As Primas da Noiva
EU NÃO ESTAVA NAQUELA festa exatamente por causa da prima de Natalie que estava se casando com um advogado mineiro ricaço, embora aqueles momentos em família fizessem com que eu me sentisse mais responsável indo a compromissos com os parentes da namorada.
Não.
Eu estava ali mais pela farra, só esperando o momento em que estaria me divertindo com o meu amigo Henrique Schneider, a sua noiva Valéria Weber e a espevitada prima da minha namorada, Kelly Ferraz, na luxuosa casa alugada pelo noivo para que os familiares ficassem hospedados.
Estávamos em Minas Gerais, há muitos quilômetros de meu habitat natural, a Terra da Garoa, mas tudo até então havia sido bem divertido. Henrique, Natalie e eu nos conhecíamos há vários anos, da época em que nossos pais empresários faziam negócios na sala enquanto brincávamos de “Salada Mista” com nossos outros amigos do círculo de convivência.
Natalie e eu tínhamos ficado muito ligados desde a nossa época de adolescência e não demorou para que quiséssemos nos abrir para uma relação mais estável, que infelizmente, durou pouco. Mal tínhamos completado seis meses de namoro quando Augusto, o pai dos irmãos Schneider, resolveu levar toda a família para o Rio de Janeiro, estado onde os descendentes de alemães haviam se estabelecido desde que haviam desembarcado no Brasil durante os anos 40.
Com a separação, Natalie e eu perdemos contato por um tempo e só algum tempo depois, quando ela e Henrique retornaram para São Paulo a fim de cursar faculdade, é que voltamos a ser os amigos inseparáveis de sempre. Natalie se mostrou favorável a que reatássemos o nosso namorinho de adolescência e o seu irmão nos deu a sua benção para que ficássemos juntos, eu e ela.
O clima para o casamento em Minas estava bastante agradável desde a viagem de carro do aeroporto até a casa, as besteiras contadas por Henrique com o apoio de Valéria no caminho, os preparativos para a cerimônia religiosa numa capela especialmente construída para a ocasião e a expectativa do próprio casal com a aproximação da viagem definitiva para o Rio de Janeiro, agora que tal data estava tão próxima.
Natalie queria adiar ao máximo a ida do irmão Henrique para o Rio, e ficava chateada com o assunto, embora soubesse que era inevitável a separação deles. Ele, no entanto, se divertia a vendo ficar brava com o assunto e a provocava cada vez mais dizendo que ela teria que aprender a viver sem ele.
— Está na hora de você sair do meu pé, pelo amor de Deus!
É claro que tudo aquilo era brincadeira, mas eu costumava sentir um pouco de ciúmes a vendo tão próxima do seu irmão, mesmo sabendo tudo que eles faziam entre quatro paredes pouco ligando para sua condição fraternal. Eu estava cada vez mais apegado à Natalie, e nem estava me dando conta disso.
Na hora da festa, após a cerimônia religiosa, Natalie e Valéria estavam lindas com seus vestidos longos de decotes provocantes e chamaram toda a atenção em meio aos convidados. A minha namorada havia levado dias para se decidir pelo modelo azul-celeste que combinasse melhor com o sapato de salto alto e o colar que ela havia escolhido usar e eu a acompanhei em algumas lojas durante aquele processo de escolha. Como fotógrafa, ela sabia a importância de se produzir para posar em um momento que seria eternizado em fotografias, por isso, queria estar deslumbrante no álbum de recordações do casório da prima.
Podia parecer força de expressão, mas eu sabia que Natalie conseguiria se destacar de qualquer maneira, até mesmo se estivesse enrolada em jornal ou coberta por folhas de parreira. Aquele dia, o delineado escuro que usava em torno dos olhos realçava ainda mais o brilho azul do par e os seus cabelos dourados estavam cacheados, dando a ela um aspecto quase angelical. Eu estava muito orgulhoso em poder desfilar com aquela tremenda obra da natureza pelo espaço dos convidados.
Valéria, a noiva de Henrique, também estava muito bem-vestida durante a festa e ostentava os seios fartos num modelo de vestido preto sem alças. Eu e meu amigo tínhamos apostado em ternos parecidos com cor escura, mas ele havia optado por usar o paletó sem gravata por baixo, enquanto eu usava uma na cor grená.
Após a cerimônia na capela, Natalie me levou para cumprimentar pessoalmente a sua prima Miriam e a encontramos ainda vestida de noiva com a grinalda espalhafatosa presa aos cabelos loiros cortados em estilo Chanel. Era a primeira vez que nos encontrávamos pessoalmente e eu desejei felicidades a ela e a Cássio, o marido, que agradeceu com um sorriso lânguido no rosto envolto por uma barba espessa.
— Muito obrigado. Fico muito feliz que tenham vindo de São Paulo para prestigiar um momento tão importante para nós dois.
Os olhares dos recém-casados se cruzaram e foi a vez de Natalie dizer:
— Não poderíamos deixar de vir. Foi mesmo uma cerimônia muito linda. Me emocionei muito.
Os pais de Natalie e Henrique já tinham se espalhado pelo salão de festas tão logo a fila para os cumprimentos aos noivos se dispersou. Augusto e Stephanie, meus futuros sogros, tinham viajado para Minas Gerais separados dos filhos num voo que partiu mais cedo do Aeroporto Internacional de Guarulhos e eu quase não os vi em meio as mais de cem pessoas que se espalhavam pelo ambiente movimentado. O velho Schneider nunca tinha ido muito com a minha cara apesar de ele possuir uma relação saudável com a minha família, em especial o meu pai, e eu só tinha de agradecer por aquele afastamento durante a festa. Tinha ouvido a minha vida inteira as críticas do senhor Fausto Monterey sobre eu não ser uma pessoa de confiança, não precisava tornar a ouvir aquilo também do pai da minha namorada.
Eu tinha visto Kelly pela manhã de relance acompanhada da mãe no pátio do condomínio assim que cheguei trazendo Natalie, Henrique e a noiva dele, mas tinha sido tão rápido que nem havia a cumprimentado direito. Durante a festa, a reencontrei e só então tive a primeira oportunidade de conhecer a sua mãe.
Cláudia Ferraz era uma publicitária paulista que trabalhava em uma agência muito renomada de nome Illuminare na Vila Mariana. Era prima de primeiro grau de Natalie e irmã de Miriam, a moça que estava se casando aquele dia. Sempre ouvia falar muito bem dela, mas nunca tinha tido a oportunidade de conhecê-la cara-a-cara.
Quando Natalie me apresentou a ela, reconheci na hora os belos olhos verdes que Kelly havia herdado e fiquei encantado pela sua beleza. Cláudia era alta, devia medir mais de um metro e setenta, tinhas cabelos loiros ondulados caindo nas costas e possuía um charme irresistível no alto de seus 33 anos. A figura perfeita que eu fazia de sua filha quando eu a imaginava crescida.
Foi extremamente simpática comigo e fez questão de enfatizar o quanto a filha gostava de passar os finais de semana conosco, seja na casa de veraneio dos Schneider, no litoral sul, ou na casa de praia dos meus pais, no litoral norte.
— Como vocês bem sabem — disse a moça —, a minha vida de publicitária não me permite muito tempo para mais nada e eu só posso agradecer que tenho a Nat e o Rique para fazer companhia à Kelly enquanto trabalho na agência.
Claudia tinha perdido o marido seis anos após o nascimento da sua primeira e única filha. Aquele fato havia impactado a todos e foi necessária uma cooperação mútua entre os Schneider para que tanto a mulher quanto a menina conseguissem superar a morte prematura do corretor que havia sido vítima fatal de um infarto fulminante.
Como resultado disso, tanto Natalie quanto o seu irmão tinham se proposto a cuidar da prima de segundo grau enquanto a sua mãe retornava ao trabalho na agência de publicidade e a menina meio que cresceu tendo a prima mais velha como uma espécie de irmã. Foi por meio de Natalie que, algum tempo depois, eu acabei conhecendo a Kelly e nós nos afeiçoamos.
— Oi, tio Digo! Faz tempo que a gente não se vê!
Kelly costumava me chamar de “tio Digo” desde que Natalie, ela e eu passamos a nos encontrar mais vezes por conta do meu namoro com a herdeira dos Schneider. Ela era uma criança naquela época e tinha crescido um bocado desde então. Sua voz estava mais firme, os gestos estavam mais contidos e ela já exibia o mesmo charme da mãe a cada movimento que fazia. Me pareceu que fiquei uns trinta minutos ali embasbacado olhando para ela, mas foi rápido o momento em que a garota e a mãe se afastaram, se despedindo momentaneamente de Natalie e de mim. Aquele reencontro havia sido mágico.
Passadas duas horas, aquela festa começou a ficar enfadonha, principalmente por que os micos haviam sido pagos todos na meia hora inicial, não sobrando mais nenhum para o decorrer da comemoração. O noivo dançando funk numa coreografia muito desengonçada e as madrinhas se estapeando para pegar o buquê haviam sido os pontos altos, e por algum tempo, nos esquecemos fácil que aquela era uma festa de alta sociedade.
Um casamento no subúrbio de São Paulo teria sido igualmente hilário, mas com certeza manteria os momentos de diversão até o fim, diferente daquele que já havia me enchido. Natalie percebeu rápido que eu estava farto daquela besteirada e se ofereceu para ir comigo até o quarto reservado a nós, dando como encerrada a festa para ela também. Estava meio cansado devido à agitação daquele dia, e tudo que quis aquela noite foi dormir abraçado com Natalie, que concordou sem se chatear, já que ela parecia querer a mesma coisa.
