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Capítulo 4

Aos cinco anos, Zayto já sabia que não era como os outros.

Enquanto as outras crianças se agarravam às freiras em busca de aprovação ou corriam pelo pátio do templo tentando esquecer a fome e o frio, Zayto olhava para as pedras das paredes e via movimentos que mais ninguém parecia perceber. Pequenas vibrações. Sussurros inaudíveis. Rachaduras que respiravam.

Foi numa tarde cinzenta e úmida que Demeter apareceu. Zayto estava ajoelhado junto a uma parede, fingindo limpar o chão, quando viu algo minúsculo, menor que um grão de poeira, acenar para ele. Um ser tão pequeno que parecia feito de lascas de luz e poeira de pedra.

— Você me vê? — perguntou a criatura, com uma voz aguda, vibrando dentro da mente de Zayto como uma canção.

Ele piscou, confuso, e assentiu lentamente.

Demeter se apresentou como o deus das coisas pequenas — senhor dos fragmentos, dos cantos esquecidos, das miudezas que sustentavam o mundo sem que ninguém soubesse. Zayto sorriu pela primeira vez em dias. Ali, entre pedras frias e poeira, tinha encontrado um amigo.

Enquanto esfregava o chão com uma escova gasta, Demeter falava com ele de coisas secretas: de túneis escondidos sob o templo, de passagens entre as pedras, de corredores de vento que ninguém conhecia. Falava de como, mesmo a muralha mais sólida, era feita de pequenas falhas que só os atentos viam.

À medida que o dia escurecia e o templo se enchia de sombras alongadas, outra presença nasceu: Asthos.

Zayto viu-o surgir primeiro como uma mancha na parede — um borrão escuro e denso, como um pedaço de noite que se recusava a ser iluminado. Quando a freira mandou apagar as velas para a oração silenciosa, Asthos deslizou pelas paredes, tomando formas. Um cavalo de asas quebradas. Uma espada afiada. Um rosto sem olhos.

Asthos não falava, mas Zayto entendia.

Entendia que Asthos era o deus daquilo que se escondia dos olhos; daquilo que existia só quando ninguém estava olhando.

Com Demeter nos cantos e Asthos nas sombras, Zayto já não se sentia mais sozinho. Mas faltava algo — ou alguém.

Foi naquela noite, enrolado em seu cobertor fino, com o frio mordendo seus pés descalços, que Zender veio.

Não apareceu como os outros. Não saiu das pedras nem da luz.

Zender nasceu dentro dele.

Uma voz profunda, quente e segura, que sussurrava no seu peito:

— Eles não entendem. Você é especial.

Zayto se apertou contra a parede, tentando silenciar os soluços que escapavam, e sussurrou de volta:

— Eu não quero mais ficar aqui...

Demeter agitou-se na rachadura da parede, como que tentando confortá-lo. Asthos formou uma asa enorme sobre o teto, sombreando-o. E Zender, suave como uma mãe, prometeu:

— Um dia, você vai quebrar este lugar todo.

Essas palavras se agarraram a ele como raízes fincadas no coração.

Enquanto as horas passavam e os sinos da meia-noite soavam ao longe, Zayto contou aos seus deuses o que tinha acontecido naquele dia.

Contou como Mathis e Joram haviam atirado pedras nele no pátio, rindo. Como a irmã Magdala o puxara pelas orelhas diante de todos, gritando que ele era "filho do demônio", amaldiçoado, uma mancha no templo de Deus.

— Eles dizem que minha mãe era uma bruxa, — sussurrou ele. — Dizem que eu devia ter morrido no parto...

Demeter vibrou, furioso, nas rachaduras. Asthos se esticou até formar figuras monstruosas que devoravam freiras em silêncio.

Zender falou, mais baixo agora, como se plantasse sementes no coração de Zayto:

— Você não precisa ser o que eles dizem. Você é mais do que eles. Um dia, todos vão ver.

Aos poucos, a respiração de Zayto desacelerou. Seus olhos ficaram pesados. Mas mesmo dormindo, ele ouvia seus deuses. Eles teciam histórias dentro de seus sonhos: histórias de castelos desmoronando, de reis derrotados, de mundos novos nascendo do fogo.

E no centro de tudo, havia ele.

Não um menino pequeno e sujo, mas um ser feito de luz e sombra, coroado pelas forças que ninguém mais via.

A madrugada avançava. O templo suspirava em seus velhos corredores, as pedras rangiam, os ventos assobiavam nas frestas. Zayto sentia tudo como se fosse parte dele mesmo.

Demeter, Asthos e Zender murmuravam, embalando-o.

Contavam-lhe segredos: que todas as construções dos homens, por maiores que fossem, eram frágeis como folhas mortas; que as palavras dos monges eram vazias, que suas orações batiam no teto de pedra e caíam mortas no chão.

Contavam-lhe que havia poder nas pequenas coisas.

Num prego torto.

Numa viga rachada.

Numa faísca esquecida.

Que bastava um sopro, um toque, um olhar certo para que tudo desabasse.

Zayto ouvia, absorvendo cada palavra como quem bebe um elixir proibido.

O frio já não lhe importava. Nem a fome. Nem as dores nas costas por tanto trabalhar.

Ele tinha algo que ninguém mais tinha.

O mundo invisível.

E este mundo o amava.

Não como os homens, com suas promessas quebradas e sua hipocrisia, mas de um amor antigo, profundo, feito de raízes e estrelas.

O sono veio devagar, envolto na voz de Zender, nos gestos de Demeter, no silêncio de Asthos.

Antes de se entregar completamente, Zayto sussurrou uma última vez:

— Eu vou quebrar este lugar.

E sentiu, com uma certeza que incendiava seus ossos frágeis, que os deuses sorriam.

O sono de Zayto era leve, como se seu corpo descansasse, mas sua mente continuasse desperta, afiada como uma lâmina oculta.

Dentro dele, o sussurro de Zender ainda ecoava, pulsando a cada batida de seu pequeno coração.

Demeter foi o primeiro a chamá-lo de volta, vibrando nas rachaduras da parede. Um zumbido insistente, como o tilintar de um sino esquecido.

Zayto abriu os olhos.

O templo dormia.

As freiras recolhidas, os monges em seus quartos, as outras crianças encolhidas nos catres, sonhando com mundos onde a fome e o medo não existiam.

Mas ali, naquela madrugada feita só para ele, o mundo invisível estava vivo.

Demeter sibilou, saltando da rachadura até o chão, seus pés minúsculos brilhando na escuridão. Com gestos rápidos, apontou para a viga acima da cama. Uma linha fina, quase imperceptível, cortava a madeira, uma fenda nascida da umidade e do tempo.

Zayto se ergueu sem fazer som, sentindo a pedra gelada sob os pés nus. Aproximou-se da viga com cuidado. Esticou a mão. Seus dedos pequenos tocaram a fenda.

Uma leve vibração percorreu seu braço.

Não era apenas uma rachadura; era uma promessa.

Zayto olhou para Demeter, que saltitava excitado, e sorriu de canto.

Fechou os olhos. Respirou fundo.

E, num gesto quase imperceptível, como se soprasse uma vela, desejou que a madeira cedesse só um pouco, só para que ele soubesse que podia.

Durante um segundo, nada aconteceu.

Então, um estalo — baixo, como o estouro de uma linha de costura — cortou o silêncio.

A fenda se alargou um fio de cabelo. Pó fino caiu do teto, cintilando na luz fraca que entrava pela janela alta.

Zayto recuou, olhos arregalados.

Asthos deslizou pela parede, envolvendo-o numa sombra protetora.

— Viu? — a voz de Zender soou em seu peito, orgulhosa. — Você é parte do templo agora. Parte do que vai destruí-lo.

Zayto trincou os dentes, sentindo uma onda de algo novo correr por ele. Não era medo. Não era culpa.

Era poder.

Ele passou o que restava da madrugada caminhando pelo templo, guiado por Demeter, Asthos e Zender.

Aprendeu a reconhecer onde as pedras estavam cansadas, onde o ferro dos portões começava a enferrujar, onde a umidade minava os alicerces.

Em cada canto, ele tocava levemente — e cada toque era um sussurro de ruína.

Na cozinha, encontrou uma viga acima da despensa, inchada pela água das chuvas. Com um olhar, plantou nela a semente da quebra.

No pátio interno, viu a base da estátua de São Jerônimo coberta de musgo. Demeter o ajudou a entender: o musgo era como eles, pequeno e invisível, mas capaz de desintegrar pedra com o tempo.

Zayto sorriu e tocou o musgo como quem faz uma promessa.

Nada grandioso. Nada imediato.

Tudo pequeno.

Tudo paciente.

Enquanto caminhava, Asthos se espalhava em formas enormes pelas paredes — às vezes parecendo um exército, às vezes uma besta de mil olhos, vigiando, protegendo.

Zayto era uma sombra dentro das sombras. Um sussurro no coração de uma fortaleza moribunda.

E o templo, tão antigo e arrogante, começava a ouvi-lo.

Quando o sino das matinas ecoou, anunciando a primeira oração do dia, Zayto já estava de volta ao seu catre. Deitado, imóvel, com a respiração lenta e o olhar fixo no teto, ele esperou.

As freiras passaram, puxando as crianças pelos ombros, chamando-as para a capela.

Zayto se levantou junto com os outros, o corpo obediente, a mente desperta.

Enquanto caminhavam pelos corredores úmidos, ele sentiu, como um segundo batimento cardíaco, o leve estremecer das pedras sob seus pés.

Demeter dançava nas fendas invisíveis.

Asthos caminhava em seu encalço, um manto escuro atrás dele.

E Zender, dentro de sua alma, sorria.

— Ainda é cedo, — Zender murmurou. — Mas já começamos.

Zayto não respondeu em voz alta.

Não precisava.

Cada passo que dava, cada respiração, cada batida de seu pequeno coração dizia a mesma coisa:

"Eu estou aqui."

"Eu vejo."

"E eu vou destruir."

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