
Resumo
Sula Villar é uma linda e talentosa secretária suburbana de 22 anos que vê a chance que tanto espera em ascender profissionalmente quando se candidata à vaga para assistente pessoal do CEO de uma das principais companhias de tecnologia do país. Sempre muito aplicada nos estudos, moradora em um bairro humilde de município pequeno e órfã de pai, a bela morena de cabelos encaracolados encontra força nas próprias dificuldades para seguir em frente e sonha com o dia em que vai poder tirar a mãe, a sua única família, da linha da pobreza em que ambas vivem. No dia em que ela conhece o jovem e compenetrado Carlos Eduardo Castellini em seu escritório da Castle Industrial, Sula fica intrigada com todo o mistério que parece permear o presidente da companhia, além de se ver profundamente atraída por ele. Quando, enfim, consegue um lugar junto ao seu enorme séquito de funcionários, a sagaz secretária começa a se aproximar cada vez mais do rapaz, obtendo dele informações tão valorosas quanto assustadoras do passado dos Castellini, bem como do homem que fundou aquela empresa, o temível Carlos Sênior. Em posse de segredos incalculáveis da poderosa família que controla a cidade onde vive, Sula deixa de ser apenas uma reles funcionária e se torna o braço-direito do ambicioso empresário. Cada vez mais envolvida numa intrincada rede de crimes e intrigas, a jovem não sabe o que o futuro lhe reserva e se pergunta qual o preço que terá que pagar para continuar ao lado do seu perigoso CEO? "A Cúmplice do CEO" é o primeiro dos 11 contos encontrados nessa coletânea que tem também o romance erótico "A Tentação de Caíque Ferreti" (três partes), a novela bissexual "Os Desejos de Kelly" (em cinco partes) e o conto de espionagem e romance "Dado" (dividido em cinco partes).
A Cúmplice do CEO
CHEGUEI POR VOLTA das oito horas da manhã à recepção do edifício e fui orientada a caminhar até o corredor leste dos elevadores. O saguão devia ter uns oitenta metros quadrados, e por ali, desfilavam àquele horário vários tipos de empresários, dos mais jovens aos mais velhos, dos mais elegantes e bonitos até os mais malvestidos e mal-encarados.
Subi até o vigésimo andar acompanhada de um grupo de quatro deles que me encararam como se eu fosse um pedaço suculento de filé mignon logo que botei os pés para dentro do elevador. Um deles — do tipo malvestido, usando um terno um número acima do seu manequim — me olhou bem dentro dos olhos e não fez questão nenhuma de ser discreto enquanto me escaneava até a abertura do meu decote.
Levemente constrangida, tentei me espremer entre eles até o fundo da cabina, e de lá, não pude deixar de ouvir os cochichos debochados.
— Podia ter seleção para secretária no prédio todos os dias, hein!
E o do terno sobrando no corpo incitou um coro de risadinhas entre os colegas engravatados. Um outro me olhou pelo espelho ao meu lado e comentou:
— Com uma dessas em meu escritório, até aceitava fazer hora-extra!
Mais risadas e aquele clima de assédio começou a me incomodar. Eu tinha passado horas para escolher o conjunto de calça e tailleur que usava aquele dia, mas ainda tinha saído um pouco insegura de casa com os meus cabelos presos para trás e os botões da blusa fechados até a penúltima casa. Era difícil chegar bonita e asseada a qualquer que fosse o local depois de se sentir feito uma sardinha enlatada dentro do transporte público, mas eu precisava muito ser aprovada naquela entrevista de emprego e não seria um vinco em minha roupa que me tiraria o ânimo.
Nem tampouco os comentários impróprios dos senhores que se elevavam comigo dentro daquele cubículo a caminho do meu destino.
— Bela bunda, docinho! Não quer ser a minha secretária? Nem precisa de entrevista. Eu te aprovo agora!
Caminhei para fora da cabina controlando a respiração ao alcançar o vigésimo andar e me segurei para não dar vexame batendo boca com aqueles imbecis. As suas risadinhas continuaram ecoando às minhas costas, o “bing” do elevador fechando as suas portas soou e eu deixei passar toda a minha raiva. Nada podia desviar o meu foco.
A vaga para secretária e assistente pessoal do presidente da companhia de tecnologia Castle Industrial tinha sido anunciada em seu site oficial na sexta-feira e já na segunda-feira, mais de trinta e cinco garotas com mais ou menos a mesma faixa etária que eu ocupavam um auditório em frente à sala onde a entrevista seria realizada. Ouvindo por alto os burburinhos que rolavam entre as minhas concorrentes ao meu redor, descobri que mais de mil candidatas haviam passado pela primeira peneira de seleção — a aprovação do currículo — e que reunidas naquela sala estavam apenas as que ainda tinham alguma chance de ocupar o cargo.
Agora que já cheguei até aqui, irei até o fim, pensei, mentalizando apenas coisas boas.
Eu tinha me formado há pouco tempo no curso técnico de auxiliar administrativo e a minha única experiência profissional advinha de um período de um ano em que eu tinha servido como secretária — e faz-tudo — no escritório de mecânica automotiva do meu tio Tirso, no centro de Calheiras. Tinha floreado o meu currículo dizendo que eu era “encarregada pelo gerenciamento administrativo” da mecânica, mas não estava muito longe da verdade já que eu tinha mesmo dado uma organizada na bagunça que encontrei quando coloquei os meus pés naquele lugar.
O irmão da minha mãe era um homem rude que mal tinha completado o ensino médio e que odiava mexer com a parte burocrática e contratual que o seu estabelecimento necessitava. Ainda no período que era aluna em meu curso técnico, eu me pus a ajudar o meu tio com o que eu podia, e depois disso, a mecânica começou a funcionar muito melhor com ele evitando gastos desnecessários na compra de peças automotivas, controlando o fluxo de caixa e economizando aquilo que tirava de lucro.
Uma hora e meia de espera depois no auditório da Castle, naquela tarde, finalmente chegou a minha vez e um rapaz de olhos grandes e nariz avantajado me chamou junto à porta em posse da minha ficha de cadastro. Me cumprimentou gentilmente com um aperto de mão firme, estendeu o braço direito em direção à porta pivotante que separava o auditório da sala de entrevista e anunciou:
— O senhor Carlos Castellini vai atendê-la agora.
A minha pulsação estava descompassada tão logo passei pelo batente e assim que levantei os olhos, o vi em pé de frente para a sua mesa alongada de tampo envernizado. Atrás dele, havia uma janela envidraçada larga com uma bela vista da Zona Leste da cidade, mas uma vez focada em seu rosto, era difícil prestar a atenção em qualquer outra coisa.
O CEO da Castle Industrial era um rapaz extremamente jovem com um rosto fino e alongado. Tinha cabelos loiros-escuros penteados de lado, algumas sardas salpicando a pele acima do nariz levemente adunco e olhos incrivelmente verdes, cor-de-jade. Vestia um terno Desmond Merrion azul-marinho que devia valer mais que a minha casa e exalava um perfume muito bom da Dior.
— Prazer em conhecer você, senhorita Sula Villar. Queira se sentar, por gentileza.
Ele me cumprimentou com um aperto de mão e indicou a cadeira de encosto em meia-lua à frente da mesa. Tinha começado a me sentir estranhamente eufórica em sua presença e ainda não tinha recolhido o sorriso bobo que se formou em meu rosto assim que o encarei a primeira vez. Carlos deu a volta para se acomodar na poltrona presidencial de couro vermelho, e então, desceu os olhos para uma cópia da minha ficha encimando o tampo envernizado.
— Minha equipe analisou o seu currículo, senhorita Villar, e me chamou a atenção o colégio técnico em que se formou após o ensino médio. O Bandeirante João Ramalho é uma ótima instituição particular de ensino e o seu histórico é mesmo invejável!
Eu tinha prestado um Vestibulinho para que pudesse ingressar no Bandeirante às custas de uma bolsa de estudos integral. Minha mãe era assalariada e não tinha condições de pagar as mensalidades caras que o colégio cobrava. Estudar com afinco para mudar a realidade dura da minha família era o mínimo que eu podia fazer ao final da minha adolescência.
— Obrigada — agradeci ainda hipnotizada pelo par de jades a brilhar para mim.
— Vinte e dois anos, residente no município de Calheiras, experiência como assistente administrativa — ele estava agora com as costas reclinadas na cadeira e a folha de papel com os meus dados jazia à meio-metro do seu rosto —, faremos um teste a partir de amanhã em um de nossos escritórios de administração, mas vejo que tem muitas chances de se encaixar no perfil que a vaga exige, senhorita…
Sem pensar muito no que estava fazendo, eu o interrompi.
— Sula. Pode me chamar apenas de Sula.
Ele se voltou para mim com semblante entre o atônito e o curioso. Pousou o currículo sobre o tampo, se inclinou brevemente em direção à mesa e ficou me observando.
O que eu estou fazendo? Pensei, começando a sentir um frio na barriga. Eu acabo de interromper o rapaz que estava prestes a me dar uma vaga de emprego…
— Sim, Sula. Apenas Sula — ele agora tinha curvado os lábios num sorriso discreto, mas a testa continuava levemente franzida —, entrevistei mais de vinte moças desde o primeiro horário da manhã, mas admito que estarei torcendo para que você passe no teste, Sula.
Eu não era de me envergonhar com facilidade, mas comecei a sentir o meu rosto corar.
— Eu gostei de você — continuou ele —, além de bonita, me parece ser muito espontânea e segura. Gosto de mulheres assim.
Carlos fazia pausas entre as frases para estudar a minha fisionomia e era como se ele estivesse tentando ler a minha mente, tentando adivinhas tudo o que se passava pela minha cabeça. Senti um arrepio que percorreu o cóccix até a nuca com aqueles olhares e era como se eu estivesse completamente nua dentro daquele escritório.
— A que horas eu começo o meu teste? — perguntei, afoita.
— Esteja na sede da empresa amanhã às oito e venha com os seus cabelos soltos. Acho que combina mais com o seu visual.
Ele ergueu o currículo, virou a folha branca para o meu lado e me exibiu a foto 3x4 que estampava o canto superior esquerdo do documento em que eu aparecia com os meus cabelos encaracolados pretos soltos nos ombros. Fiquei ainda mais enrubescida.
