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Capítulo 3

Sua clientela? Ultra-exclusiva. Não dava para entrar por conta própria: era preciso ter uma recomendação. Geralmente, alguém que conhecia alguém, que certa vez pagou um milhão de dólares para recuperar uma cruz bizantina roubada sem que isso virasse notícia.

Ele colabora com museus, colecionadores particulares, governos, casas de leilão e unidades de recuperação do mercado negro. Seu nome nunca aparece em relatórios públicos, mas seu envolvimento é evidente em algumas das recuperações de arte mais delicadas dos últimos cinco anos.

Ele se especializa em artefatos roubados, antigos e religiosos, e cobra entre US$ e US$ pela autenticação, dependendo do risco, da origem e da controvérsia política.

Para casas de luxo como a Maison Aurelle ou a Maison Veyra, ela presta consultoria em exposições culturais e apresentações privadas: colaborações discretas que lhe rendem entre US$ e US$ por evento, dependendo da visibilidade e da discrição.

A empresa também administra coleções pessoais para indivíduos de alto patrimônio, ajudando-os a adquirir ativos que se valorizam, diversificar seus portfólios e demonstrar seu gosto impecável sem dizer uma palavra. Seus clientes variam de membros da realeza europeia e bilionários do Oriente Médio a CEOs de empresas de moda e magnatas hoteleiros anônimos.

Ele cobra por caso, de acordo com seus próprios termos e contrato. Suas despesas de viagem, se necessárias, seriam sempre cobertas. Sem perguntas.

Samira não responde a ninguém além de si mesma. Seu nome abre portas em salas cuja existência a maioria das pessoas desconhece.

A arte, como quase tudo, exigia tempo. A arte, como quase tudo, não era suficientemente valorizada.

Talvez fosse por isso que ela dava aquela aula. Todas as quartas-feiras, às seis da tarde, ela ministrava uma palestra para alunos de graduação e pós-graduação, ouvintes, professores e qualquer outra pessoa interessada nesse assunto subestimado. Ela tinha a sensação de que eles prestariam atenção. Logo, as pessoas estavam de pé no corredor porque não havia lugares suficientes.

Era o mesmo ritual. Todas as quartas-feiras.

Mercados de arte underground; um nome que soava árido impresso, mas que em sua boca se tornava algo sedutor. Perigoso. Necessário.

Eram cinco e cinquenta... dez para as seis.

Ela entrou em silêncio, com o cabelo preso num coque grosso, com algumas mechas soltas. Usava uma franja longa e óculos de armação preta, e os fios que emolduravam seu rosto estavam encaracolados para fora, afastando-se dele.

Esta noite, como todas as quartas-feiras, ele chegou dez minutos mais cedo para deixar tudo pronto, apenas para descobrir que a sala já estava cheia.

A sala estava lotada. Os alunos sentavam-se ombro a ombro, chão com chão, corredor contra a parede. Uma longa fila serpenteava do lado de fora da porta; alguns carregavam laptops na esperança de encontrar um pequeno espaço para fazer anotações, outros não carregavam nada, apenas ouviam. Os professores encostavam-se na parede do fundo com os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas, absortos em pensamentos. Até mesmo um membro do conselho do museu estava lá naquela noite, disfarçado; seu nome não foi mencionado, mas suas intenções eram claras.

Suas calças eram pretas, de pernas largas, mas de corte reto. Seu suéter de gola alta cinza estava por dentro da calça e enrolado até os cotovelos, combinado com pulseiras de ouro e um relógio de ouro antigo.

O curso chamava-se Mercados de Arte Underground, embora a administração lhe tivesse dado um nome mais insosso: ARTC: Proveniência, Poder e Mercados Ilícitos. Mas os alunos sabiam a verdade. Era um rumor sussurrado nas oficinas e refeitórios, como se fosse algo bom demais para ser verdade. Os slides não eram publicados online. As aulas não eram gravadas. Era preciso estar presente.

Samira Noor Bellandi ensinava de memória. Falava sem anotações, sem hesitar, sem se preocupar com estabilidade no emprego ou necessidade de permissão.

Esta noite, ela diminuiu as luzes. A tela atrás dela ganhou vida.

Apareceu um nome: "O Corredor de Marfim". Abaixo: O Eclipse mais rico da sala.

Samira não sorriu. Ela raramente sorria enquanto dava aulas.

O relógio continuava a marcar o tempo. O último espectador sentou-se nos degraus. Um risco de incêndio, sem dúvida. O relógio continuava a marcar o tempo. Um número mudou de posição.

Seis horas.

Ela olhou para a multidão, para o grande auditório com capacidade para trezentas pessoas, mas que estava lotado com pelo menos quatrocentas.

—Boa noite. Hoje à noite vamos analisar "O Corredor de Marfim".

Um slide ganhou vida atrás dela: um simples recibo de compra. Sem nome. Apenas "Particular". Samira virou-se ligeiramente, deixando a imagem falar por si mesma antes de se dirigir novamente aos presentes.

—Compradores que buscam exclusividade—disse ele—. Eles não compram. Eles desaparecem com as coisas.

Um murmúrio percorreu o auditório. Alguns alunos trocaram olhares. Um dos que estavam na primeira fila levantou o celular para tirar uma foto, mas depois desistiu da ideia.

"Sabe o que quero dizer?", perguntou Samira, examinando as fileiras de obras. "Quando uma obra desaparece não em uma casa, ou em uma galeria, ou mesmo em uma coleção, mas em um lugar que oficialmente não existe?"

O slide mudou.

Um mapa da Europa. Um pequeno ponto vermelho piscava perto da Helvécia.

—A zona franca de Valenna—, disse ele. —Uma entre muitas. Centenas de milhões em obras de arte armazenadas lá: isentas de impostos, não registradas, intocadas.

Ele fez uma pausa para ajeitar os óculos na ponte do nariz.

—Toda vez que você pergunta: “Onde está aquele quadro?” e ninguém sabe responder… é bem provável que esteja aqui. Ou em Lion Harbor. Ou em Fairmont.

Algumas cabeças se inclinaram. Um murmúrio de anotações rabiscadas podia ser ouvido. Outras, mais lentamente, simplesmente olhavam fixamente.

"E quem coloca isso lá?", perguntou ele. "Não são os colecionadores. Nem os fãs. Nem mesmo os oligarcas, não diretamente."

Ele apontou para o mapa.

—É aqui que entra o comprador que busca exclusividade. Discretamente. Legalmente. Ilegalmente. Muitas vezes, ambas ao mesmo tempo.

O próximo slide: uma pintura renascentista da Virgem Maria. Ouro rachado. Desapareceu há vinte anos.

Samira cruzou os braços.

"A Madona de Valdoria", disse ele. "Vista pela última vez há anos. Foi roubada de uma capela particular em Valdoria. Não houve arrombamento. Nenhum alarme foi disparado. Os donos? Estavam fora do país. O caso esfriou em menos de um mês."

Ele começou a andar de um lado para o outro novamente.

—O Escritório Internacional de Crimes contra a Arte suspeitou de um crime interno. Então, no ano passado, a pintura reapareceu em uma apreensão alfandegária... a caminho de Rosenfeld. Destino: desconhecido. Comprador registrado? Colecionador particular. Empresa de fachada. Sem nome legal.

Ele examinou a sala com os olhos.

Entende agora? O comprador nunca está onde a papelada termina. Essa é a chave.

Ele clicou novamente. Uma série de manchetes preencheu a tela.

—Obra-prima roubada é encontrada em um avião de carga

As autoridades europeias não puderam confirmar a propriedade.

—Arte privada e o problema da proveniência

"Fui consultado sobre este caso", disse ele firmemente. "O representante do comprador me ofereceu um cheque em branco para autenticar a peça e silenciar todos os outros."

Silêncio na multidão.
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