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#####Capítulo Dois

REINO UNIDO | GRAYS.

Cheguei ao trabalho atrasada. Como sempre. E todas as vezes eu dava de cara com o meu chefe Bruce e tinha que ouvir frases de comprometimento ao trabalho. As vezes eu pedia desculpas, as vezes eu passava reto!

Mas eu não fazia aquilo por querer ou porque eu esquecia de colocar o meu despertador para apitar. Quem dera fosse.

A minha vida era algo que nenhum filho sonharia em ter. Passava praticamente todas as minhas madrugadas atrás dos meus pais em locais de jogos ilegais na cidade. Principalmente meu pai. O vício dele era maior que o da minha mãe e eu era a única da família que se importava.

Os meus tios já tinham lavado as suas mãos, desistido completamente de pessoas que diziam que não precisavam de ajuda.

Mas eu não poderia desistir, eles eram os meus pais e precisavam de mim.

Sentei-me na minha cadeira e liguei o meu computador. A minha cabeça latejava e eu abri a gaveta da minha mesa e peguei a cartela de comprimidos. Peguei a minha garrafa de água e engoli o comprimido. Soltei um suspiro e olhei para a tela do computador.

— Eve? — olhei para trás e a minha amiga caminhava em minha direção usando o seu terninho favorito. Os cabelos loiros com cachos nas pontas praticamente pulavam a cada passo que Margareth dava. Ela puxou a cadeira atrás de mim e se sentou ao meu lado. — E então? Como foi a noite com o Noah? — perguntou e cruzou as suas longas pernas.

Margareth era o tipo de amiga que arranja um encontro todas as semanas para as suas melhores amigas. E éramos quatro melhores amigas. Mas eu era a sua vítima principal para os caras.

Eu olhei para ela, demonstrando o meu total desinteresse para aquele assunto.

Respondi. — Rápida. Apenas jantamos.

— Pelo menos ele te levou para jantar ao invés de levá-la direto para cama. — Margareth disse, revirando os seus olhos. — Esses são detestáveis.

Cocei a minha sobrancelha esquerda. Havia mais coisas naquele encontro de meia hora. — Ele me fez pagar metade da conta. — a minha amiga parou de apreciar as suas unhas perfeitas e me encarou, boquiaberta. Assenti para a sua surpresa. — E eu fui embora de táxi. — completei.

Noah tinha sido o quarto encontro desastre que as minhas amigas obrigavam-me, eram sempre caras babacas que queriam dividir a conta ou um riquinho que se gabava demais. Eu apenas ia para tentar esquecer dos meus problemas pessoais, mas aquilo nunca dava certo. Pois os caras se tornavam problemas irritantes na minha memória. Tinha dito a mim mesma que aquele seria o último idiota que eu sairia.

Fiz uma cara de paisagem para a minha amiga. Ela continuava de queixo caído. — Não pode ser. — falou.

Eu assenti mais uma vez. — Pode. Ele fez isso.

— Mas que...canalha! Como esse babaca teve a coragem?! Isso é o fim do mundo! Onde estão os homens coerentes e gentis? — ela se exasperou, mas falava tudo em voz baixa para não chamar a atenção do escritório. — Eles só pensam em sexo! Este é o problema e é por isso que ficarão sozinhos, somente filmes pornôs e a mão deles que lhe darão prazer. — Margareth revirou os seus olhos e se recostou na cadeira. A sua revolta por homens eram hilariantes, pois Margareth sempre estava em camas diferes quase todos os dias.

Eu não julgava o seu estilo de vida, a amava de qualquer forma, mas as vezes aquilo me preocupava bastante. O mundo era cruel com pessoas cruéis.

Balancei a minha cabeça e dei de ombros, dizendo. — A minha vida amorosa está oficialmente fechada para o público. Eu tenho muitos problemas para aguentar, não quero ter um cara para piorar a situação. — ter um relacionamento seria difícil para a vida que eu tinha. Nenhum homem suportaria ver a sua namorada saindo no meio da noite para ir atrás dos pais. Eu sabia disso e era por esse motivo que eu evitava ir longe de mais.

Toda a minha família implorava para que eu seguisse com a minha vida, pois eu era jovem. Mas eu nunca conseguia fazer aquilo, mesmo sabendo que os meus pais eram pessoas inconsequentes, eles eram os meus pais! E além de tudo, eles tinham uma doença que se chamava vício e precisavam de ajuda.

E restou somente eu para ajudá-los.

Margareth se levantou do seu lugar e passou a mão na sua calça social da cor vermelha. Ela parecia agitada com o meu encontro de merda. — Você está certa! Precisa cuidar dos seus pais e da sua vida. Esses caras que vão a merda! Não sabem o que estão perdendo. Eu preciso ir, se eu demorar um pouco mais a Pipa me mata! Nos vemos na hora do almoço.

— Okay. — murmurei e me virei de volta ao meu computador.

Quando eu estava ali sozinha, senti mais uma vez como todas as vezes o desânimo me pegar de jeito! Eu sentia a minha vida um tremendo filme trash e queria mudar aquilo. Todos os dias eram iguais. Acordar atrasada, receber bronca do Bruce, Margareth e os seus homens, computador velho e lento, almoço no Desi Indian, rir dos idiotas, voltar ao escritório, fazer inúmeras planilhas, esperar o computador desligar, esperar as suas amigas se aprontarem, ir até ao Desi Indian novamente para beber, chegar em casa, tomar banho, dar comida para o gato, assistir tevê, cair no sono, acordar com o celular tocando, ir de carro até onde meus pais estão, buscá-los bêbados e xingando caras grandalhões, pedir desculpas, dar sermões aos pais, deixá-los em casa, voltar para minha casa, chorar pela minha vida, ser consolada pela minha gata Tiffy, dormir, acordar atrasada...

As vezes não era exatamente naquela sequência, mas eram as coisas que sempre aconteciam todos os dias na minha vida. A única parte boa no meio de tanta merda que existia, eram as minhas amigas e a minha gata Tiffy. Em alguns momentos eu achava que ela já estava cansada de me consolar, mas ela ia até mim de qualquer forma.

Eu respirei fundo e arregacei as mangas do meu suéter caramelo. Tinha que trabalhar, caso contrário, seria demitida.

******

Já era a hora do almoço e eu e minhas amigas seguimos para o Desi Indian. Estávamos nos quatro sentadas envolta da mesa e ao nosso redor o lugar se encontrava abarrotado de funcionários de vários lugares.

No meu lado esquerdo a Margareth estava falando do seu último caso, que tinha ganhado na loteria por se envolver com um cara mais novo do que ela. Ela só tinha 32 anos e achava aquilo o fim do mundo.

— Ele transa muito bem! Mas eu não estou querendo nada mais que isso. Ainda preciso me descobrir. — ela piscou para nós.

Pipa, que era a nossa amiga e chefe do departamento em que a Margareth trabalhava, revirou os seus olhos depois de dar um gole no seu suco de limão. — Já faz seis anos que você ainda está se descobrindo Margareth. Que tal aquietar essa vagina? Você já fodeu praticamente Grays! — resmungou e nos fazendo gargalhar. Até mesmo a Margareth.

Ela não se importava quando dizíamos palavras ofensivas a ela. Essa era uma das suas qualidades que me fez amá-la como uma irmã.

— Você tem inveja porque vai se casar em breve e não poderá experimentar outros paus. — respondeu Margareth e gemendo em seguida. — Como alguém pode viver dessa forma?! Sem diversão, sem loucuras? Vivendo somente aquilo com alguém.

— Meu Deus Margareth! — exclamou Hanna e revirando os olhos por trás de seus óculos. — Aquilo se chama casamento e é o que as pessoas normais fazem. Estou extremamente feliz pela Pipa e o Ryan! Quando há amor não existe rotina. — ela sorriu e Margareth fez um som de alguém vomitando.

Pipa e eu rimos e Hanna mostrou o seu dedo do meio.

Ela era a mais quietinha entre nós, sempre comportada e poucas vezes se aventurava com algum cara. Hanna era a mais nova entre todas nós, mas também era a mais madura. Ela tinha chegado a empresa há cerca de dois anos e resolvemos juntá-la ao nosso trio, que agora era um quarteto!

Quando Margareth e Hanna terminaram as suas sessões de ofensas e sermões, Pipa me olhou com atenção. — E a nossa querida Eve? Margareth nos contou sobre o idiota do Noah. Ele é um merda, amiga. — suspirou.

— Um grande merda! Hoje mesmo farei um ritual para o pênis dele não subir mais! — Hanna sorriu para mim e eu tive que rir.

Margareth assentia para as nossas amigas. — Vou contratar uma drag queen para estuprá-lo e depois obrigá-lo a devolver a sua grana.

Soltei uma risada assim como as outras e balancei a minha cabeça.

— Obrigada meninas. Mas eu não me sinto mal pelo que ele fez. — revirei os meus olhos e me encostei na cadeira. — Acho que não estou preparada para ninguém no momento. Os meus pais tomam a metade do meu dia livre e a outra é o trabalho. Então o melhor é se manter longe de homens.

Hanna cruzou os seus braços e me olhou de cara feia. — Eveline, todos nós precisamos de alguém! Você não pode jogar a sua vida para baixo do tapete porque os seus pais ficam de lá para cá pela cidade. — disse-me. — Já dissemos varias vezes para você procurar um profissional e ajudar os seus pais. Já está na hora de largar a vida de babá.

Pipa também me encarava, concordando com Hanna. — Só queremos o seu bem, sabe como a amamos. Eles são os seus pais, mas você precisa se colocar em primeiro lugar. Precisa parar de pagar as dívidas absurdas deles. Em algum momento esses jogos ilegais vai custar caro para os seus pais então o melhor é você buscar ajuda para eles antes que acontece algo pior. — ela disse, acariciando o meu braço.

— Estão todas certas. E além de tudo isso, existe algo bem mais importante que a Eve precisa resolver. — Margareth falou e todas nós a olhamos, perguntando o que era. Ela sorriu diabolicamente. — Ter um pau dentro dessa xana.

— Oh Margareth! Sua vaca nojenta!

— Como você consegue ser tão escrota em assuntos sérios?

Fechei os meus olhos, colocando as mãos na minha barriga e rindo delas. Eu as amava! Elas faziam do meu dia cinza ser ensolarado! — Eu já disse que amo vocês?! — exclamei, chamando a atenção de algumas pessoas.

Elas disseram em um coro. — Sim! E nós te amamos! — soltamos uma gargalhada e continuamos com os nossos assuntos.

Aquela era uma das melhores partes do meu dia.

******

Cheguei em casa e fui direto para cozinha dar ração a Tiffy. Ela era uma gata gorda angorá com os pêlos brancos e pretos. Terrivelmente preguiçosa, briguenta e extremamente carinhosa. Bem, as vezes. Ela era uma peste!

— Tiffy! A sua comida! — chamei por ela e balancei o seu pote sobre o balcão claro da minha cozinha. Em alguns segundos o sininho da sua coleira ficava mais alto e Tiffy apareceu correndo e pulando em cima do balcão. — Aí está você, sua vadia! — acariciei a sua cabeça peluda e depois tirei o meu suéter, indo até a sala.

Peguei o controle remoto da tevê e liguei ela, onde o noticiário daquela noite estava começando.

Eu já estava prestes para ir tomar o meu tão sonhado banho, jantar e depois assistir tevê até cair no sono! Mas então o meu telefone tocou estridentemente, fazendo-me fechar os olhos com força, ali de pé entre a sala e a cozinha.

Contei até dez para ver se a pessoa do outro lado da linha iria desistir. Mas eu estava enganada. O telefone continuava a tocar. Me virei em direção a ele e caminhei rapidamente, tirando-o da base e atendendo.

Mal tive tempo de falar. — Eve! Eve minha filha! Você precisa vir até ao Discovery! Eles não querem deixar que o seu pai e eu saiamos antes de pagá-los. Mas nós pagamos! Pagamos com o dinheiro que você deixou conosco ontem! Por favor, venha até aqui. — a voz chorosa da minha mãe estava mais alterada e assustada do que o normal. Até mesmo o horário estava diferente. Mais cedo.

Eu não conhecia aquele local, nem mesmo sabia se era da cidade ou não.

Respirei fundo e me sentei no sofá, pegando a minha pequena agenda ao lado da base do telefone e depois a caneta. — Onde fica esse lugar? — eu ouvia as vozes dos meus pais ao longe e também de outras pessoas, mas ninguém tinha-me respondido. — Alô? Mãe?

— Os seus pais nos devem onze mil euros e eles só sairão daqui quando o dinheiro estiver na mão do meu chefe. Se não trouxer o dinheiro terá consequências. — rapidamente me endireitei no sofá e o meu coração se elevou com a voz com sotaque. Era uma voz de raiva e que cumpriria a promessa.

Eu não fazia ideia de como os meus pais se endividaram tão alto assim. E eu não tinha aquele dinheiro na minha conta! Estava zerada desde que comprei a minha casa!

Tentei esclarecer ao homem que eu não poderia levar aquele dinheiro, muito menos fazer um empréstimo naquela hora. Mas rapidamente calei-me e respirei profundamente.

— Eu não sei onde fica o lugar.

O homem fez uma pausa e me respondeu em seguida. — Dartford, East Hill 5890.

— Isso fica do outro lado do rio! — exclamei, me levantando.

Por que diabos os meus pais estavam indo para Dartford?! Com certeza todos os cassinos ilegais de Grays já os conheciam!

— Estou pouco me fodendo! Quero o dinheiro aqui! Se quer os seus pais vivos então faça o que estou lhe mandando! — ele desligou a ligação e eu soltei um grito. Chorando ao mesmo tempo sem saber o que fazer.

O único dinheiro que eu tinha em minha conta eram os cinco mil euros para a minha viagem de férias com as minhas amigas! Coloquei as minhas mãos contra os meus olhos e gritei novamente. Já estava cansada! Cansada de tudo aquilo! Eu deveria deixá-los se acertarem sozinhos com aquele homem, deveria me mudar de cidade ou até mesmo de país para viver de verdade! Mas eu não conseguia. Não conseguiria fazer isso com os meus pais.

Eles eram a minha família e mesmo causando tanto sofrimento para mim, eu deveria protegê-los. — Essa será a última vez! Amanhã mesmo irei procurar por ajuda! — exclamei e caminhei até ao meu quarto para trocar de roupas.

Provavelmente eles iriam querer o meu carro, todos pediam por ele, mas eu negava. Não era tão caro o meu Elantra GLS, mas estava novíssimo e ele arcaria com o restante do dinheiro.

Quando terminei de me trocar, Tiffy estava sentada no chão da sala me olhando com repulsa e advertência.

— O que você faria se fosse com os seus pais? — perguntei às pressas, enquanto soltava os meus cabelos e pegava a minha bolsa. Tiffy me olhou com desinteresse e miou, dando a volta e sumindo de minha vista. — Claro, você os deixaria para morrer. Gatos são estranhos. — corri para a porta e sai da minha casa.

Eu orava para que nada de ruim acontecesse.

******

Parei o meu carro de frente a um estabelecimento totalmente diferente dos outros que os meus pais frequentavam. Ele era grande e moderno, com luzes em neon e paredes pretas e brilhantes por fora. Tocava uma música alta e estrondosa lá dentro. Engoli em seco e fechei a porta do meu carro, quando então, eu vi os meus pais saindo para fora do cassino junto com três homens grandalhões.

Um deles andava na frente dos outros com o celular da minha mãe na sua mão. Ele tinha uma aparecia europeia também, mas não era como a minha. Parecia ser francês, ou italiano. Eu não sabia.

Quando eles estavam mais perto, aquele homem me perguntou. — É Eveline Kray?

Assenti. — Sim.

— Onde está o dinheiro?

Olhei para os meus pais, que me encaravam com olhares de pena e voltei ao meu carro. Peguei a minha bolsa e tirei o envelope com dinheiro, depois entreguei ao homem.

Ele puxou de mim bruscamente e abriu o envelope, mal contando as notas. — Aqui não tem onze mil euros. Eu quero o valor total! — ele rosnou.

Okay. Lá vai.

— Eu não tenho esse dinheiro todo que está pedindo. Esses cinco mil era para as minhas férias e tive que retirar da minha conta! Eu comprei uma casa e um carro e não posso dar esse valor a você. — dei um passo para trás e toquei no meu carro, engolindo o meu choro. — O meu carro é deste ano. Eu comprei há seis meses e posso dá-lo como parte do pagamento e...

A gargalhada do homem fez-me parar de falar rapidamente. Assim como os outros dois brutamontes que estavam de pé ao lado dos meus pais. Eu pensei que ele aceitaria o meu carro.

Estava enganada.

O homem caminhou lentamente em minha direção com as mãos para trás. Ele ainda sorria quando disse-me. — Você está vendo uma concessionária atrás de mim? Acha que somos iguais às esses lugares de lixo que os seus pais frequentam? Hã? — rosnou.

Eu engoli em seco. — Na verdade, eu pensei sim. — respondi e eles três riram novamente.

— Dinheiro vivo! Cinco mil euros não é nada! Os seus pais gastaram o que não tinham no cassino, agora se vire! Eu quero o restante do dinheiro!

— Mas...o que quer eu faça! — exclamei quando ele se virou. — Eu não tenho mais nada! Vocês querem que eu roube um banco?!

Minha mãe arregalou os seus olhos. — Eveline! Por favor! — ela suplicou pela minha língua afiada.

Eu mal a olhei, estava focada no homem de costas para mim. Foi quando então, ele disse. — O meu chefe quer falar a sós com você.

— A minha filha não ficará sozinha com tantos homens em uma sala! — o meu pai gritou.

Eu não dei ouvidos, passei por eles dois e dizia. — Deveriam ter pensado nisso quando entraram aqui. — eles ficaram para trás e eu tive que seguir um homem mal encarado que nunca vi em minha vida.

Passamos por um corredor em luzes neon e viramos a nossa direita, lá havia uma escada de ferro e subimos nela. O homem parou abruptamente de andar e parou diante de uma porta, mas olhou para mim.

— Ele está aqui dentro. — ele abriu a porta e fez um sinal para que eu entrasse. Foi naquele momento que eu me deparei com o desespero! Por que diabos eu deveria entrar ali sozinha?! E se tivesse alguém as espreitas para me estrangular?!

Nem fodendo!

Cruzei os meus braços e apontei com nervosismo para dentro da sala. — O-o que me espera lá? — gaguejei.

O homem nem olhou com tédio, acredito que ele gostaria de me estrangular.

— Só entre e converse com o meu chefe. — para a minha surpresa, ele me segurou pelo braço e empurrou-me para dentro.

— Já entendi! Nossa! — virei-me para dentro da sala e caminhei em um pequeno corredor escuro, escutei a porta sendo fechada e sobressaltei.

Que merda! Olha na onde os meus pais me meteram!

— Não precisa se assustar. — uma voz masculina disse e eu saia do corredor e entrava em uma espécie de escritório de milionários! O ambiente claro com poltronas, estantes e uma grande mesa. Atrás dela havia um homem sentado e mexendo um computador moderno e caro. Ele parecia ter uns 40 anos. Soltei um suspiro baixo e parei diante dele. Nervosa.

— Não estou assustada. — respondi com a voz firme.

Ele olhou para cima e franziu. — Você que deve onze mil euros? — perguntou.

Meneei a minha cabeça. — Não, são os meus pais.

— Se são eles que devem então por que está aqui?

— Isso é óbvio. Eles são os meus pais. Não posso deixá-los aqui sozinhos com vocês. — respondi, olhando em minha volta e me abraçando.

Estava sentindo frio naquele escritório e nervosa com aquele cara. Ele conversava tranquilamente comigo, as vezes me olhando no rosto ou olhando para o seu computador. Mesmo com o medo que eu sentia, poderia ver que ele era o único homem bonito daquele lugar.

Soltei um suspiro e esperei por sua reposta. Ele estava focado na tela do aparelho. — Calion me contou que você deu cinco mil e quer dar o seu carro. — ele disse, olhou-me e se encostou na sua cadeira. Em que momento alguém disse isso para ele?! Eu somente assenti. — Não aceitamos carros, casas ou nada do tipo como forma de pagamento. O meu chefe só curti dinheiro.

— Chefe? Achei que fosse você...

Ele balançou a sua cabeça lentamente e pegou um celular em cima da mesa. — Sou o chefe desse território. O chefe dos chefes está em Calábria. — respondeu. Ótimo, eram italianos. E por um instante pensei que fossem de alguma máfia. Como continuei calada, o homem desviou a sua atenção do celular e me encarou. — Como se chama?

Engoli em seco. — Eveline Kray. — ele assentiu.

— É um prazer Eveline. Pode me chamar de Christian. — o seu celular apitou e novamente o silêncio espalhou-se naquele lugar sombrio. Eu olhava atentamente para o tal Christian, e já tinha sacado que ele conversava com o seu chefe. Meu Deus, estou ferrada! O meu primeiro pensamento de sobrevivência foi pegar o livro grosso de cima da sua mesa e jogar na cabeça daquele homem, e depois fugir! Quando ele pigarreou, eu sobressaltei. — Relaxe Eveline. Eu estava conversando com o meu chefe. — murmurou e em seguida, levantou-se do seu lugar.

Christian era alto. Muito alto e musculoso demais para um dono de cassino ilegal. E eu dei um passo para trás quando ele se sentou na beirada da mesa. Ele cruzou os braços e respirou fundo. — O seu chefe disse alguma coisa sobre a dívida dos meus pais? — perguntei.

Christian assentiu.

— Sim. Ele dobrou o valor. Agora eles devem vinte e dois mil euros e...

Arregalei os meus olhos e exasperei em desespero. Oh merda! — O que?! Mas o que fizemos demais! Isso não é justo e...

— E! — Christian me cortou, levantando o seu dedo indicador. — Vocês terão que pagá-lo gostando ou não. O seu pai quebrou metade do meu bar porque perdeu todas as fichas. Você tem sorte de que não fui ordenado para matá-los. Então o meu chefe deu uma última chance. — trinquei a minha mandíbula e fechei a minha cara.

Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo! Como pude deixar isso ir longe demais?! Agora já era tarde.

Christian me olhava, esperando por uma resposta. Então eu dei de ombros, irritada com a situação. — E qual seria essa digníssima chance? Além dele estar querendo o dobro sem motivo algum?!

Ele sorriu. — Ele achou ofensivo você oferecer um carro de oito mil euros. — piscou e eu desviei os olhos. Que ótimo... — A última oportunidade de seus pais é viajarem até Calábria. Terão que trabalhar para o meu Boss até quitarem a dívida. — explicou e depois permaneceu quieto.

Eu queria não acreditar, mas eu não era uma burra! Assistia noticiários e séries de tevê! Christian o chamou de Boss que mora na Calábria... Ohhhh merda! Engoli em seco e seco.

— Vocês são da máfia. — não tinha sido uma pergunta.

— Os seus pais devem embarcar hoje mesmo. — Christian disse e não me respondeu. Aquilo significava que eu estava certa.

Sentia as lágrimas chegarem aos poucos, mas eu não chorei. Ergui a minha cabeça e olhei nos olhos daquele homem. Dizendo. — Não. Eu não vou deixar que eles viajem para um lugar desconhecido. Eu irei no lugar deles.

Christian soltou uma risada baixa e meneou a sua cabeça.

— Vai desperdiçar a sua vida? Você não tem culpa das merdas que os seus pais se metem. Isso é problema deles.

— Deixaria a vida de seus pais nas mãos de criminosos?! — exclamei, levantando as minhas mãos. Como ele podia dizer aquelas coisas?

Mas para a minha surpresa ele riu enquanto me dizia. — Talvez eu deixaria. Já que eles me abandonaram em um orfanato qualquer. — eu suspirei, ficando calada. — Se quer ir até a Calábria por mim tudo bem. Eu só quero que pague a dívida.

— E os cinco mil que está com aquele brutamontes mal educado? — perguntei.

Christian franziu, com um sorriso. — Pegue-o de volta. Aquele dinheiro é seu. — ele deu a volta na mesa e sentou-se mais uma vez na cadeira, mexendo em seu computador. — Calion, o brutamontes mal educado levará você para o aeroporto. Na Calábria haverá alguém para levá-la até a casa do meu chefe. E referente aos seus pais... — ele parou de falar e me encarou.

— O que?

— Terão que ir embora. Já causaram muitos problemas no Reino Unido. — respondeu.

Eu assenti. — Verei o que posso fazer...

Christian balançou a sua cabeça. — Não, Eveline. Eles que irão ver. Você irá para Calábria. Esteja pronta daqui há duas horas.

Aquele tinha sido o fim da conversa e eu saí às pressas daquela sala. Na saída o tal do Calion me aguardava. Ele me levou de volta para fora do cassino e lá estavam os meus pais com outros homens.

Minha mãe foi a primeira correr em minha direção e me abraçar. — Oh filha! Obrigada por fazer isso! O que Christian lhe propôs? — eu a olhei seriamente e depois para o meu pai, que se aproximava.

— O chefe dele aumentou o valor da dívida para vinte e dois mil. Agora terei que ir para a Calábria e trabalhar para ele. — os dois se entreolharam. Em silêncio.

Depois de alguns segundos, minha mãe pigarreou. — Bem, acreditamos em você. É tão esforçada! Não há o que temer e eu sei...

— O que? O que você sabe? — perguntei entredentes, com lágrimas em meus olhos. — Vou ter que trabalhar para um bandido até que eu quite um valor dobrado cobrado. Eu vou ter que largar a minha vida por causa de vocês! O que direi ao meu trabalho? E a minha casa?! A minha gata?!

O meu pai segurou a minha mão e eu o olhei com raiva. — Não se preocupe com isso! Iremos até o seu trabalho e inventaremos algo! Não se preocupe. — ele disse com um sorriso sem graça.

— E eu irei cuidar da Tiffy. Prometo!

— Já chega. — ouvi a voz de Calion. — Eveline precisa ir... — antes que ele terminasse de dizer alguma coisa, eu passei por eles e entrei no meu carro.

Os meus pais não deram a mínima para mim! Aceitaram que eu fosse jogada aos lobos no lugar deles. Liguei o meu carro e acelerei, chorando alto e sentindo a minha vida sendo destruída pela minha própria família.

Já estava cansada deles. Depois daquilo eu iria embora para longe deles. Para sempre!

ITÁLIA | CALÁBRIA.

Cheguei ao aeroporto chamado Dello Stretto as onze da manhã. Estava cansada e triste. Quando sai para fora do aeroporto, uma mulher alta de cabelos avermelhados e vestida em um vestido preto até os joelhos, estava encostada em um Porsche Macan e segurava uma folha escrita o meu nome. Ela usava óculos de sol e a cabeça estava erguida.

— Eveline Kray? — perguntou, o forte sotaque italiano.

Como eu iria me comunicar com aquelas pessoas?! Caminhei carregando a minha mala e bolsas e assenti. O sol estava forte naquela cidade. — Sim, sou e...

— Entre no carro. — ela ordenou em inglês e abriu a porta de trás. Quanta educação! A mulher deu a volta no carro e entrou no lugar do motorista.

Enquanto eu, olhava para as minhas malas. Me aproximei da janela do carona e bati no vidro, eu não conseguia ver nada lá dentro. Quase um minuto depois a mulher abaixou a janela e virou a sua cabeça lentamente em minha direção.

— Hã...eu preciso guardar as malas. — disse e ela suspirou, apertando um botão no painel do carro. Desviei os meus olhos e levei as malas até ao porta-malas, colocando cada uma ali dentro. Quando o fechei, entrei no carro. — Obrigada. — mas não recebi retorno algum.

Durante todo o percurso a mulher não abria a sua boca para dizer algo. Mas eu não tinha me importado, estava apreciando a belíssima Calábria ensolarada.

Depois de quarenta e cinco minutos o carro entrou em um bairro que parecia ser feito de ouro! Eram mansões maravilhosas e as ruas limpas. Eu estava boquiaberta. — Que lugar lindo. — murmurei. A mulher parou com o carro de frente a maior casa da rua. Ela tinha um tom bege com telhas alaranjadas. As janelas eram intermináveis assim como as sacadas.

Havia um portão de ferro e eu poderia ver o pátio da mansão, onde tinha três carros estacionados.

— Saia. — a mulher me disse de repente e desligou o carro.

Eu a olhei de cara feia e abri a porta. — Quanta gentileza! — exclamei e pulei para fora, indo até o porta-malas e pegando as minhas coisas.

Quando fechei a porta, a mulher apareceu em meu lado. — Não preciso ser educada com devedores do meu Don. — ela me disse e tirou os seus óculos. Tinha olhos da cor de mel e ela era muito bonita. — Agora entre e espere no jardim da casa. — ficamos nos encarando seriamente, eu queria socar a sua cara e ela queria socar a minha vagina.

Mas tudo o que eu fiz, foi obedecê-la.

Tinha chegado perto dos portões e avistei varias câmeras de segurança. Os portões se abriram lentamente e eu olhei para trás, onde a mulher estava de braços cruzados e encostada no seu carro. Revirei os meus olhos e entrei no pátio da casa, carregando as malas. — Que se dane. — murmurei e joguei as minhas coisas ali mesmo e tirei o meu casaco, ficando apenas com uma regatinha branca.

Eu não sabia para onde ir, então segui uma trilha de chão de pedras que levavam para a outra extremidade da casa. Quando dei a volta, estava em um imenso quintal com duas piscinas e varias espreguiçadeiras.

— Uau. — eu sussurrei e continuei andando. Tinha até mesmo uma lareira mais ao longe. Era incrível.

Olhei para uma mesa de vidro coberta com um teto e varias cadeiras ali, caminhei até lá para me sentar. Estava quente e eu queria me jogar naquela piscina. Me estiquei ainda de pé e segurei os meus cabelos, para fazer um coque, mas fui distraída com um susto, quando alguém disse.

— Quem é você? — o homem falou em inglês e eu sobressaltei.

Virei-me para trás e engoli em seco. Era um homem alto com cabelos claros e barba. Ele tinha a mesma semelhança de Christian mas ele era mais jovem e mais bonito. Atrás dele tinham dois homens segurando as suas armas.

Eu sabia quem ele era. Era o chefe.

— Eveline Kray. — consegui dizer. Estava ficando mais quente ali?

O homem passou a mão na sua barba, vestido com um terno colado aos músculos. Por que todos eram brutamontes e tão altos? Ele me encarou, dizendo. — Eveline Kray. Pensei que me encontraria com Russel Kray.

Balancei a minha cabeça. — Eu que estou aqui.

Ele sorriu, um sorriso diabólico que me deu medo. O homem caminhou lentamente em minha direção e os outros homens permaneceram ali parados. Quando o chefe deles estava perto de mim, eu engoli em seco. Ele tinha olhos lindos...

Fui distraída quando ele pegou a minha mão e a levou até a sua boca, depositando um beijo ali. Em seguida, ele disse-me. — É um grande prazer conhecê-la. Eu me chamo Gabriel Corleone. — Gabriel, como mesmo disse, olhou-me de cima abaixo e depois sorriu. — Seja bem-vinda a Calábria.

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