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Capítulo 4

Samira deu um sorriso, quase imperceptível.

—Eu recusei.

Um movimento na sala. Alguém no fundo se inclinou para a frente. Uma mulher perto do corredor cruzou as pernas, o olhar fixo em Samira como se estivesse assistindo a um mágico se apresentar sem rede de segurança.

—Contrataram outra pessoa—Samira continuou—. Ele confirmou que a Virgem era “parecida com a original”, descontou o cheque e deixou o país duas semanas depois.

Ela deu um passo para trás em direção ao pódio.

—Essa é a realidade do negócio. Não é preto no branco. Não é bom nem ruim. São apenas negócios e sombras.

O próximo slide mostrava um comprovante de transferência bancária. Valor censurado. Destino desfocado.

—E isso nos leva à questão ética—, disse ele. —Quando você trabalha com compradores de alto padrão, você não está apenas autenticando um objeto, mas também o direito deles de possuí-lo.

A imagem congelou. Sua voz baixou um pouco.

—Então, a cada vez, você se pergunta se está emprestando seu nome... ou vendendo seu silêncio.

Ele olhou para a multidão, que finalmente havia se acalmado.

—Você pode nunca encontrar um. Mas se encontrar, eles não se apresentarão. Eles sorrirão para o dinheiro e desaparecerão com o prêmio.

—E, no entanto, são eles que impulsionam o mundo da arte ilícita. Não os negociantes. Não os falsificadores. Nem mesmo os ladrões. É o comprador que dá sentido a cada crime.

As palavras flutuavam no ar como incenso: densas, perfumadas e de demora a dissipar-se.

Ninguém se mexeu.

O brilho do slide atrás dela realçava a silhueta de Samira. Alguns alunos na primeira fila inclinaram-se para trás, como se o peso de suas palavras os tivesse empurrado para trás. Uma garota — uma caloura, a julgar pela aparência — piscou rapidamente, como se tentasse discernir se aquele ainda era um ambiente acadêmico ou algo muito mais real.

Ao fundo, dois estudantes de doutorado trocaram um olhar. Nenhum deles anotava nada. Ainda não. Como se o encanto pudesse se quebrar se eles se movessem rápido demais.

Um professor titular idoso do Departamento de História da Arte, vestido com um casaco de tweed, estava sentado com o queixo apoiado na mão e os dedos pressionados contra a boca. Ele havia publicado cinco livros sobre plágio no Renascimento e ainda parecia estar ouvindo a verdade pela primeira vez.

Ninguém riu. Ninguém cochichou. Ninguém foi embora.

Ela ficou imóvel em frente ao escorregador, deixando o silêncio persistir por mais um instante antes de falar novamente.

"Eles não pechincham", disse ele firmemente. "Eles não perguntam sobre a sua origem. Eles a criam."

Algumas canetas retomaram seus traços, trêmulos, entrecortados, tentando recuperar o ritmo.

—Neste mundo, documentos podem ser falsificados. Mas a reputação, o seu nome em jogo, é mais difícil de falsificar. É por isso que eles recorrem a pessoas como eu. Ou como você, algum dia.

Ele olhou para trás, em direção à primeira fila.

Você nem saberá com quem está lidando, na verdade. A papelada passará por cinco mãos antes de chegar até você. Os pagamentos serão canalizados por meio de três moedas e duas ilhas. Mas, no momento em que você assinar o certificado de autenticidade, o que importa? Está feito. O objeto está legitimado. Lavado.

Ele se virou para olhar o cômodo mais diretamente.

—É isso que eles pagam. Não pela arte. Mas pela absolvição.

Apareceu um novo slide. Uma escultura romana dourada. Em seguida, numa comparação lado a lado, uma foto da mesma escultura em meio aos escombros de uma zona de guerra, com o pedestal rachado e ainda coberto de poeira.

"Isto", disse ele, apontando, "foi roubado durante a queda de um regime. Foi discretamente vendido por meio de um intermediário. Depois, por outro. E por outro. Quando finalmente apareceu em Kingsport, já não tinha antecedentes criminais e valia uma quantia de seis dígitos."

Ele deixou a imagem permanecer em sua mente antes de continuar.

Recebi uma ligação de alguém que alegava representar uma "empresa de investimentos de alto patrimônio". Esse foi o primeiro sinal de alerta. A pessoa pediu que eu confirmasse sua identidade, mas apenas verbalmente. Sem documentos escritos. Sem e-mail.

Ele examinou a sala com os olhos.

—É claro que recusei. Ou talvez não.

Um suspiro suave percorreu a sala de aula, uma mistura de espanto e desconforto.

Samira clicou novamente.

—É isso que torna os compradores de profissionais liberais perigosos. Não porque eles roubem, mas porque eles apagam.

Agora ele encarava o quarto fixamente, com uma expressão indecifrável.

—Eles legitimam o ilegal. Tornam os bens roubados intocáveis. E quanto mais discretos forem, mais respeitados se tornam.

O slide que apareceu atrás dela mudou para uma citação de um investidor privado:

—Não se trata de posse. Trata-se de demonstrar poder. Se você consegue controlar o passado, quem vai questionar sua visão de futuro?

Os olhos de Samira percorreram a sala uma última vez.

—Pense nisso da próxima vez que lhe pedirem para verificar algo que você não deveria ter visto.

Ele afundou cada vez mais no purgatório.

Eu não deveria estar lá.

Ele repete isso para si mesmo novamente, pela terceira vez esta noite, pelo menos.

Mas ela está falando, e o pensamento se dissipa.

Samira Noor Bellandi está de pé sob a luz branca e fria de uma tela de projeção, envolta em preto, sua figura emoldurada por conhecimento e sombras. Seu cabelo está preso em um coque propositalmente desarrumado. Algumas mechas soltas caem como tinta. Uma franja grossa e escura está estilizada o suficiente para revelar o ângulo acentuado de sua maçã do rosto, a curva de seu queixo.

Seus olhos cor de avelã, delineados com kohl, eram mais penetrantes do que suas palavras.

E as suas palavras já são facas.

Ele não estava fazendo anotações. Não estava fingindo ser um aluno. Estava simplesmente observando. Ouvindo.

A sala estava lotada. Quatrocentas pessoas amontoadas num corredor projetado para três. Mesmo assim, Dom sentia como se ela estivesse falando apenas com ele. Como se cada palavra fosse destinada aos seus ouvidos. Todos os olhares o evitavam. Por um instante.

Sua voz fluía suave e calmamente. Não era fingimento. Não precisava ser.

Era isso que o incomodava. Era isso que se agarrava aos seus pensamentos e não o deixava ir.

"Não se trata simplesmente de autenticar um objeto", diz ele, caminhando com passos lentos e decididos. "Trata-se de autenticar o seu direito de possuí-lo."

Ela mal tem tempo para respirar. Sente um formigamento na nuca.

Os olhos de Dom percorrem a curva da coluna dela enquanto ela se vira, o suave balanço dos quadris sob a estrutura discreta da calça de alfaiataria.

Ele fala de livros contábeis falsificados e procedência apagada, de compradores que se escondem atrás de luvas de seda e maletas de aço. Mas ele só vê ela: Samira, com sua voz como história e seu olhar como uma profecia.

Há poder em sua quietude. Na maneira como ela não busca aprovação. Todos os homens na sala já estão meio apaixonados por ela, e ela nem sequer levanta o olhar.

Ele se mexe ligeiramente na cadeira. Ele cerra os dentes.

Ela ergue o queixo e a luz ilumina seus olhos cor de avelã, um dourado de tigre derretido, contornados em preto, impossíveis de decifrar e ainda mais difíceis de esquecer. Verdes ao sol.

Eu queria saber qual era o cheiro dela, o que ela lia antes de dormir. Como era a voz dela no escuro.

Ele falou novamente. Sua voz ficou mais grave: "Você nem sempre saberá para quem está trabalhando. Mas, uma vez que seu nome apareça... Ele será seu. O crime deles se tornará seu legado."

Dom engole em seco. Sua língua está seca.
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