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Capítulo 5

O inverno dos seis anos de Zayto chegou como um presságio.

A primeira neve caiu numa manhã cinzenta, cobrindo o pátio do templo com uma camada fina, branca e traiçoeira.

As freiras andavam pelo claustro murmurando preces, apontando para o céu e dizendo que era um sinal de pureza, de renovação divina.

Mas, para Zayto, a neve parecia uma mortalha.

Um véu de ilusão, cobrindo a podridão que se espalhava invisível pelas pedras antigas do templo.

Ele caminhava sozinho entre as colunas do claustro, deixando pegadas miúdas e tímidas na neve.

Sentia o frio entrando pelas costuras rasgadas de suas roupas — roupas de segunda mão, de tecidos ásperos e grossos, que coçavam sua pele.

Cada sopro de vento parecia carregar vozes que o acusavam em sussurros invisíveis.

No refeitório, o frio era um visitante constante.

Entrava pelas frestas das janelas e se esgueirava entre as mesas compridas de madeira, fazendo as crianças estremecerem enquanto esperavam pelas tigelas de sopa rala.

O cheiro da sopa enchia o salão, uma mistura de cebola queimada, couve passada e água fervida, um cheiro que grudava na garganta e fazia o estômago protestar, mas que ainda era melhor do que a fome.

Zayto se sentava no mesmo lugar de sempre: o final da última mesa, próximo às paredes onde o mofo fazia desenhos negros e silenciosos.

Sentava-se sozinho, não porque quisesse, mas porque era assim que tinha que ser.

Nenhuma criança ousava se aproximar demais.

Era uma lei silenciosa, rígida como as pedras do templo.

As crianças cochichavam entre si, com olhares furtivos e gestos disfarçados.

Falavam de sua mãe, aquela mulher de olhos de fogo que havia desaparecido sem deixar vestígios.

Falavam de como Zayto às vezes falava sozinho, em voz baixa, olhando para o nada.

De como as sombras pareciam se alongar ao seu redor, mesmo quando não havia luz para projetá-las.

Algumas crianças faziam o sinal da cruz ao passar por ele, outras simplesmente desviavam os olhos, como se seu olhar fosse contagioso.

Zayto sabia de tudo.

Sentia os olhares. Sentia o peso invisível da exclusão.

E em seu silêncio, alimentava algo que crescia devagar dentro dele, uma raiva fria, paciente, como a geada que trincava as pedras ao amanhecer.

Naquele dia, o destino, ou talvez Demeter, travesso como sempre, decidiu brincar.

Um noviço, um rapaz de mãos trêmulas e rosto manchado de acne, veio trazendo as tigelas fumegantes.

O cheiro ruim da sopa se intensificou, fazendo as narinas de Zayto arderem.

O noviço, distraído, talvez querendo terminar logo para voltar a esquentar-se perto da lareira da cozinha, colocou a tigela de Zayto perto demais da próxima criança.

Tão perto que o vapor da sopa de Zayto se misturava com o da criança ao lado.

Foi o suficiente.

Eliara, uma menina de cabelos dourados e olhos claros como vidro congelado, arregalou os olhos ao ver a tigela ali, tão próxima.

Seu rosto se contorceu de repulsa, como se tivesse sido atacada por um animal imundo.

Sem pensar, sem sequer hesitar, ela esticou o braço e empurrou a tigela com força.

O prato de barro escorregou pela madeira, virou, e a sopa espessa e fervente voou pelo ar num jato grotesco.

Tudo aconteceu num instante, mas para Zayto, o tempo parecia desacelerar.

Ele viu a sopa voando em sua direção como uma onda dourada e quente.

Sentiu o impacto no colo, o líquido ardendo contra sua pele fina, encharcando suas roupas já gastas e esfarrapadas.

A dor foi imediata.

Bruta.

Subiu por seu corpo como uma labareda, fazendo seu coração bater descompassado por um momento.

E então...

Silêncio.

O refeitório inteiro congelou.

As colheres pararam a meio caminho das bocas.

As crianças ficaram imóveis, seus olhos fixos em Zayto, esperando.

Esperando o choro.

Esperando o grito.

Mas ele não gritou.

Não chorou.

Nem sequer baixou os olhos.

Ficou ali, sentado, as mãos espalmadas sobre os joelhos encharcados, o vapor da sopa subindo em redemoinhos lentos no ar frio.

Quando finalmente levantou a cabeça, seu olhar encontrou o de Eliara.

Seus olhos, que deveriam ser de uma criança pequena, eram antigos.

Olhos de quem já tinha visto muitas quedas, muitos abandonos, muitos exílios.

Olhos de uma coisa que se lembrava de tempos antes do tempo.

Sua voz, quando falou, não foi mais que um sussurro, mas cada criança no refeitório pareceu ouvi-la como se tivesse sido gritada:

— Você vai se arrepender.

Um murmúrio percorreu as mesas como uma lufada de vento gélido.

Eliara estremeceu.

Seus olhos arregalados brilharam com lágrimas que ela se apressou a piscar para longe.

Forçou uma risada, curta, trêmula, tentando dissipar o medo que já se formava, espesso como névoa, em seu peito.

As freiras, ranzinzas e impacientes, mandaram que todos voltassem a comer.

Nenhuma delas percebeu a tensão palpável no ar.

Nenhuma delas viu Demeter, pendurado na rachadura da parede acima de Zayto, balançando como uma criança maliciosa.

Nenhuma delas viu Asthos estendendo sua sombra como um manto protetor ao redor do menino.

Nenhuma delas ouviu o sussurro de Zender, ecoando apenas dentro da mente de Zayto:

— Agora eles vão começar a aprender.

A noite caiu pesada e fria sobre o templo.

O vento uivava pelas frestas das janelas como uma criatura faminta, trazendo com ele o cheiro de neve e de madeira podre.

No dormitório, as crianças se encolhiam sob seus cobertores finos, tentando encontrar calor umas nas outras.

As velas foram apagadas cedo para economizar, e a escuridão preencheu cada canto.

Zayto deitou-se na cama de madeira, a manta áspera puxada até o queixo.

Seus olhos, entreabertos, fitavam o teto invisível, onde sombras dançavam num balé silencioso.

Demeter sibilava canções antigas em sua orelha.

Asthos desenhava formas grotescas na escuridão acima.

E Zender... Zender permanecia em silêncio, mas sua presença era como uma batida constante dentro do peito de Zayto.

Então, aconteceu.

Um grito rasgou a noite, cortando o ar como uma lâmina afiada.

As crianças se ergueram em suas camas, assustadas, seus corações disparando de medo.

Olharam na direção do som.

Era Eliara.

Ela estava sentada na cama, as mãos apertadas contra o rosto.

Entre seus dedos, escorria sangue em torrentes, pingando nos lençóis, manchando as tábuas do assoalho.

O sangue parecia brilhar, vermelho e vivo, na pouca luz da lua que entrava pelas frestas.

O pânico se espalhou.

Crianças começaram a chorar.

Algumas gritaram.

Outras apenas se esconderam debaixo das mantas.

Freiras e monges acorreram, suas roupas farfalhando, seus rostos pálidos sob a luz fraca.

— Segurem-na! — gritou uma das freiras, tentando alcançar Eliara, que se debatia, gritando palavras sem sentido, olhos arregalados como os de um animal encurralado.

Um monge forte a segurou pelos ombros, tentando acalmá-la, mas o sangue continuava a escorrer sem parar.

Murmúrios de oração começaram a encher o dormitório, misturados com soluços e gritos.

No canto da sala, as crianças menores sussurravam um nome:

— Zayto...

— Foi ele...

— Ele fez isso...

Na sua cama, Zayto continuava imóvel.

Seus olhos, meio abertos, brilhavam com algo que não era emoção humana.

Um sorriso quase invisível tocava seus lábios secos.

Demeter ria baixinho, quase como o som da neve caindo.

Asthos se estendia pelas paredes, tingindo-as de um preto ainda mais denso.

Zender, finalmente, falou em sua mente:

— Assim começa.

Assim mesmo.

Sem piedade.

Sem volta.

Quando finalmente carregaram Eliara para fora, envolta em lençóis encharcados de sangue, um novo pacto foi selado no coração silencioso do templo.

A partir daquela noite, não importava o que os monges dissessem.

Não importava quantas preces as freiras murmurassem.

As crianças sabiam.

Sabiam que Zayto era diferente.

Sabiam que ele era perigoso.

Sabiam que ele não precisava de força, nem de gritos, nem de armas.

Bastava sua vontade.

Bastava sua raiva.

E com o tempo, todos aprenderiam a temer o menino do fim da mesa.

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