#####Capítulo Três
Eu olhei para aquela mulher que mantinha o queixo erguido. Mas os olhos dela diziam outras coisas, do tipo que ela estava com medo, triste. Eu não tinha ideia de que seria uma mulher jovem chegando ao meu território, Christian apenas me informou que seria alguém da família Kray.
Por que ele não especificou?
Talvez eu poderia negar quando soubesse que seria alguém mais...jovem.
Olhei para o seu rosto e depois me sentei em uma das cadeiras, antes, puxando ela de frente para Eveline Kray. Cruzei as minhas pernas e abri o botão do meu paletó. — O que você é de Russel e Audrey Kray? — perguntei.
Eveline lambeu os seus lábios e engoliu em seco. Eu observei a sua blusa colada naqueles seios. Porra! Não tinha como não notar! A blusa estava quase transparente na frente do sutiã branco, era até possível ver os mamilos por trás da blusa e do sutiã.
Eu sei, eu era um pervertido. Mas seria impossível manter os meus olhos longe dela, a garota era atraente. Mesmo sendo loura. Eveline deu de ombros e me encarou, dizendo.
— Sou a filha deles. Como não pode saber desse detalhe tão óbvio? — revidou, a voz firme e o olhar fixo em mim.
Aquilo me faria sorrir para outras mulheres, mas não para aquela. Ela tinha a língua afiada, já era notável. Eu a olhei de cima abaixo, mantendo o meu rosto sério e indescritível. A minha intenção era de matar o pai daquela mulher e fazer da mãe uma empregada pelo resto de sua vida, pessoas como eles dois mereciam aquilo por tentarem foder o meu negócio.
Eu não sentia nenhum tormento por ser um homem tão impiedoso para pessoas que achavam que poderiam me fazer de idiota. Aprendi com o tempo que não devemos viver de emoções, isso fode com a nossa cabeça.
Os pais de Eveline Kray não eram os primeiros viciados em jogos que me davam dores de cabeças, mas o pai daquela mulher já estava passando dos limites. Ele não sabia se comportar como um homem adulto dentro dos cassinos e chamar a atenção era perigoso para mim e para os meus homens que moravam no Reino Unido.
Mas de repente algo me dizia para fazer pior. Humilhação. Era divertido e eu me fodia se as pessoas do submundo achavam aquilo terrível. Terrível. A ideia era ter os verdadeiros encrenqueiros na minha frente, mas parecia que a filha não gostava da própria vida.
Eu relaxei no meu lugar e coloquei o meu dedo contra a minha boca, não afastando os meus olhos dela. — Vai trabalhar para mim? — perguntei, com um tom de voz provocativo. Nos dois sentidos, eu não conseguia ser tão educado com mulheres bonitas.
Eveline assentiu com a sua cabeça, fingindo não notar a malícia em minha voz.
— Para manter os meus pais seguros? Sim, eu irei. — respondeu.
— E se eu disser que o que tenho em mente é um trabalho bem...complicado?
Eveline meneou a sua cabeça para os lados e deu um passo em minha direção, os meus soldados também. Ela disse. — Se acha mesmo que vou me prostituir só para entretê-lo, você está enganado! Eu sou uma pessoa exemplar e larguei toda a minha vida para estar aqui! Não vou me submeter a essa humilhação! — exclamou, os olhos arregalados até demais. Ela tinha lágrimas presas nos seus olhos mas não deixou cair uma gota sequer.
Tudo o que eu fiz foi me levantar e ficar cara a cara com ela, e como eu tinha imaginado, Eveline não demonstrou medo. Ela mantivera o olhar fixo ao meu.
— Se não queria ser humilhada então que não tomasse as dívidas dos outros!
— Dos outros? — ela gargalhou. — Eles são os meus pais! Por mais grande que a merda que eles tenham feito eu jamais aceitarei que se ferem. Deve estar sendo divertido para você porque não tem um pai e uma mãe ou porque é desprezado. — ela disse em tom severo e dando outro passo em minha direção.
Aquilo me deixou em silêncio, porque Eveline acertou em cheio sobre os meus pais. Ou melhor, pai.
A minha mãe faleceu depois de dois meses do meu nascimento, ela era uma prima de segundo grau do meu pai pelo que ele contou-me. O meu pai dizia que ela pegou uma gripe forte. Eu não sabia ao certo. E enquanto a ele, era um homem volátil e amargurado que nunca se importou comigo a não ser se eu estivesse focado no clã. Aquela era a história dos meus pais.
Uma versão mais distorcida e fodida dos que os Kray.
Desviei os meus olhos de Eveline e virei-me de costas, andando lentamente ali e observando o dia ensolarado. Apesar do meu sarcasmo sobre o que ela deveria fazer, eu não fazia ideia para onde a jogaria.
Passei a minha mão sobre o meu cabelo e respirei fundo para tentar me recompor. O assunto sobre importância aos pais tinha me fodido. Eu me virei, para olhar novamente Eveline e ela continuava com o seu olhar odioso e enojado para mim. — Ficará aqui na minha casa porque eu não sei o que faço a respeito ainda. — eu falei. — Se acha que ficar limpando as boates vai fazer com que você consiga me pagar, então está pensando errado. Eu tenho prazos para quem me deve e você não será diferente dos outros. — eu completei.
Eveline trincou a sua mandíbula e cruzou os seus braços, em seguida me disse. — Qualquer coisa é bem mais recebida do que ficar seminua para os outros e se esfregando com qualquer coisa que se move. — ele retrucou, fechando os olhos em seguida e soltando um suspiro. — Eu farei o for possível para lhe pagar e quando você tiver o seu dinheiro, nunca mais irá me ver.
— Isso parece ótimo para mim. — eu sorri forçado, irritado com aquela mulher. — Quanto menos olhar para você é melhor para mim.
Eveline também sorriu, mas era um sorriso doce. Ela sabia enganar muito bem. — Faço de suas palavras as minhas. Eu tenho uma vida de verdade. Uma casa, um carro, um emprego e uma gata. Sabe? Coisas reais e dentro da lei. Acho que você não sabe o que isso significa, não é mesmo? — perguntou com tom de provocação. Eu gostava de provocações.
Aquilo me fez sorrir e dar um passo em direção a Eveline, mas dessa fez eu fiquei bem perto a ponto de sentir o cheiro dela. Inalei aquele aroma feminino e então, eu disse.
— Bem, acredito que os seus dias de mulher honesta já acabaram. Já que agora você é a minha prioridade.
— Eu não sou a sua propriedade. — Eveline rosnou, mal deixando-me terminar de falar. Eu apenas sorri para ela. — O acordo é pagá-lo e depois eu voltarei para a minha vida. Não tente mais do que isso porque eu não tenho medo de nada! — completou.
Se o meu pai estivesse aqui com toda a certeza de que Eveline não teria mais dentes dentro da sua boca. Ela não sabia manter os ânimos em controle e não tinha filtros. Mas... Eu gostava daquilo, mesmo sendo algo perigoso, era apreciador.
Tudo o que eu fiz foi me afastar e sentar-me na beirada da mesa, para observá-la de longe. — Acordo? Eu não me lembro de fazer isso ou das cláusulas. — olhei para Rafael e Pietro, perguntando com ironismo. — Vocês se recordam de algum acordo com a senhorita Kray?
Os dois riram do meu humor, porém Pietro que me respondeu. — Hãã...também não estamos sabendo absolutamente de nada meu Don. — riu.
— Talvez a inglesa tenha bebido chá demais meu Boss. — gargalhou Rafael e nos fazendo rir em voz alta.
Somente a Eveline que estava seria, os olhos presos em meu rosto.
Eu me levantei novamente e continuava sorrindo, ao dizê-la. — Não há acordo. Esse seu comportamento pode fazer com que a dívida suba mais uma vez, e eu sei que você não quer isso. Ou quer? — eu a questionei, mas sabendo de sua resposta. Eveline piscou repetidas vezes e engoliu em seco. Ela parecia estar desconcertada.
— Não. — murmurou, abaixando a sua cabeça.
— Claro que não. — eu respondi e abotoei novamente o meu paletó. — Eu achava que os ingleses eram mais refinados. Acho que me enganei. Você ficará em um quarto para os empregados essa noite, no horário do jantar levarão a sua comida e amanhã você se levantará as 6 horas da manhã e irá me aguardar na sala de jantar. Até lá já terei algo em mente que poderá fazer um lucro alto para os seus serviços.
Eu passei por ela e cheguei perto dos meus soldados, estava prestes a voltar ao trabalho mas então, eu resolvi parar e olhar para trás.
Eveline ainda estava do mesmo jeito, de costas para mim e sem dizer nada. Eu sorri e entrei na minha casa, pelo menos eu tinha feito com que ela calasse a sua boca. Aquilo traria problemas para ela e eu seria o culpado por isso.
Mais uma tarefa fodida na lista.
*****
Já tinha anoitecido quando voltei para casa e fui direto para o meu escritório. Durante todo o dia eu não conseguia retirar Eveline da minha cabeça. Eu queria saber sobre ela, sobre os seus amigos, sobre o seu trabalho e até mesmo sobre a gata de estimação que ela contou para mim.
Ter interesse na vida de pessoas como ela nunca se passou pela minha cabeça. Eveline era o tipo de mulher que eu desprezaria em outro lugar que não estivesse vinculado com o clã. Ela não fazia o meu tipo, não chamava a minha atenção, mas a sua personalidade era instigante e eu gostava de coisas e pessoas diferentes.
Entrei no meu escritório e caminhei até a mesa, sentando-me sobre a cadeira e depois desbloqueando a tela do computador.
Em quase todos os territórios comandados pela Ndrangheta eu mantinha um contato com os Capos espalhados pela Europa, principalmente nesse continente. E o que eu mais tinha relação, era com o capo Rossi. Ele morava na Itália antes de me tornar o chefe dele e sabia o quanto dedicado aquele cara era. Então eu o designei para o um local menos chamativo do Reino Unido, mas apenas por alguns meses.
O capo Christian era leal para o clã.
Mandei um e-mail ao invés de ligar. Eu não gostava de fazer ligações, era uma coisa perigosa e também idiota. Tínhamos a internet e ela poderia fazer absolutamente tudo para nós! Inclusive mandar e-mails stalkers.
Cerca de meia hora depois Christian já tinha buscado tudo sobre a vida de Eveline, a sua competência era tão grande que eu até gargalhei. — Obrigado meu amigo Christian. — murmurei, ao abrir o e-mail com três arquivos anexados. O primeiro que eu abri era sobre a vida pessoal de Eveline. Tinha comprado uma casa há cerca de dois anos em Grays, nasceu em Grays trabalhava em Grays. — Sem expectativas de vida senhorita Kray? — disse em voz baixa.
A mulher estava parada desde que nasceu! Como alguém conseguia viver assim?
Ela fez faculdade em Londres, uma universidade não tão cobiçada e estudou por quatro anos ciências e tecnologias. Aquilo significava que ela era uma pessoa inteligente e corajosa por estudar aquilo. Eu sorrir. Eveline trabalhava em uma empresa chamada Kross Inc. do qual estava destinada a criar cálculos, planilhas, e entre outras merdas. A empresa era voltada para a tecnologia e não muito grande no ramo.
Eveline tinha 28 anos, nunca foi casada e sem filhos. Não tinha vícios e as suas rotinas eram o trabalho, ir ao bar com as três amigas depois do trabalho e fim. — Nossa, que vida de merda. — eu murmurei. A sua vida era uma droga de tão entediante que era. No arquivo mostrava que ela tinha adotado uma gata desde a época da faculdade, tinha se cadastrado em um canil inglês de animais abandonados. Eu sorrir com aquilo. Também gostava de animais, mas os gatos eram criaturas assustadoras.
Fechei o arquivo e abri o próximo, era falando sobre a sua infância e a sua família onde dizia que os pais de Eveline se viciaram em jogos desde que ela foi embora da casa deles. Eveline era a típica criança que tinha de tudo, uma infância dourada.
Aquilo me fez revirar os olhos mentalmente.
No último arquivo dizia sobre a sua vida amorosa e as suas amigas. Ela não tinha relacionamentos duradouros mas possuía amizades fortes com Margareth Watson, Pipa Lewis e Hanna Hochscheidt. Todas trabalhavam na mesma empresa.
Eu estava surpreso com o desempenho rápido de Christian e tinha me arrependido de ler coisas tão tristes como era a vida de Eveline. A mulher era conformada e acomodada com tudo o que tinha. Uma casa e um carro novo deveriam ser as suas conquistas adultas, eu tinha certeza daquilo. Ela não tinha passado obscuro, sem problemas durante a vida. Totalmente limpa...
Pensar naquilo fez-me ter uma ideia. Levantei-me do meu lugar, sorrindo e sai para fora do escritório.
Caminhei até aos fundos da casa e desci a estreita escada que levava aos quartos dos empregados. Quando cheguei ao corredor eu fui direto até a última porta, pois sabia que os outros dois quartos estavam ocupados por Nelita e Liliana. Parei diante da porta e dei uma única batida na madeira branca.
— Quem é? — Eveline perguntou.
Olhei para o chão, com as mãos escondidas nos bolsos e respondi. — Gabriel.
Ela não abriu a porta imediatamente, claro, mas depois de quase um minuto depois de me apresentar Eveline destrancou a porta e a abriu. Naquela noite ela usava uma blusa preta de mangas longas e calça jeans. — Precisa de alguma coisa? — perguntou seriamente. Os cabelos úmidos e soltos. Ela estava bonitinha.
Meneei a minha cabeça, com um sorriso no rosto e a resposta na ponta da língua.
— Você sabe fazer cálculos e tem uma ficha bem limpinha.
Eveline franziu a sua testa em resposta. Demonstrando confusão. — Sim...e o que isso tem demais? — questionou, cruzando os seus braços e olhando-me em desconfiança.
Eu queria manter aquilo até o dia seguinte, mas seria bom fazê-la não dormir toda a noite, preocupada e arrependida de estar no lugar dos seus pais. Tirei a minha mão esquerda do bolso e apoiei o meu antebraço sobre o batente da porta, os olhos desconfiados de Eveline seguiram o meu movimento e ela prendia a respiração.
Isso, era daquela forma que eu a queria.
Arqueei a minha sobrancelha direita e sorri novamente, ao dizer. — Calcular cocaína com tanta exatidão são para poucos. Eu preciso disso e o seu cérebro é ótimo para o serviço. — me curvei lentamente e sussurrei. — O seu trabalho começa amanhã. — pisquei e Eveline puxou o ar, sibilando em seguida.
— Oh porra!
