Capítulo 3
O sol da tarde caía como chumbo derretido sobre o pátio do templo, transformando as pedras antigas em fornalhas que queimavam os pés descalços das crianças. Zayto, agora com seus quatro anos completos, encolhia-se na sombra estreita projetada por uma das colunas do claustro. Seus dedos, já marcados por pequenas cicatrizes de trabalhos forçados, traçavam nervosamente os veios da pedra atrás de suas costas, como se buscassem alguma segurança no frio mineral contra o calor da hostilidade que o cercava.
Aos quatro anos, Zayto já entendia o significado da palavra "intocável".
Não era algo que lhe tivesse sido explicado. Nenhum adulto se dera ao trabalho de sentar-se com ele e definir o termo. Ele aprendera da única forma que as crianças verdadeiramente aprendem – através da repetição implacável da dor.
— Se você encostar nele, vai ficar aleijado também! — gritou Loran, seu rosto avermelhado pelo esforço de empurrar um colega mais novo na direção de Zayto.
O menino empurrado – um garotinho de talvez cinco anos, com olhos arregalados e boca trêmula – recuou como se tivesse visto uma cobra.
— Eu não ia encostar! — protestou, esfregando o braço onde Loran o apertara. — Só estava olhando...
— Nem olhe! — Loran deu um passo à frente, seu corpo mais alto projetando uma sombra que alcançava Zayto. — Meu pai disse que a deformidade dele é contagiosa. E que veio de um pecado da mãe dele.
Zayto manteve os olhos baixos, mas suas pálpebras tremiam. Sua língua passou rapidamente sobre os lábios ressecados, provando o suor salgado que ali se acumulava. Não respondeu. Nunca respondia.
As outras crianças, um grupo de seis ou sete que sempre seguiam Loran como abutres seguem um leão, riram em coro. O som era como facas caindo sobre uma tábua de madeira: agudo, irregular e perigosamente próximo.
— Ele nem fala direito. — zombou uma menina de tranças apertadas. — Parece um animal.
— Um animal aleijado, — corrigiu Loran, arrancando mais risadas.
Zayto respirou fundo pelo nariz, sentindo o ar quente entrar e sair de seus pulmões como fogo. Seus dedos se enterraram mais profundamente nas frestas da pedra atrás dele, até as unhas doerem.
As crianças do templo aprenderam rápido: Zayto era diferente. Era perigoso.
E naquela tarde particularmente cruel, quando os monges estavam ocupados com os preparativos para a festa do solstício e a vigilância sobre os órfãos era mais frouxa, o grupo de meninos liderados por Loran viu sua chance.
Zayto sentiu antes de ver – a mudança na qualidade do silêncio, o modo como o ar parecia ficar mais pesado. Quando ergueu os olhos, eles já estavam lá: cinco meninos formando um semicírculo à sua frente, bloqueando sua única rota de fuga.
Loran estava no centro, é claro. Seus braços cruzados sobre o peito ampliavam sua já impressionante vantagem de tamanho sobre Zayto. Atrás dele, os outros meninos se agitavam como cães de caça ansiosos pela ordem de ataque.
— Olhem como ele anda! — Loran zombou, afetando uma postura exageradamente curvada e começando a andar em círculos, arrastando um pé de forma grotesca. — Parece um caranguejo bêbado!
Risadas cortantes encheram o ar, ecoando contra as paredes do pátio como gritos de pássaros predadores. Zayto sentiu seu rosto queimar, mas não de vergonha – era algo mais profundo, mais escuro, uma emoção que ainda não sabia nomear.
— Por que você não tenta andar direito, monstro? — outro menino cuspiu, dando um passo à frente.
Zayto olhou rapidamente para os lados, buscando alguma rota de fuga, algum adulto que pudesse intervir. Mas o pátio estava deserto, e os monges estavam longe demais para ouvir.
Quando tentou se levantar, sua perna esquerda – sempre traiçoeira – dobrou-se no momento errado. Ele tropeçou para frente, os braços estendidos para amortecer a queda. Suas mãos atingiram o chão de pedra primeiro, seguidas pelos joelhos. A dor foi aguda e imediata, mas insignificante comparada ao estrondo de risadas que se seguiu.
— Olhem só! Nem ficar em pé ele consegue!
Algo quente e úmido escorria por seu joelho esquerdo. Quando Zayto olhou para baixo, viu o sangue escuro escorrendo pelo seu osso saliente, misturando-se à poeira do pátio.
Foi então que a primeira pedra atingiu suas costas.
O impacto foi surpreendentemente doloroso – uma pontada aguda que se espalhou como líquido quente por sua coluna. Zayto soltou um grunhido involuntário, o que só fez os meninos rirem mais alto.
— Vamos ver se você consegue correr agora, monstro!
Outra pedra. Esta acertou sua omoplata com um baque seco. Zayto cerrou os dentes com tanta força que sentiu uma pontada de dor em sua mandíbula. Seus olhos ardiam, mas ele se recusava a chorar. Não na frente deles. Nunca na frente deles.
Foi quando a terceira pedra – maior e mais afiada – acertou sua nuca que algo dentro dele se rompeu.
O sabor do sangue encheu sua boca – não só do lábio partido que mordera para não gritar, mas de algo mais profundo, mais visceral. Era como se sua raiva tivesse um gosto, e fosse metálico e quente.
Zayto nunca soube explicar o que aconteceu depois.
Um dos meninos – o mais novo do grupo, talvez com apenas cinco anos – deu um passo à frente para jogar outra pedra. Seu pé pisou na poça de sangue que se formara sob o joelho ferido de Zayto.
E então o menino gritou.
Não era um grito de vitória ou de zombaria. Era um som agudo, cheio de puro terror.
— Ele me tocou! Ele me tocou com o sangue!
O pânico se espalhou pelo grupo como fogo em palha seca. Loran, que um segundo antes parecia tão corajoso, recuou vários passos, seus olhos arregalados.
— Seu idiota! — ele gritou para o menino, que agora chorava e esfregava o pé como se estivesse queimando. — Agora você vai ficar igual a ele!
Zayto, ainda de joelhos, olhou para o caos que criara sem sequer levantar um dedo. O sangue escorria por seu queixo, pingando no chão em pequenos círculos vermelhos.
E pela primeira vez naquela tarde, pela primeira vez em sua vida, ele sorriu.
Foi um pequeno sorriso. Quase imperceptível. Mas estava lá.
E Loran viu.
Os olhos do menino mais velho se encontraram com os de Zayto, e por um breve instante, algo novo brilhou neles: medo.
— Ele é um demônio, — Loran murmurou, recuando mais ainda. — Vamos embora. Antes que ele faça algo pior.
O grupo se dispersou rapidamente, deixando para trás apenas o menino mais novo, que ainda chorava e limpava seu pé no chão como se pudesse apagar o contato.
Zayto ficou sozinho no pátio, o sangue secando em seu rosto, o sol da tarde pintando tudo de dourado.
Foi naquele momento que ele descobriu algo importante sobre si mesmo:
A raiva sabia melhor que as lágrimas.
E ele decidiu, ali mesmo, que nunca mais choraria.
Pelo menos não onde alguém pudesse ver.
