelo corredor antes que eu alcançasse a porta.

Parei, hesitante, e virei apenas o suficiente para vê-lo de pé, com o rosto tomado pela mesma fúria que me aterrorizava na infância. Mas desta vez, eu não era mais a menininha assustada que corria para o quarto ao menor sinal de sua ira.

— Você acha que pode simplesmente se rebelar e virar as costas para mim? — Ele avançou alguns passos, o dedo apontado como uma arma. — Eu fiz tudo por você, Olivia. Tudo. E é assim que você retribui?

— Ah, claro, porque vender a filha para o maior lance é o que todo pai amoroso faria, não é? — Retruquei, meu tom mais ácido do que nunca.

— Você não entende o mundo em que vivemos. — Ele estreitou os olhos, e a calma calculada voltou ao seu tom, o que, francamente, era ainda pior. — Não se trata de amor, ou do que você quer. Trata-se de sobrevivência. Nossa família está no limite, Olivia, e o Bryan é a solução.

— Solução para quem? Porque eu não pedi para ser a sua moeda de troca! — Minha voz saiu alta, mas não tremida, apesar de meu peito estar em chamas.

— Pare de agir como uma criança mimada! — Ele se aproximou mais, sua presença esmagadora. — Você acha que o mundo vai te tratar com gentileza? Que pode viver de caprichos?

— Talvez, pai, o problema seja você achar que pode viver de controle! — As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las, mas não me arrependi. — Sempre foi assim, não é? Tudo tem que ser do seu jeito, custe o que custar. Você não quer salvar nossa família. Você quer salvar o seu império!

— E quem você acha que construiu isso tudo? — Ele estendeu os braços, como se estivesse cercado por um reino invisível. — Acha que teria o luxo de fazer essa cena ridícula se não fosse por mim?

Dei um passo à frente, ignorando a dor no peito que crescia a cada palavra.

— Talvez eu preferisse não ter luxo nenhum, se isso significasse ter uma família de verdade.

Por um momento, achei que ele fosse reagir fisicamente, mas Ryle apenas me encarou, seu rosto uma mistura de incredulidade e raiva.

— Você está cometendo um erro, Olivia. Um grande erro. — Ele finalmente disse, com uma calma fria que era mais ameaçadora do que qualquer grito. — E, quando perceber isso, será tarde demais.

— Se o preço para ser livre é cometer erros, então é um preço que estou disposta a pagar. — Respondi, olhando-o nos olhos antes de sair.

A caminho do meu quarto, subi as escadas tentando ignorar o tom ensurdecedor da voz de Ryle ecoando pela casa. Palavras como “irresponsável”, “vergonha” e “decepção” eram atiradas no ar como tiros de canhão, cada uma delas acertando meu orgulho já tão ferido. Eu sabia que ele não pararia tão cedo, então tinha que agir rápido, antes que a tempestade verbal viesse atrás de mim.

Quando abri a porta do quarto, lá estava Jade, estirada na minha cama como se fosse a dona do pedaço, com uma máscara de gel nos olhos e um pijama que claramente tinha roubado do meu armário. Ela se levantou ao ouvir meu suspiro exasperado, arrancando a máscara e me olhando com uma expressão de pura confusão.

— O que foi agora? — Perguntou, piscando devagar como se ainda estivesse processando o drama lá de baixo.

— Estou indo embora. — Anunciei, indo direto para o guarda-roupa, que, infelizmente, estava quase vazio porque a última vez que tentei “fazer a mala” meu pai confiscou tudo para garantir que eu não fugisse novamente. — Preciso de roupas e… sei lá, o que der pra carregar.

Jade franziu o cenho, levantando-se preguiçosamente da cama.

— Indo embora pra onde?

— Não sei ainda. Talvez pro fundo do poço. Parece um upgrade comparado a essa casa.

Ela bufou, cruzando os braços e me observando enquanto eu tentava inutilmente encontrar algo que prestasse.

— Tá, mas se você vai mesmo fugir, pelo menos leva um pijama decente. Esse aí é horrível. — Ela apontou para o conjunto amassado que eu já tinha separado.

— É o único que me resta, Jade! — Lamentei, jogando as mãos para o alto. — Meu pai basicamente saqueou meu armário da última vez.

— Que tal isso? — Ela se abaixou, puxando uma sacola debaixo da cama. Quando abriu, vi que era a “sacola da sobrevivência” que eu mesma tinha preparado meses atrás, cheia de coisas que eu imaginava precisar numa fuga improvisada.

— Isso ainda existe? — Perguntei, chocada, enquanto ela me entregava a sacola.

— Você acha que eu ia deixar o velho Ryle encontrar? — Respondeu com um sorriso convencido. — Liv, eu sou sua prima, mas acima de tudo sou um gênio.

Puxei a sacola para perto, respirando fundo enquanto fazia um rápido inventário.

— É isso, então. Minha bagagem de uma nova vida. — Disse, suspirando.

— Você está mesmo decidida? — Jade perguntou, agora mais séria, embora houvesse um brilho de curiosidade em seus olhos.

— Estou. — Confirmei, ajustando a alça da sacola no ombro. — E você vai me ajudar a descer sem ser interceptada pelo Sr. Scott e seus gritos de guerra.

Jade riu, me puxando pela mão enquanto saíamos do quarto.

— Você sabe que vou te ajudar. Mas, Liv, só uma coisa.

— O quê?

— Quando você estiver lá fora, se encontrar algum lugar bom pra comer, me avisa. Porque, honestamente, essa casa me dá fome de nervoso.

Balancei a cabeça, sorrindo, enquanto descíamos as escadas juntas. Jade sempre tinha um jeito de aliviar o peso das coisas, mesmo quando o mundo parecia desmoronar ao meu redor. E talvez fosse disso que eu precisasse para o que vinha a seguir: um pouco de leveza para enfrentar o caos.

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