As Primas da Noiva (PARTE 2)
NA MANHÃ SEGUINTE, os convidados ainda perambulavam pelo condomínio com as suas roupas de banho se dirigindo à piscina e eu aproveitei o embalo para me juntar aos mineiros. Encontrei Henrique e Valéria em esteiras a beira d’água conversando alegremente com mais alguns parentes dos noivos e acabei sendo apresentado a alguns deles pelo meu amigo de cabelos loiros.
— Tio Álvaro, esse é o Rodrigo, o meu amigo lá de São Paulo que é filho do senhor Fausto Monterey dono da construtora.
Álvaro Schneider era o pai de Miriam e era alguns anos mais velho que Augusto, o meu sogro. Era um sujeito robusto com barba e cabelos já bem grisalhos e cuja voz soava como um trovão cada vez que falava.
— Eu cheguei a conhecer o senhor seu pai, rapaz — disse ele, vestindo uma camiseta branca, calção largo e chinelos de dedo —, um homem de muita visão. Meu irmão e eu fizemos vários negócios entre as nossas imobiliárias e a construtora dele. Quando voltar para São Paulo, não se esqueça de mandar lembranças minhas a ele.
— Vou mandar, com certeza.
Além do velho Álvaro, conheci também um dos irmãos do noivo Cássio que trabalhava na área de agropecuária em Betim. Eu não entendia nada sobre o assunto e a nossa interação foi muito breve, para não dizer inexistente. Fiquei mais algum tempo à beira da piscina me fazendo de interessado ao que o sujeito magro de cabelos ralos dizia e pouco depois me afastei, me despedindo cordialmente. Henrique tinha muito mais tato do que eu para esse tipo de contato social e continuou aturando aquela conversa chata.
Aproveitando que Natalie tinha preferido esticar um pouco mais o seu tempo na cama, resolvi dar umas bandas pelo ambiente espaçoso de férias para ver se aquele casamento podia me render mais do que a diversão passageira da noite anterior. Ao em vez de topar com alguma mineirinha faceira que me divertisse mesmo que momentaneamente, bati os olhos em um par de pernas maravilhosas que me fizeram tropeçar num chinelo largado ali no chão. Os membros alongados, muito bem torneados e bronzeados me chamaram tanto a atenção que nem me dei conta em observar a quem eles pertenciam, foi quando uma voz suave me trouxe de volta à realidade.
— Oi, tio Digo! Senta aqui com a gente.
Me deparei com Kelly sentada numa das várias esteiras perfiladas à beira d’água e ela estava linda com seus cabelos alourados molhados após um banho de piscina e vestida com um biquíni rosa bem cavado. Logo ao seu lado, usando um par de óculos escuros e com a sua pele úmida a sua mãe Cláudia se mostrou por de trás de uma revista que lia ocultando o rosto bonito. Era ela a dona do par de pernas torneadas.
— Oi, Rodrigo, que bom que chegou. Essa mocinha não parava de perguntar por você e pela Natalie. Gostaria de saber o que vocês fazem com ela quando estão juntos pra que goste tanto de vocês!
Claudia desceu os óculos levemente um pouco abaixo da linha dos olhos e aquela manhã o par brilhante brilhava quase azul pela refração da luz do sol a bater na água da piscina às minhas costas. Dei um riso meio desconcertado e procurei evitar responder a sua dúvida.
— Que surpresa encontrar vocês por aqui também. Parece que todo o mundo teve a mesma ideia de vir à piscina logo pela manhã!
A moça me fitou de um jeito estranho parecendo ter desconfiado da minha mudança de assunto, mas estava me observando atentamente, quase como se quisesse me filmar com os olhos.
— Não parece haver lugar melhor que esse numa manhã tão bela de sol, não é mesmo?
Cláudia possuía um sorriso largo e radiante de dentes alinhados e lábios volumosos. Era meio hipnotizando vê-la flexionar os músculos da face para demonstrar satisfação e por um momento, comecei a pensar em coisas impróprias como devia ser bom beijá-la.
— …no quarto?
Foi tudo que ouvi da sua pergunta de tão extasiado que estava esquadrinhando cada centímetro daquele belo rosto jovial. Tive que pedir para que ela repetisse o que tinha dito.
— Perguntei se a Natalie ainda está no quarto…
— Ah… Desculpe. Me perdi por um segundo… — Admiti —, mas sim, ela ainda está no quarto. Estava meio cansada da viagem ainda até Minas…
Quando o olhar de Claudia se perdeu numa revista que segurava, a folheando distraidamente, tive a oportunidade de lhe dar boa olhada em seus seios grandes estufando o biquíni escuro que vestia. Voltei a minha atenção ao seu rosto quando voltou a falar:
— Às vezes, eu lamento por não ter podido conviver tanto com a Natalie e o Henrique quanto queria. Meu trabalho consome quase todo meu tempo e eu mal tenho um segundo de sossego para estar com a família. Até a Kelly está crescendo sem que eu acompanhe diariamente…
E seus olhos foram dos meus aos de Kelly, ali ao lado, deitada de pernas cruzadas com o rosto virado para cima escutando atenta a nossa conversa.
— Você e a Nat parecem mesmo muito apaixonados. Se vê na cara de cada um.
Aquilo me pegou meio que desprevenido. Como tal sentimento podia estar estampado em meu rosto, se eu o reprimia de forma tão intensa, custando a admiti-lo até para mim mesmo?
— Bem…
Eu não tinha argumentos e se procurei esboçar algum, as palavras se perderam completamente quando vi Cláudia puxando para frente suavemente a parte de cima do biquíni, o ajeitando nos seios volumosos. Com um sorrisinho nos lábios fechados, ela completou:
— Natalie tem realmente muita sorte de ter encontrado você.
Sabia que aquele não era um comentário qualquer. Nós mal nos conhecíamos e era necessário que ela tivesse informações mais precisas sobre quem eu realmente era para que pudesse tecê-lo. Logo notei que Claudia estava cheia de más intenções comigo. Eu não havia mexido um músculo para que ela se interessasse, mas pelo visto, algo de mágico havia permitido tal interesse.
Parecendo perceber isso, Kelly agiu rapidamente se levantando da sua esteira e me pegando pela mão. Com seu jeitinho persuasivo, pediu para que eu caísse na água junto com ela. O convite foi conveniente, já que eu havia ficado embaraçado com as olhadas incisivas de Cláudia e fui para água assim que a própria deu sinal verde, recomendando à filha:
— Vá para água, mas não esquece de voltar para passar mais filtro solar.
— Sim, senhora — e Kelly botou a mão direita acima do supercílio simulando uma continência militar o que gerou um riso frouxo em mim e em Claudia.
O clube onde estávamos hospedados por aquele fim de semana e até que os noivos saíssem em Lua de Mel era equipado com duas piscinas, uma delas com medidas de raia olímpica. Para alguém não acostumado com aquela profundidade, era fácil acabar se afogando e eu tive que ficar de olho em Kelly, apesar de ela ser bastante habilidosa com natação.
Além de nós dois, a água estava ocupada com várias outras pessoas e aquela falta de privacidade me incomodava. O meu pai era dono de uma ilha aonde havia construído a casa de veraneio onde eu havia conhecido Kelly e o local era como um paraíso particular para mim e para os meus irmãos. Longe dos olhares julgadores da sociedade, naquele lugar podíamos dar asas à nossa imaginação, o verdadeiro contraste daquela piscina pública e seus inúmeros frequentadores.
Kelly e eu nadamos um pouco mais até a borda extrema vigiada por Claudia e do outro lado, a garota começou a confessar em tom de voz baixo que tinha sentido a minha falta em todo o tempo que não nos víamos desde o último encontro.
— Por que não me procurou mais na casa de praia da Nat e do Rique? Voltei lá umas duas vezes e você não foi me ver.
O corpo de Kelly estava quase todo submerso na água. Ela tinha estatura baixa e se esforçava para manter os pés firmes no assoalho da piscina.
— Eu ando meio ocupado, gatinha — respondi quase tendo a minha voz abafada por um grupo barulhento que gritava a menos de dois metros de nós —, agora eu estou trabalhando com o meu pai na construtora e tenho pouco tempo para ir à praia.
A sua mão tocou o meu abdômen por baixo d’água enquanto dizia, fazendo um pouco de charme:
— Você não gosta mais de mim. Me esqueceu.
Kelly havia confessado para a prima, embora aquilo soasse inapropriado, que tinha ficado apaixonada por mim desde o primeiro dia em que nos vimos. Na ocasião, Natalie tinha ficado incumbida de tomar conta da menina num final de semana em que Claudia participaria de um congresso e já que estava de babá, resolveu levar Kelly com ela para a casa de praia dos meus pais. Aquele foi um fim de semana muito divertido entre nós três, e por algum motivo, a menina tinha se afeiçoado mais que o normal a mim.
— Claro, que não, sua boba — disse a ela, tentando desfazer o mal-entendido —, você sabe que eu te amo. Eu namoro a Nat, mas você sabe que o meu verdadeiro amor é você, não sabe?
Eu sabia o quanto alimentar as fantasias adolescentes de Kelly era perigoso, mas não conseguia resistir àqueles dois faróis verdes brilhando em sua órbita.
Ela sorriu desviando o olhar por um instante e quando me fitou de novo emendou:
— Eu também amo você. Nunca se esqueça disso!
Kelly então deu um risinho. Nós nadamos um pouco mais e de onde parei para descansar procurei Claudia com os olhos do outro lado. A moça estava agora com uma canga enrolada na cintura e tinha caminhado até o bar do clube para tomar uma birita. A menina notou o que eu estava fazendo e disse sem muitos rodeios:
— Deixa minha mãe. Eu vi como você tava olhando pros peitos dela!
Outra vez o tom pareceu alto demais e dei uma disfarçada passando as mãos pelos cabelos dessa vez dando um sorriso amarelo para um casal que boiava próximo dali. Eles pareciam ter ouvido a frase de Kelly.
— É claro que não… a sua mãe é uma mulher muito bonita, admito, mas ela é prima da Natalie… é sua mãe. Eu não faltaria ao respeito com ela.
Kelly fechou o cenho em minha direção e ficou me observando como que tentando analisar a veracidade do que eu havia falado. Era inegável que eu havia ficado bastante impressionado em o quanto a publicitária era linda e como a maneira como ela havia me secado desde que nos conhecemos mexia comigo, mas eu não podia deixar transparecer nenhuma daquelas situações. Se estava mesmo rolando algo não-verbalizado entre nós, aquilo devia ficar no mais puro segredo de estado.
